Um velho fantasma que ronda os Estados Unidos de tempos em tempos desde o fim da pandemia – a estagflação, situação econômica que combina ao mesmo tempo inflação alta, desemprego elevado e economia em recessão – voltou a assombrar analistas e o mercado em meio à falta de perspectiva de uma solução rápida no conflito envolvendo EUA, Israel, Irã e países árabes vizinhos.
Os movimentos erráticos dos mercados financeiros e de petróleo nos últimos dias trouxeram de volta não só a perspectiva da volta da estagflação - alertada por pelo menos seis relatórios de gestores de investimentos e analistas de Wall Street no início da semana -, como ajudaram a trazer a inflação de volta ao debate no país, colocando em dúvida como o Federal Reserve, o Fed (o banco central dos EUA), vai reagir na condução da política de juros na próxima reunião, na semana que vem.
A expectativa de uma redução de juros a partir de julho já está sendo adiada para setembro - isso se o Fed não tiver de aumentar a taxa atual, na faixa entre 3,5% e 3,75%, para controlar a inflação, que deve crescer dos 2,4% registrados em janeiro, ainda longe da meta de 2%.
O movimento sobe-desce de expectativas foi forte na terça-feira, 10 de março. Um dia após o presidente americano Donald Trump sinalizar que o conflito no Oriente Médio poderia terminar "muito em breve", aliviando as preocupações com interrupções prolongadas no abastecimento global de petróleo, os contratos futuros do Brent caíram mais de 12% ao longo do dia, para US$ 85 por barril.
O anúncio das maiores economias do mundo que vão liberar suas reservas estratégicas de petróleo também contribuiu para impulsionar as ações em todo o mundo e trouxe um respiro ao mercado financeiro, revertendo parcialmente o clima de pânico registrado na véspera, quando o barril chegou a ser cotado em US$ 120, o maior valor em quatro anos.
A tentativa de Trump de retomar o protagonismo na condução do conflito, porém, mostrou-se insuficiente para barrar os efeitos na economia americana e global causados pelo fechamento do Estreito de Ormuz, próximo à costa iraniana e responsável por 20% do transporte de petróleo do mundo.
A rigor, o fechamento do estreito está se revelando o fator mais temido da guerra, pois afeta a produção, o armazenamento e o transporte de petróleo, gás natural e fertilizantes do Golfo Pérsico para o resto do mundo. E a Casa Branca se mostra de mãos atadas para reabrir a via, o que depende mais do Irã do que do poderoso arsenal americano.
Para se ter uma ideia da interconexão do bloqueio de Ormuz com a economia global, o fato de os EUA serem o maior produtor mundial de petróleo – com 13,6 milhões de barris/dia – não impediu uma nova elevação do preço da gasolina no país na terça, 10, atingindo uma média de US$ 3,54 por galão, um aumento de 19% desde o início do conflito, em 28 de fevereiro.
Os preços do diesel também subiram 24% nos EUA no período, chegando a quase US$ 4,66 por galão. Esses preços podem aumentar o custo de tudo o que é transportado por caminhão, de encomendas da Amazon a alimentos.
Exagero e tensão
A preocupação com a volta da estagflação – exagerada, pelo menos por enquanto – começou a tomar forma na sexta-feira da semana passada, quando um relatório do Departamento de Trabalho mostrou um pequeno aumento do desemprego nos EUA, de 4,3% em janeiro para 4,4% em fevereiro. Mas o que surpreendeu os analistas foi outro indicador, o fechamento de 92 mil empregos em apenas um mês.
O presidente do Fed de Chicago, Austan Goolsbee, observou no mesmo dia que o aumento do desemprego, somado ao choque do preço do petróleo, cria "exatamente o tipo de ambiente estagflacionário tão desconfortável quanto qualquer outro que um banco central enfrenta".
A invasão russa da Ucrânia, há quatro anos, elevou drasticamente os preços da energia, e desde então o termo estagflação não era repetido com tanta força nos EUA. Na época, sobraram previsões de uma recessão que nunca se concretizou.
