DUMAGUETE, Filipinas – A escritora veterana premiada Merlie Alunan e outras figuras literárias apelaram a um apoio mais sólido à escrita regional durante a terceira edição do Festival Literário de Dumaguete, de 17 a 19 de abril.
Numa das mesas de debate, Alunan contestou a noção há muito enraizada de que as obras produzidas fora de Manila são meramente "regionais", classificando o rótulo de "redutor".
"O regional é nacional. A escrita em cebuano não é escrita regional. É escrita nacional porque o cebuano é uma cultura em si mesma e parte da cultura filipina", afirmou.
Alunan, que começou a escrever poesia nos anos 1980, recordou as dificuldades que os escritores das províncias das Visayas e de Mindanao enfrentavam para entrar no panorama editorial, então largamente centrado em Manila.
"No nosso tempo, era muito difícil porque tinhas de ser notado por editores de difícil acesso, especialmente para nós aqui na taga-probinsiya (que vivíamos na província). Quando éramos publicados, murag nisaka ka sa langit (era como se tivéssemos subido ao céu)", explicou Alunan numa mistura de bisaia e inglês.
A poeta de 82 anos é conhecida pelas suas coleções de peças literárias, que lhe valeram seis Prémios Palanca de Poesia em inglês e um pelo conto cebuano "Pamato", em 2007.
Algumas das suas obras premiadas incluem Running with Ghosts and Other Poems, Tinalunay: Hinugpong nga Panurat nga Winaray, Susumaton: Oral Narratives of Leyte e Sa Atong Dila: Introduction to Visayan Literature.
LIT FINDS. Os visitantes percorrem uma banca de livraria durante a abertura do festival e bazar de zines que decorreu durante todo o dia a 17 de abril de 2026. Foto de Kean Bagaipo/Rappler
Alunan exortou os jovens escritores a ancorar o seu trabalho nos seus próprios contextos linguísticos e culturais, de forma a continuarem a produzir e a promover literatura nas línguas locais.
"Devem produzir a vossa própria poesia na vossa própria terra natal. Vamos defender a escrita na nossa própria língua e incentivar as crianças e os jovens a ler literatura produzida na nossa própria língua", disse.
Rica Bolipata-Santos, diretora da Ateneo de Manila University Press, sublinhou também a necessidade de fortalecer o ecossistema literário local, como em Dumaguete.
"É importante estudar o ecossistema da escrita em Dumaguete para que a leitura, a escrita, a publicação, o lucro, o florescimento e todo o ecossistema funcionem", afirmou Santos.
Um painel de profissionais dos meios de comunicação social e do meio académico provenientes de várias partes de Negros Oriental e de Siquijor partilhou também as suas perspetivas sobre a literatura na região.
Segundo Rolin Migyuel Obina, responsável administrativo da cidade de Bais, a criação da Região da Ilha de Negros (NIR) ajudará a ligar as comunidades literárias de Negros Oriental e de Negros Occidental.
"Esta NIR recém-formada ajudar-nos-á a navegar num sistema complexo para nos vermos uns aos outros através de lentes literárias, e a não nos encarar como concorrentes, mas como aliados e colegas", disse Obina.
O festival literário de três dias incluiu leituras de livros, workshops, espetáculos de arte e música, e um bazar com livrarias independentes, criadores de zines e outras obras criativas.
Numa mensagem de apoio, a responsável de comunicação e promoção do National Book Development Board (NBDB), Ma. Divine Reyes Caraecle, afirmou que o evento anual reforçaria e alargaria o acesso a livros e impulsionaria os hábitos de leitura na região.
O Duma LitFest teve início em 2024 graças ao empenho da Buglas Writers Guild, da Libraria Books e do Centro de Escrita Criativa Edilberto e Edith Tiempo da Universidade de Silliman, em parceria com o Departamento de Comércio e Indústria, o NBDB, o governo local e o Gabinete de Turismo da Cidade.
HISTÓRICO. O secretário-geral da UNACOM, Ivan Henares, entrega a placa da UNESCO ao presidente da Câmara de Dumaguete, Manuel Chiquiting Sagarbarria, durante uma cerimónia formal no Presidencia Grounds, a 17 de abril de 2026. Foto de Kean Bagaipo/Rappler
Apelidada de "Becoming", a terceira edição do festival assinalou também a histórica declaração de Dumaguete como Cidade Criativa da Literatura da UNESCO, na sequência de uma candidatura bem-sucedida em 2025. (LEIA: Uma viagem pessoal à Cidade da Literatura)
O secretário-geral da Comissão Nacional da UNESCO nas Filipinas, Ivan Henares, entregou a placa comemorativa ao presidente da Câmara Manuel "Chiquiting" Sagarbarria e ao governador de Negros Oriental, Manuel "Chaco" Sagarbarria.
Henares afirmou que a distinção foi construída a partir de muitas histórias "contadas e não contadas" há décadas, referindo-se ao Workshop Nacional de Escrita da Universidade de Silliman, amplamente reconhecido como o primeiro e mais antigo workshop de escrita criativa da Ásia.
Entretanto, o diretor do DumaLitFest 2026, Ian Rosales Casocot, um dos principais autores da candidatura, disse que a candidatura foi redigida por muitas mãos — de grupos técnicos, criativos, estudantes, professores e proprietários de livrarias — desde dezembro de 2024.
"O que torna esta conquista extraordinária é a forma como nos toca de perto. Não é uma distinção distante concedida de cima. É uma história que começou com uma simples 'chávena de café' no Adorno. A partir daí, uma cidade ousou sonhar no papel, e esse sonho tornou-se real", disse Casocot.
A capital de Negros Oriental é a segunda cidade do Sudeste Asiático a receber tal reconhecimento da UNESCO, depois de Jacarta, na Indonésia. – Rappler.com
Kean Bagaipo é um Rappler Mover e jornalista estudante radicado em Dumaguete City.


