Acordei com dores nas costas depois de um torneio de golfe duro — daqueles que cobram tudo do corpo. Joguei bem, fui competitivo e saí vitorioso na minha categoria.
Ainda assim, a sensação ao levantar da cama foi clara: o corpo já não aguenta mais competir como antes.
Não me considero velho — aos 59 anos ainda me sinto um “garoto”. Mas há uma diferença importante entre sentir-se jovem e sustentar performance ao longo do tempo.
Foi essa reflexão simples, quase cotidiana, que me levou a escrever este artigo, pensando nas próximas eleições e na tomada de decisão num mundo que muda cada vez mais rápido.
Lembrei-me da candidatura de Ulysses Guimarães e do slogan “vote no velhinho”, símbolo de uma época em que experiência e história pessoal eram ativos centrais na política brasileira. Hoje, o contexto é outro.
Lula disputará mais uma eleição aos 81 anos e, se reeleito, terminará o próximo mandato aos 85. O ponto aqui não é biográfico, mas estrutural: o mundo acelerou, o custo do erro aumentou, e a margem para decisões lentas ou excessivamente delegadas ficou muito menor.
O debate sobre idade na política costuma descambar rapidamente para o campo moral: acusações de preconceito, ataques pessoais ou defesas passionais. Esse é um atalho ruim.
Idade, quando falamos de cargos de poder máximo, não é uma questão identitária. É uma variável objetiva de risco. E risco, gostemos ou não, precisa ser analisado com frieza.
Talvez por deformação profissional, tendo a olhar esse tipo de tema como gestor de portfólio. Ao longo da vida, aprendi que ignorar risco não o elimina — apenas o empurra para a cauda da distribuição, onde o custo costuma ser muito maior.
Vivemos um momento de ruptura histórica profunda. Transformações tecnológicas aceleradas, inteligência artificial, uma nova geopolítica global, transição energética, desafios fiscais e instabilidade institucional tornaram o ambiente decisório infinitamente mais complexo do que no passado recente.
Governar hoje exige lidar com sistemas interconectados, dinâmicos, e muitas vezes opacos.
Neste ambiente, o perfil de liderança necessário mudou.
Em períodos longos de estabilidade, experiência acumulada, memória institucional e senioridade são ativos valiosos. Em períodos de ruptura, esses atributos perdem peso relativo. Adaptabilidade, velocidade de processamento, energia cognitiva e abertura a novos modelos mentais passam a ser determinantes. É aqui que a idade avançada deixa de ser um dado biográfico secundário e se transforma em um fator relevante de risco.
A eleição presidencial de 1989 ajuda a ilustrar o ponto. Ulysses – figura central da redemocratização, líder das Diretas Já e presidente da Assembleia Constituinte – concorreu à presidência aos 73 anos. Sua campanha assumiu explicitamente a idade, adotando o slogan “Vote no velhinho”, numa tentativa de transformar experiência em virtude eleitoral.
Não funcionou.
O eleitorado, saindo de duas décadas de ditadura, buscava ruptura, energia e futuro. A imagem do passado — ainda que heroico — soou desalinhada com o espírito do tempo. Não foi um julgamento moral sobre Ulysses, nem sobre sua biografia. Foi uma leitura intuitiva do descompasso entre liderança e momento histórico.
No mercado, não se escolhem ativos com base em intenções, simpatia ou glórias passadas. Avaliam-se probabilidade de falha, impacto dessa falha e capacidade de mitigação. Sob essa ótica, a idade avançada afeta a liderança em algumas dimensões que não podem ser ignoradas.
Primeiro, o risco de descontinuidade. A probabilidade de eventos médicos graves cresce de forma não linear com a idade. Em cargos soberanos, isso representa um risco binário, de impacto extremo e praticamente impossível de mitigar. Biologia não é opinião.
Segundo, o risco cognitivo estrutural. Mesmo indivíduos brilhantes sofrem, em média, redução na velocidade de processamento e maior dificuldade em lidar simultaneamente com múltiplas variáveis novas. Em um mundo que exige decisões rápidas sobre sistemas altamente complexos, isso é material.
Terceiro, o risco de governança e agency. Quanto mais avançada a idade, maior tende a ser a delegação de decisões críticas. O poder real migra para assessores não eleitos, diluindo responsabilidade, transparência e accountability.
Por fim, o risco de um erro irreversível. Decisões presidenciais criam dependência de trajetória. Nomeações, marcos regulatórios, escolhas fiscais e alinhamentos internacionais produzem efeitos que duram décadas. Um erro cometido por incompreensão estrutural — e não por má-fé — pode custar muito caro ao País.
É importante ser claro: idade, por si só, não desqualifica ninguém. O risco surge da combinação entre idade muito avançada e um ambiente de transformação acelerada.
Empresas entendem isso. Conselhos de administração impõem limites etários, planejam sucessão e avaliam risco de continuidade como parte explícita de sua responsabilidade fiduciária. A política prefere fingir que essas variáveis não existem.
Discutir idade na liderança não é preconceito. É responsabilidade com o futuro. Nenhum gestor sério alocaria capital relevante em um ativo com alto risco de descontinuidade, problemas de governança e baixa adaptabilidade estrutural sem exigir um prêmio extraordinário. Em cargos soberanos, esse prêmio simplesmente não existe.
Num mundo em transformação profunda, a pergunta correta não é se líderes idosos são bem-intencionados ou merecedores de respeito. A pergunta é se eles oferecem o melhor perfil de risco-retorno possível para conduzir sociedades complexas em momentos de ruptura histórica.
Rogério Xavier é fundador da SPX Capital.
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