Hoje o quadro é diferente por dois motivos. Primeiro, o mercado de trabalho americano está mais lento do que em 2022. E o choque petrolífero resultante da guerra com o Irã é potencialmente muito maior do que o da guerra com a Rússia.
Isso porque a interrupção do fornecimento no Estreito de Ormuz cria um choque de oferta potencial muito maior, que se estende além do petróleo, elevando os custos de energia e fertilizantes, prejudicando a plantação de alimentos no início da primavera no Hemisfério Norte, com potencial aumento da inflação e redução do crescimento.
Esse combo deve aumentar o dilema do Fed em relação às taxas de juros. Antes da guerra, o BC americano já estava com dificuldades para levar a inflação de volta à sua meta de 2%. Com um mercado de trabalho mais frágil, a expectativa é de que mantenha as taxas estáveis, mas a previsão de voltar a cortar juros em julho deve ser adiada para a reunião de setembro.
A ressurgência da inflação representaria um problema particularmente espinhoso para o Fed, que simultaneamente enfrenta um mercado de trabalho estagnado. Qualquer tentativa de impulsionar a economia com cortes nas taxas de juros poderia agravar a inflação, enquanto adiar essas medidas poderia causar um aumento no desemprego.
Cada aumento de US$ 10 por barril no preço do petróleo, se sustentado, se traduz em um aumento de aproximadamente 0,05 ponto percentual na inflação "núcleo", que exclui os preços voláteis de alimentos e energia. Por outro lado, economistas do Goldman Sachs calculam que cada aumento de US$ 10 por barril no preço do petróleo, se mantido, reduziria o crescimento do PIB de 2026 em cerca de 0,1 ponto percentual.
Meio-termo
A previsão de tantos cenários potencialmente negativos explica a retomada da discussão sobre estagflação. David Kelly, estrategista-chefe global da JPMorgan Asset Management, afirma que, por enquanto, “quem quiser usar a palavra 'estagflação' com um 'e' minúsculo, pode”, mas adverte o que é urgente.
“Os EUA precisam encontrar um meio-termo com qualquer que seja o governo do Irã, porque precisam restabelecer o transporte marítimo", diz Kelly. "Eles precisam criar uma situação em que os navios-tanque possam atravessar o estreito com segurança; se isso não for possível, o problema da gasolina não será resolvido."
Ou seja, agentes do mercado começam a se irritar com as bravatas de Trump contra o Irã, sem solução no curto prazo. Dez dias após o início do bombardeio americano e israelense, a guerra se tornou global, a ponto de já envolver mais países, mais grandes potências e mais conflitos sobrepostos do que qualquer crise desde a Guerra Fria.
Pelo menos 20 países estão agora militarmente envolvidos — seja disparando, protegendo ou fornecendo suprimentos discretamente — enquanto um choque energético crescente castiga nações distantes da linha de frente.
Além de fechar o Estreito de Ormuz, o Irã atacou pelo menos 10 países desde o início da guerra, atingindo bases americanas e israelenses, capitais do Golfo Pérsico, infraestrutura petrolífera e áreas civis. Israel está lutando em duas frentes, bombardeando o Irã e combatendo o Hezbollah em terra no Líbano, onde quase 1 milhão de pessoas foram deslocadas em dez dias.
Trump continua sem apresentar um objetivo claro dos EUA, se pretende neutralizar o programa nuclear iraniano, derrubar o regime dos aiatolás ou uma terceira alternativa ainda mais catastrófica, de insuflar uma guerra civil no país persa armando a minoria curda.
A suposta intenção inicial - de reverter um índice de impopularidade doméstico acima de 50% - já ficou para trás. Menos da metade dos americanos apoiam a ação militar, o preço dos combustíveis aumentou, a inflação tende a subir e os EUA temem agora até a volta da estagflação. Nesse ritmo, Trump terá de tirar coelhos da cartola para evitar uma derrota nas eleições de meio de mandato, no segundo semestre.


