A disparada do petróleo após a escalada de tensão no Oriente Médio reacendeu alertas de inflação fora de controle, juros mais altos por mais tempo e pressão sobre moedas emergentes. Mas essa leitura, na avaliação de Gustavo Pessoa, sócio da Legacy Capital, exagera os efeitos do choque e mistura medo de curto prazo com mudanças estruturais.
“O principal driver da inflação no mundo todo, em geral, começa no petróleo”, afirma Pessoa, ao Café com Investidor, programa do NeoFeed que entrevista os principais investidores do Brasil. Mas ele faz uma ressalva central: nem todo choque vira problema duradouro.
De acordo com Pessoa, o movimento recente do barril foi rápido e intenso, impulsionado pelo risco de interrupção no Estreito de Ormuz, rota por onde passa cerca de 15% do petróleo consumido globalmente. O número impressiona, segundo ele, mas o mercado tende a superestimar cenários extremos.
“Para faltar petróleo de verdade, você precisa de uma paralisação prolongada. A demanda demora a ser destruída e o preço teria que subir muito mais”, diz Pessoa.
A premissa usada pela Legacy Capital é menos dramática do que a embutida nos preços mais curtos. “A gente trabalha com a ideia de que esse conflito acaba rápido, em semanas”, afirma o sócio da Legacy Capital.
Essa diferença de horizonte muda completamente a leitura sobre inflação e juros. Pessoa reconhece que, se o choque persistisse, os efeitos poderiam se espalhar para além de combustíveis e logística. Mas, no cenário-base, ele vê forças mais fortes atuando no sentido oposto. “O principal fator de desinflação no mundo hoje é a inteligência artificial”, diz.
Na sua avaliação, o enfraquecimento do mercado de trabalho nos Estados Unidos, combinado ao ganho de produtividade, pressiona os preços de serviços e ajuda a conter a inflação estrutural. Esse movimento, segundo Pessoa, continua mais relevante do que a alta pontual do petróleo.
Por isso, embora os bancos centrais tenham adotado um discurso mais cauteloso, Pessoa não vê uma mudança de regime. “Com esse choque de curto prazo, os bancos centrais ficam mais cuidadosos, mas o que importa é olhar a curva longa do petróleo, não o preço spot”, afirma. Para ele, os preços futuros já refletem a expectativa de acomodação do conflito, o que limita o risco de uma inflação persistente.
No Brasil, a inflação doméstica já vinha desacelerando antes do conflito e segue próxima da meta. “A gente já projeta uma inflação muito próxima de 3% no meio do ano”, diz.
Na avaliação do gestor, o choque externo não altera esse quadro de forma relevante. “Uma inflação rodando perto da meta não combina com juros de 15%”, afirma, reforçando a expectativa de início do ciclo de cortes. A Legacy segue projetando um primeiro corte de 50 pontos-base, com os próximos movimentos dependendo mais do cenário global do que do ruído recente do petróleo.
No câmbio, Gustavo também foge do padrão mais defensivo adotado pelo mercado. Ele reconhece que, no primeiro momento de estresse, o dólar se fortalece. Mas vê esse movimento como transitório. “No primeiro momento, todo mundo corre para o dólar. Depois, os fundamentos voltam a mandar”, diz.
E, nesse ponto, ele avalia que o Brasil está mais bem posicionado do que outros emergentes. “O Brasil é exportador de petróleo. Os termos de troca melhoraram muito”, afirma, indicando que a alta da commodity pode, paradoxalmente, favorecer o real depois do choque inicial.
Na entrevista, que você assiste no vídeo acima, Pessoa também analisa o impacto das eleições presidenciais e diz que, neste momento, Flávio Bolsonaro, o candidato da direita, é favorito em relação ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.


