Fábrica de Extração de Óleo é uma dos projetos conectados para ajudar na gestão do negócio em Santo Antônio do Tauá (PA — Foto: Divulgação
A ausência de conectividade sempre foi um dos gargalos da bioeconomia amazônica. Em comunidades ribeirinhas e rurais, afastadas dos centros urbanos, a falta de sinal de celular e internet não apenas limitava o acesso à informação, mas também encarecia a produção, dificultava a rastreabilidade e ampliava impactos ambientais indiretos, entre eles, os deslocamentos frequentes por barco e estrada para resolver tarefas básicas de gestão.
Nos últimos dois anos, esse cenário começou a mudar em partes da Amazônia com a expansão da cobertura móvel para regiões estratégicas das cadeias da sociobiodiversidade.
Um projeto desenvolvido por Vivo e Natura, por exemplo, levou conectividade a 63 de 74 localidades mapeadas na região Norte, alcançando diretamente 32 cooperativas e cerca de 1,7 mil famílias fornecedoras de matérias-primas como castanha, açaí, andiroba, babaçu, piriprioca e patchouli. Ao todo, a Natura mantém hoje 52 comunidades parceiras — 45 delas na Pan-Amazônia — responsáveis por 94 cadeias produtivas.
Antes da chegada do sinal, a logística causava custos ambientais e sociais relevantes. Em muitas localidades, dados de plantio e coleta eram registrados em planilhas arcaicas e offline. Para emitir uma nota fiscal ou enviar informações rotineiras, produtores precisavam viajar horas até a cidade mais próxima, com gasto de combustível, perda de tempo produtivo e atraso nos pagamentos.
A conectividade passa a atuar, assim, como uma resposta prática a um problema estrutural da bioeconomia amazônica. De acordo com a diretora de Marketing e Operações B2B da Vivo, Karina Baccaro, o projeto não foi estruturado com foco em retorno financeiro direto. “A expansão da conectividade na região está inserida no nosso esforço contínuo de ampliar e qualificar nossa infraestrutura no país, com investimentos que ultrapassam R$ 9 bilhões ao ano”, afirmou. Para ela, o impacto deve ser observado “a partir das transformações concretas que a conectividade viabiliza no dia a dia das cooperativas e das famílias”.
As transformações constroem uma nova rotina produtiva. Com acesso à rede, cooperativas passaram a operar sistemas digitais, realizar transações financeiras com mais segurança e acelerar processos de rastreabilidade — um requisito cada vez mais exigido em cadeias ligadas à conservação da floresta. Na prática, menos deslocamentos significam menor custo ambiental, enquanto mais previsibilidade de renda fortalece atividades sustentáveis em detrimento de usos predatórios do território.
Na avaliação de diretora de Tecnologia da Informação da Natura, Renata Marques, a conectividade é um fator-chave para dar força permanente à sociobioeconomia.
“A conectividade é, de fato, uma alavanca fundamental para darmos escala à sociobioeconomia. Ela atua diretamente na eliminação de barreiras logísticas históricas e na otimização da cadeia de suprimentos”, afirmou.
Segundo ela, a digitalização permite que a gestão aconteça “em tempo real”, garantindo agilidade, segurança e rastreabilidade — em busca da eficiência econômica, aliada à coerência ambiental da cadeia.
Os efeitos extrapolam a produção. Em comunidades como Campo Limpo, em Santo Antônio do Tauá (PA), a chegada da conectividade reduziu deslocamentos, aumentou a autonomia das cooperativas e ampliou o acesso à educação e à capacitação. Agora, é mais viável economicamente e ambientalmente produzir insumos como piriprioca, estoraque, patchouli e capitiú, que abastecem linhas da Natura para a fabricação de cosméticos.
Fábrica auxilia produção da Natura em Santo Antônio do Tauá (PA) — Foto: Divulgação
Além disso, há implicações ambientais indiretas, ao estimular a permanência de jovens nas comunidades e fortalecer cadeias produtivas associadas ao uso sustentável da floresta.
“Entendemos que os impactos mais relevantes da conectividade muitas vezes não são capturados por números, mas pelas mudanças que ela provoca na vida das pessoas”, afirmou Karina Baccaro. Na visão de Karina, o acesso à internet contribui para que jovens “enxerguem perspectivas de futuro em seus próprios territórios”, reduzindo a migração forçada e reforçando o protagonismo local.
A conectividade também dialoga com outras frentes ambientais. A Vivo mantém o projeto Floresta Futuro Vivo, voltado à restauração ecológica no mosaico Gurupi–Turiaçu, entre o oeste do Maranhão e o leste do Pará, uma das áreas mais pressionadas do bioma. A iniciativa prevê a recuperação e proteção de cerca de 800 hectares ao longo de 30 anos, com o plantio e conservação de aproximadamente 900 mil árvores de 30 espécies nativas, além da reconexão de fragmentos florestais e da proteção de espécies ameaçadas.
Para Renata Marques, tecnologia e conservação precisam caminhar juntas. “Ao digitalizar essas comunidades, não estamos apenas otimizando a compra de insumos; estamos garantindo a infraestrutura necessária para que a floresta permaneça em pé e produtiva”, afirmou.


