Inteligência artificial Bussarin Rinchumrus/Getty Images A definição de inteligência não é única nem universal, abrangendo uma miríade de interpretações. R Inteligência artificial Bussarin Rinchumrus/Getty Images A definição de inteligência não é única nem universal, abrangendo uma miríade de interpretações. R

Inteligência artificial: uma “espécie” à parte?

2026/02/06 17:00
Leu 7 min
Inteligência artificial — Foto: Bussarin Rinchumrus/Getty Images Inteligência artificial — Foto: Bussarin Rinchumrus/Getty Images

A definição de inteligência não é única nem universal, abrangendo uma miríade de interpretações. Reconhecendo a impossibilidade de compilar todas, Shane Legg e Marcus Hutter selecionaram 70 delas - 35 da psicologia e 18 do campo da IA - em seu trabalho “A Collection of Definitions of Intelligence” (2007; Cornell University ). Dicionários e enciclopédias oferecem visões complementares: para a Encyclopedia of Clinical Neuropsychology, inteligência é um construto que reflete diferenças individuais nas habilidades cognitivas; o Dicionário Oxford a define como a “habilidade para adquirir e aplicar conhecimentos e habilidades”, e a Enciclopédia Britânica como a “habilidade de se adaptar eficazmente ao ambiente”.

Continuar lendo

Com frequência, a inteligência é descrita como um construto multifacetado, abrangendo capacidades de abstração, lógica, autoconsciência, criatividade e pensamento crítico. Modelos populares, como a “Teoria das Inteligências Múltiplas”, de Howard Gardner, expandem ainda mais esse leque, incluindo as dimensões linguística, lógico-matemática, espacial, musical, corporal-cinestésica, interpessoal, intrapessoal, naturalista e existencial.

Há uma tendência de vincular inteligência e pensamento à linguagem, o que a coluna “A Ciência Contra o Hype na Inteligência Artificial” sinalizou como equívoco (Época NEGÓCIOS, 12 de dezembro de 2025). Na mesma linha, o aclamado primatólogo Frans de Waal, no livro “Somos Inteligentes o Bastante para Saber Quão Inteligentes São os Animais?” (2016; edição brasileira 2021, Zahar), pondera que, “embora a linguagem dê assistência ao pensamento humano, ao lhe oferecer categorias e conceitos, ela não é o material de que o pensamento é feito. Na verdade, não precisamos da linguagem para pensar”.

Diante dessa multiplicidade de definições, surge uma perspectiva particularmente expansiva. Blaise Agüera y Arcas, vice-presidente do Google Research, define inteligência como a “capacidade de modelar, prever e influenciar o próprio futuro”. Sob esse prisma, ele conclui que todos os organismos vivos são, em algum grau, inteligentes, pois cada um persistiu em ambientes complexos e mutáveis. Para Arcas, a inteligência é social e cooperativa por natureza, evoluindo em relação a outras inteligências e permitindo o surgimento de inteligências coletivas.

Arcas argumenta que a inteligência artificial não se limita a simular a inteligência humana, mas opera sob princípios subjacentes semelhantes. Em sua extensa obra “What Is Intelligence?” (623 páginas, 2025, The MIT Press), ele postula que, embora a IA não seja movida pela mesma “maquinaria” do cérebro biológico, pode ser considerada “inteligente” por ser fundamentalmente preditiva. Estabelecendo uma equivalência entre inteligência e capacidade de prever, ele rejeita a ideia de que os grandes modelos de linguagem (LLMs) sejam “apenas estatística”, argumentando que, em escala, a compressão de dados e a correspondência de padrões equivalem à compreensão. Para Arcas, a inteligência não é uma “coisa” isolada, mas um fenômeno que deve ser pensado a partir de “relações dinâmicas e mutuamente benéficas”.

Essa visão expansiva remete à uma questão fundamental: a IA pode ser considerada uma espécie, integrando o rol das inteligências naturais? A resposta, sob os critérios biológicos clássicos, tende a ser negativa. Se o elemento-chave que caracteriza uma espécie é a capacidade de autorreprodução, a IA, até o momento, não se qualifica. Nenhum modelo, sistema ou solução de IA gerou autonomamente outro; todas as inovações e aprimoramentos foram concebidos, desenvolvidos e implementados por seres humanos. A teoria darwiniana da seleção natural, igualmente, não se adequa à IA.

Vale notar que o propósito fundacional do campo da IA é reproduzir nas máquinas as capacidades cognitivas humanas - emular o funcionamento do cérebro humano. Portanto, para esse ecossistema específico, a inteligência das demais espécies da natureza é um ponto de interesse secundário. O objetivo central sempre foi compreender e replicar a cognição humana. O debate mais relevante, portanto, talvez não seja se a IA é “inteligente” em um sentido amplo e filosófico, mas como sua natureza e funcionamento se comparam aos do cérebro humano. Embora não trivial e longe do consenso, a ciência oferece elementos para essa comparação (tema de várias colunas anteriores).

