Eduardo Peres avalia que há falta de reflexão na proposta do fim da escala 6 X 1 e afirma que chinês e peruano aplaudirão se Brasil for nessa linhaEduardo Peres avalia que há falta de reflexão na proposta do fim da escala 6 X 1 e afirma que chinês e peruano aplaudirão se Brasil for nessa linha

É errado a lei proibir as pessoas de trabalhar, diz CEO da Multiplan

2026/03/14 17:00
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O CEO da Multiplan, Eduardo Peres, 55 anos, fez uma rara manifestação pública para expressar o que pensa sobre a proposta de reduzir a escala de trabalho 6 X 1 para 5 X 2 ou 4 X 3, defendida hoje pela administração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e por partidos governistas e de oposição no Congresso. Em forma de desabafo, numa longa conversa com o Poder360, Peres afirmou que o ideal seria ir em outro sentido, com mais flexibilização da jornada de trabalho. Disse também que suas opiniões não têm conotação político-partidária e que respeita a opção de cada pessoa, mas que a forma como o debate está sendo conduzido é errada.

Acho que o que poderia ser feito é desregulamentar o trabalho. Se a pessoa quiser trabalhar duas horas, trabalha duas horas. Se quiser trabalhar 10 horas, trabalha 10 horas. O governo não pode entrar na casa da pessoa e dizer assim: você tem que ficar em casa 2 finais de semana consecutivos”, declarou Peres.

Reduzir de maneira forçada por lei a jornada de trabalho dos brasileiros pode provocar uma redução drástica de eficiência. Isso vai resultar em desinvestimentos no país, o que ele chamou de herança “horrorosa” e com “mais gente fazendo menos coisas”.

Na avaliação de Peres, o governo não pode limitar quantas horas por dia, ou quantos dias por semana, uma pessoa pode trabalhar: “Tem caminho para tudo nessa vida. Agora, o governo limitar o que as pessoas podem ou não podem fazer na iniciativa privada? Isso é um absurdo”.

A Multiplan é uma das maiores empresas de shopping centers da América Latina. Fundada em 1975 pelo empresário José Isaac Peres, é listada em Bolsa de Valores. É proprietária e administra 20 shoppings e 2 complexos de torres comerciais no país. Seus empreendimentos reúnem cerca de 6.000 lojas. Oferece perto de 100 mil empregos diretos e indiretos. Eduardo Peres comanda o grupo desde 2023.

O empresário afirma que o fim da escala de trabalho 6 X 1 (6 dias de trabalho por 1 de descanso), proposta que tem tramitado com rapidez no Congresso, com apoio do Palácio do Planalto, é uma tentativa de “criar empregos por decreto”, algo que o setor privado não teria condições de absorver. “Como esse país vai ser mais produtivo assim?”, pergunta.

O empresário entende que no Brasil há uma intromissão do Estado na vida dos trabalhadores e dos empresários. Com a proposta da escala 6 X 1, “a dinâmica agora é outra”, pois “o mundo todo está indo por um caminho, e o Brasil pelo oposto. Como pode?”.

A seguir, o depoimento que Eduardo Peres fez ao Poder360:

“Estaremos deixando uma herança horrorosa se esse projeto for aprovado como está. Você vai ter mais gente fazendo menos coisas. Eu entendo o que se passa. Pode ter alguém querendo trabalhar menos. Tudo bem. Não quer trabalhar? Tem caminho para tudo nessa vida. Agora, o governo limitar o que as pessoas podem ou não podem fazer? Isso é um absurdo.

“Quem defende essa proposta de forma irrefletida quer criar, ou sonha criar, emprego por decreto. Só que o empresariado não terá condições de absorver isso. Será ruim para o país. Como o país vai ser mais produtivo assim?

“No Brasil, há uma intromissão grande do Estado na vida dos trabalhadores e dos empresários. Com essa proposta, sobe-se um degrau. A dinâmica agora é outra. Nas regras atuais, um empregado, mesmo querendo, já não pode trabalhar todos os dias.

“Desculpe-me, mas isso não é um país livre. A gente quer ter um welfare state sueco com uma taxa de juros de 1,75% ou um desenvolvimento em um país com taxa de juros de 15%? Não dá. Pergunte para qualquer pessoa da construção civil se está fácil contratar. Temos muitas dificuldades para contratar funcionários para obras de expansão de shoppings. Há muita concorrência dos programas sociais. Tem bolsa para tudo. Do governo federal, do Estado, da prefeitura. Não sou contra nenhum programa assistencial, mas esse assistencialismo permite em alguns casos que uma família levante mais de R$ 3.000 por mês, como vocês mesmos [Poder360] já publicaram sobre o estado de bem-estar social no Brasil.

Temos obras em shoppings em Alagoas e no Rio Grande do Sul. Temos dificuldade de contratar, lá e no Brasil inteiro. No Rio Grande do Sul, na obra da Multiplan, que deveria ter 1.000 funcionários, nunca conseguimos ficar com o quadro completo: o máximo que eu consegui chegar foi 800 contratados. Esse é o quadro para a indústria da construção civil no país inteiro. Não vejo nada disso sendo incluído no debate sobre o fim da jornada 6 X 1.

