Povos ocupam porto da empresa e protestam em frente a sedes contra decreto que privatiza canais de navegação amazônicosPovos ocupam porto da empresa e protestam em frente a sedes contra decreto que privatiza canais de navegação amazônicos

Entenda o imbróglio entre indígenas e a Cargill em Santarém (PA)

2026/02/22 03:18
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A inclusão da Hidrovia do Rio Tapajós no PND (Programa Nacional de Desestatização) colocou governo federal, indígenas e a multinacional do setor alimentício Cargill, no centro de um impasse político, ambiental e judicial no oeste do Estado do Pará (PA).

O ponto de partida é o decreto 12.600, assinado em agosto de 2025 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A norma incluiu 3 hidrovias federais no PND (Rio Madeira, Rio Tocantins e Rio Tapajós). Estar no programa significa que o governo pode realizar estudos técnicos, econômicos e jurídicos para avaliar uma eventual concessão dos serviços de navegabilidade, como dragagem e manutenção do canal.

Publicamente, o governo tem afirmado que o decreto não autoriza obras nem privatiza os rios. Diz que o texto trata exclusivamente da realização de estudos e que qualquer decisão futura dependerá de licenciamento ambiental e da realização de consulta livre, prévia e informada às comunidades afetadas, conforme a Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho).

Para indígenas de 14 povos do Baixo e Médio Tapajós, além de lideranças Kayapó, Panará e Munduruku, a medida representa o início de um processo que pode consolidar o uso intensivo do rio para o escoamento de commodities, o que prejudicará o modo de vida do povo local. 

O aumento das movimentações, com o aprofundamento do rio, pioraria a qualidade da água, com impactos na pesca e na segurança alimentar, risco a sítios arqueológicos e impactos à fauna, segundo o Citupi (Conselho Indígena Tupinambá). O Conselho reúne 18 territórios indígenas da etnia Tupinambá e Suraraitá e tem registrado protestos em suas redes sociais.

Eles dizem que não houve consulta prévia antes da edição do decreto e que os conflitos na região fizeram aumentar a violência contra os povos da região. Os nossos rios não estão à venda. Dizemos não ao decreto, à dragagem e estamos na linha de frente pela defesa dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins”, afirma o Conselho. 

Para o governo, a inclusão no PND é etapa preliminar e técnica. Para os povos indígenas, ela já sinaliza uma decisão política que pode transformar o rio em corredor permanente de exportação. 

Por meio de nota, o Ministério dos Povos Indígenas afirmou que reconhece a legitimidade da preocupação dos povos da região e que nenhuma iniciativa relacionada à dragagem, manutenção hidroviária ou qualquer outro empreendimento no Rio Tapajós pode avançar sem o consentimento livre, prévio, informado e de boa-fé dos povos diretamente afetados. 

Para o Ministério, é necessário ter “cuidado” para que os conflitos na região não aumentem a violência contra os povos originários, por isso, “seguirá atuando para que esse processo seja realizado de forma a garantir os direitos dos povos indígenas e a proteção de seus territórios”.

HISTÓRICO DE CONFLITOS

Os protestos começaram em 22 de janeiro de 2026, quando 14 povos indígenas ocuparam a sede da empresa em Santarém e incluíram bloqueios no acesso ao terminal da Cargill na cidade, além da interceptação de balsas no rio. A manifestação já reúne cerca de 1.200 pessoas. 

A Cargill opera porto na região e é uma das principais usuárias da rota para escoamento de grãos. A companhia afirmou que respeita o direito à manifestação, que cumpre a legislação brasileira e que não tem ingerência sobre o decreto federal.

Em 13 de fevereiro, a Justiça Federal do Pará acatou pedido da multinacional e determinou a desocupação forçada, no prazo de 48 horas, das vias de acesso ao complexo da empresa.   

O MPF (Ministério Público Federal) recorreu e conseguiu derrubar a decisão. Contudo, no domingo (15.fev), o recurso do MPF foi anulado, e a determinação da Justiça voltou a valer.

Na 5ª feira (19.fev.2026), cerca de 400 indígenas interceptaram balsas da empresa no rio Tapajós. Em 4 barcos, os indígenas se aproximaram de embarcações com mercadorias agrícolas, pularam no rio e nadaram até os barcos com faixas de protestos.

Em paralelo, o governo suspendeu um pregão eletrônico relacionado à dragagem do Tapajós e criou um grupo de trabalho interministerial para organizar o processo de consulta às comunidades.

Veja imagens dos protestos:

Copyright Reprodução/Instagram/@citupi.amazonia – 19.fev.2026
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