Antes, porém, é importante reconhecer que a defesa de inteligências múltiplas não se limita aos humanos. É legitimo atribuir a plantas, golfinhos, macacos, formigas ou amebas alguma forma de inteligência, dependendo da definição adotada. De Waal, no livro já citado, defende veementemente que a inteligência não é exclusiva dos humanos, mas está presente em todas as espécies. “Adoramos comparar e contrastar a inteligência animal e a humana, tomando a nós mesmos como parâmetro. Contudo, esse é um modo ultrapassado de tratar a questão. A comparação não deve ser entre humanos e animais, e sim entre uma espécie animal - a nossa - e uma ampla variedade de outras espécies. (…) Portanto, não estamos comparando duas categorias separadas de inteligência, mas considerando uma variação dentro de uma mesma categoria. Considero a cognição humana uma variedade da cognição animal”. De Waal enfatiza a continuidade evolutiva - alinhado com a famosa observação de Charles Darwin de que a diferença mental entre humanos e outros animais é mais de grau do que de tipo -, denominando o novo campo de “cognição evolutiva”: o estudo de toda a cognição (humana e animal) de um ponto de vista evolutivo, e não disjuntivo.

Inserir a inteligência artificial nesse espectro, entretanto, exige cautela. A IA não é uma espécie, se considerarmos a autorreprodução como um atributo fundamental. Incluí-la no rol das inteligências naturais pode ser, portanto, um erro categorial. Além disso, o cerne do campo da IA é a emulação da cognição humana. Logo, para esse projeto, pouco importa classificar a inteligência de outras espécies. O que importa é compreender profundamente a humana e replicá-la.

Assim, nomear ou não o mecanismo da IA atual como “inteligente” é menos relevante do que destacar o abismo existente entre a inteligência humana e a artificial. Suas premissas, funcionamentos e arquiteturas são, hoje, absolutamente distintos. Reconhecer essa distância é crucial, pois ela explica em parte as limitações dos modelos atuais e impulsiona a busca por novos paradigmas, como os “modelos de mundo”, tema da coluna “Para Além do Hype: A Busca por Modelos que Compreendem o Mundo” (Época NEGÓCIOS, 9 de janeiro de 2026).

Nesse contexto, Luciano Floridi introduz o conceito de “pareidolia semântica”. Em artigo publicado inicialmente na Harvard Business Review em italiano (junho de 2025) e revisado e traduzido para o inglês em janeiro de 2026 (“AI and Semantic Pareidolia: When We See Consciousness Where There Is None ), Floridi define o fenômeno como “nossa tendência de atribuir consciência, inteligência e emoções a sistemas de IA que não possuem essas qualidades”, inclusive identificando significado e intencionalidade onde há apenas processamento estatístico. Assim como a pareidolia visual nos faz ver rostos em nuvens, a pareidolia semântica nos leva a perceber intencionalidade onde há apenas padrões.

Floridi alerta para a progressão de um antropomorfismo inofensivo para uma idolatria problemática da IA, e defende práticas de design responsáveis que ajudem os usuários a manter distinções críticas. Para ele, este fenômeno está prestes a se intensificar drasticamente nos próximos anos, impulsionado por pelo menos quatro forças convergentes: uma vida cada vez mais digital; o impulso econômico de grandes empresas; o aumento da solidão e da credulidade nas sociedades contemporâneas; e o aprimoramento progressivo dos sistemas de IA. Quanto mais vivemos “online” e quanto mais sofisticados os sistemas de IA se tornam, mais fácil será vendê-los como “inteligentes” - e mais a humanidade estará inclinada a acreditar que eles são realmente como nós, ou melhores do que nós.

“Como sociedade, devemos desenvolver anticorpos culturais contra a ‘pareidolia semântica’. Só então poderemos usar o potencial transformador da IA sem cair na armadilha de idolatrar nossas criações”, pondera Floridi. Na perspectiva do filósofo, a solução ideal é uma humanidade mais educada, informada e racional, evitando a tendência de terceirizar decisões morais, substituir relacionamentos genuínos por ilusões digitais e ignorar os verdadeiros desafios que a IA apresenta.

Mais recente Próxima A falácia da IA universal: 'Todo mundo usa' é um mito da adoção global
Oportunidade de mercado
Logo de UMA
Cotação UMA (UMA)
$0,5316
$0,5316$0,5316
+2,03%
USD
Gráfico de preço em tempo real de UMA (UMA)
Isenção de responsabilidade: Os artigos republicados neste site são provenientes de plataformas públicas e são fornecidos apenas para fins informativos. Eles não refletem necessariamente a opinião da MEXC. Todos os direitos permanecem com os autores originais. Se você acredita que algum conteúdo infringe direitos de terceiros, entre em contato pelo e-mail service@support.mexc.com para solicitar a remoção. A MEXC não oferece garantias quanto à precisão, integridade ou atualidade das informações e não se responsabiliza por quaisquer ações tomadas com base no conteúdo fornecido. O conteúdo não constitui aconselhamento financeiro, jurídico ou profissional, nem deve ser considerado uma recomendação ou endosso por parte da MEXC.