“Em um país menor em tamanho e com populações menores como Holanda e Noruega, que têm toda a infraestrutura pronta, isso funciona. Mas o Brasil tem mais de 200 milhões de habitantes. Há muitos Estados no Nordeste em que há mais pessoas recebendo Bolsa Família do que trabalhando com Carteira de Trabalho assinada. É isso que se quer para o Brasil?

Se vier o fim da jornada 6 X 1 como está sendo proposto, isso atinge a todos. Grandes, médios e pequenos. Um franqueado, por exemplo, terá a sua margem muito reduzida pelo aumento do número de funcionários e talvez não valha a pena. A herança que vai se deixar é horrorosa.

“Não tenho dúvida de que parte das empresas fechará as portas ou irá à falência se for aprovada a redução da jornada de trabalho. A herança que vai se deixar é horrorosa.

“Acho importante dizer aqui que sou um empresário que trabalha desde os 18 anos aqui na Multiplan. E faço o meu trabalho sem preferências políticas. Sou do partido do trabalho, preciso trabalhar e sou do setor produtivo.

“Os empresários fazem orçamentos e alocam verbas para tudo no negócio. Veja o caso da manutenção, por exemplo. A limpeza dos locais onde funcionam os negócios. Essa verba vai aumentar? Não vai. Mas a empresa que fornece os serviços terá de cobrar mais porque certamente terá de contratar mais mão de obra se vingar a proposta como está sendo feita de acabar com a escala 6 X 1. E o que vai acontecer? Vai ficar menos eficiente a limpeza. A verba que cada negócio tem para limpeza e manutenção não vai crescer porque o governo mudou a lei. E os prestadores de serviço ficarão numa situação difícil.

“Diferentemente do proposto no projeto em discussão no Congresso, o ideal seria que todos refletissem sobre um caminho diferente: uma flexibilização maior e uma desregulamentação da jornada de trabalho. Acho que o que poderia ser feito é desregulamentar o trabalho. Se a pessoa quiser trabalhar duas horas, trabalha duas horas. Se quiser trabalhar 10 horas, ela trabalha 10 horas. Se ela quiser trabalhar todos os dias, trabalha todos os dias. O governo não pode entrar na casa da pessoa e dizer assim: você tem que ficar em casa 2 finais de semana consecutivos.

“Recentemente, a Lupo, a Riachuelo e outras empresas anunciaram a transferência de parte de suas produções para o Paraguai. A Argentina está reduzindo regras para contratação. E no Brasil é o oposto. Cada vez que você limita as formas de contratação de trabalhadores aqui no Brasil, o chinês aplaude, o peruano aplaude, o paraguaio aplaude. Porque a gente já passou a exportar trabalho.

“É só cada um de nós olhar onde são produzidas as coisas mais simples do dia a dia e que consumimos. Se eu for no meu armário é fácil constatar isso. Comprei tudo aqui no Brasil. Mas o tênis foi feito no Vietnã, as camisas, no Peru. O que é feito aqui? 

“Como é que as fábricas do mundo vão se instalar no Brasil se aqui um funcionário às vezes custa o dobro do que recebe em outros países? E o pior é que não é um dinheiro que vai para o trabalhador, mas parte disso vai para o governo que cobra todo tipo de taxa e imposto.

“Houve um conceito proposto e adotado no governo do ex-presidente Michel Temer, segundo o qual o negociado devia prevalecer sobre o legislado. Eu acho que isso é o que tem que ser. Se houver uma negociação correta entre as partes, qual é o problema de a pessoa aceitar trabalhar? Mas agora estamos indo na direção oposta.

“Eu sou uma pessoa muito reservada e falo pouco. Mas eu precisava fazer esse desabafo. Não estou manifestando nenhum tipo de preferência político-partidária. Quando tem eleição, deve ser respeitado o direito democrático que cada um tem para votar no candidato que desejar.

“Não estou reclamando de ninguém em particular. Mas só sinto que não estou sendo representado. Ninguém fala tudo isso que estou dizendo de maneira que toda a população possa entender o que se passa e o que serão as consequências dessa proposta como está sendo apresentada, de acabar com a escala 6 X 1. Vejo uma marcha da insensatez por parte de todos. Não ouço vozes fortes no Congresso nem nas entidades de classe falando tudo isso. Estamos prestes a cometer um erro, sem fazer a reflexão devida.

“Como disse, eu acho que é uma invasão na casa da pessoa o governo decidir quando e quanto tempo cada um deve ou pode trabalhar. As pessoas precisam ser livres para empreender. Como um pequeno empreendedor vai abrir ou manter uma pequena loja, uma oficina, um bar ou restaurante? O número de funcionários de hoje terá de aumentar se essa lei for aprovada assim. Mas a receita desse empreendedor continuará igual. Será que ninguém pensa nisso? E os médios e os grandes, que tentam ajudar o Brasil a ser um país melhor, sofrerão da mesma forma”.

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