Leitura obrigatória
Em 2004, encontrar comida filipina no Japão significava saber onde procurar — e a quem perguntar. Estava escondida nos bastidores de pequenos omise (lojas) que serviam também como mercearias e centros comunitários, largamente invisíveis para o público japonês. Eram para "nós" — os saudosos, os trabalhadores incansáveis, e aqueles que sabiam qual porta sem identificação levava a uma tigela fumegante de sinigang (sopa azeda filipina).
Agora, oito anos depois de iniciar o meu segundo capítulo a viver em Tóquio, a paisagem começou a mudar, ainda que gradualmente. À medida que celebramos o Mês da Gastronomia Filipina, vejo uma comunidade a mover-se lentamente da periferia para uma presença mais visível. Esta mudança é mais notória nos nossos espaços gastronómicos — desde o conforto de sobrevivência dos antigos omise até ao orgulho regional de hoje, e os conceitos de bistro mais intencionais que agora emergem.
A minha carreira como advogado levou-me entre muitas ilhas — as Filipinas, o Japão e o Reino Unido. Durante o meu tempo em Londres, vi uma cena gastronómica filipina vibrante que tinha conseguido atravessar fronteiras. Desde a hospitalidade refinada do Kasa and Kin, perto da Oxford Street, até ao espírito sem complexos de "lutong bahay" (comida caseira) do Coco's Lounge no noroeste de Londres, a nossa cozinha tornou-se numa parte celebrada do tecido dessa cidade.
Talvez o mais simbólico seja a casa permanente do Jollibee na icónica Leicester Square. Sempre que o peso de viver no estrangeiro sozinho se tornava demasiado pesado ou o nevoeiro londrino ficava demasiado frio para mim, encontrava o caminho até àquela fachada vermelha e amarela.
Não era apenas o sabor familiar do Chickenjoy ou do Jolly Spaghetti. Era a atmosfera. Entrar ali era como voltar às Filipinas, mesmo que por um momento. Mas o que me impressionou igualmente foi a multidão: locais de todas as origens, a fazer fila ao nosso lado. Vê-los a apreciar a nossa comida encheu-me de orgulho e ficou claro para mim que a nossa cultura não está confinada a nós, mas é algo em que outros podem entrar e também sentir-se em casa. (LER: [BizSights] Argumentando a favor do frango frito Pinoy)
Ao regressar ao Japão, o contraste é acentuado. Apesar da dimensão da nossa comunidade, a nossa cozinha permanece significativamente sub-representada em comparação com os omnipresentes restaurantes tailandeses ou vietnamitas que se encontram em cada esquina.
O antigo omise — a carinderia (pequena tasca) do bairro — foi construído com base na praticidade. Estes locais eram definidos por um extenso buffet e uma máquina de karaoke. Como afirma Johndy Zinampan, dono do Bananas Bistro e amigo próximo: "O foco era simples: comida acessível, farta e servida rapidamente. Era informal, funcional, por vezes caótico, mas sempre enraizado na comunidade." Nesses ambientes, a comida e a música eram uma defesa conjunta contra a solidão da vida no estrangeiro.
Antes da vaga moderna, pilares institucionais como o New Nanay's em Roppongi, o New Nene's Kitchen em Akabane e o Ana's Restaurant em Saitama mantinham a comunidade unida. Estas "Nanays" (mães) transformaram a culinária caseira num legado profissional, criando espaços onde as famílias podiam reunir-se para saborear genuinamente o lar.
CELEBRAÇÕES. No New Nene's Kitchen, uma das nossas praças de aldeia originais em Tóquio, cada ocasião encontra o seu lugar — aniversários, casamentos, Natal ou simplesmente estar juntos. Para muitos filipinos em Tóquio, é aqui que a vida se celebra. Fotos gentilmente cedidas por New Nene's Kitchen.
GRELHADOS. O Barrio Grill traz os sabores de Bacolod ao Japão. Foto gentilmente cedida por Pau Apsay Aquino, dona do Barrio Grill
A nossa narrativa culinária está também a tornar-se mais especializada. Estamos a ir além do genérico adobo em direção a expressões regionais distintas. O Barrio Grill em Chiba é um exemplo paradigmático, trazendo os sabores defumados de Bacolod ao Japão. O kansi e o inasal de Pau Apsay Aquino refletem um nível de mestria que valeu ao Barrio Grill o título de "Melhor Banca" no Festival Filipino por dois anos consecutivos.
ANGEL. Juri Kajiwara posa para uma fotografia em frente ao Angel's Kitchen, uma cozinha filipina móvel que leva o sabor filipino pelas ruas de Fukuoka. Foto gentilmente cedida por Juri Kajiwara
Este alcance estende-se para além da Planície de Kanto. Em Fukuoka, onde eu costumava viver, Juri Kajiwara foi pioneira com o Angel's Kitchen, um restaurante filipino móvel que leva o sabor das ilhas às ruas de Kyushu. O seu food truck reflete a mobilidade moderna da nossa diáspora — adaptável, visível e apresentando ao público japonês sabores que de outra forma poderiam nunca ter encontrado.
Se o omise era sobre sobrevivência, o moderno bistro filipino é sobre intencionalidade. No Bananas Bistro em Shinjuku, o objetivo é colmatar o fosso cultural. "A ideia", explica Johndy, "era criar um espaço onde a comida filipina pudesse estar em pé de igualdade com outras cozinhas respeitadas em Tóquio — apresentada com o mesmo cuidado que se esperaria de um bom bistro francês."
FESTA. No Bananas Bistro, a nova praça de aldeia, os antigos alunos da UP no Japão reúnem-se para a festa de Ano Novo, onde a comunidade parece familiar mesmo longe de casa.
O próprio nome é uma ponte. As bananas filipinas são a nossa principal exportação para o Japão e um produto familiar por cá. "É um ponto de entrada discreto", diz ele, "uma forma desarmante de convidar as pessoas a entrar." No Bananas, a "alma" mantém-se autêntica, mas a apresentação é concebida para ser acessível a um cliente japonês que possa estar a provar sisig pela primeira vez. É uma transição do calor animado do bar de karaoke para uma experiência gastronómica mais cuidada.
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NOVA PRAÇA DE ALDEIA. O Bananas Bistro sinaliza um novo rosto da gastronomia filipina no Japão, enraizado em sabores clássicos, mas apresentado com um renovado sentido de propósito. Com a sua fachada acolhedora (à direita), o Bananas Bistro integra uma presença filipina nova e mais visível no Japão. Reinventa a nova praça de aldeia, onde a gastronomia filipina no Japão passa de espaços escondidos para interiores intencionais e acolhedores. Fotos gentilmente cedidas por Johndy Zinampan, dono do Bananas Bistro
Enquanto celebramos estes avanços, ainda estamos numa fase inicial. A gastronomia filipina no Japão está longe de ser um nome familiar, mas há expectativa quanto ao que se seguirá. O meu tempo noutros centros globais mostrou-me o que é possível. Continua a ser o meu desejo e missão ver mais restaurantes filipinos, o Jollibee (claro) e outras marcas filipinas queridas estabelecerem uma casa permanente aqui. Vê-los a eles e à "Abelha Vermelha" no coração de Tóquio seria um sinal poderoso de que a nossa cultura finalmente encontrou o seu lugar na rotina diária japonesa.
Esta evolução é uma história de resiliência. Como afirma Johndy: "A cultura filipina é construída em camadas — a doçura ao lado da acidez, o conforto ao lado da intensidade. Tudo vem de uma longa história de intercâmbio e adaptação."
Ao celebrarmos o Mês da Gastronomia Filipina, olho para as portas destes estabelecimentos — desde os centros comunitários em Saitama até à mestria regional do Barrio Grill e à ambição moderna do Bananas Bistro. Representam uma comunidade que se move lenta mas seguramente em direção ao centro da conversa.
O espírito de Kain tayo (Vamos comer) continua a ser a nossa maior exportação. A mesa filipina está a crescer no Japão e, à medida que definimos o nosso próprio caminho, o futuro parece cada vez mais esperançoso. – Rappler.com
Ricky Aringo Sabornay é um advogado transfronteiriço que se move entre as Filipinas e o Japão, ajudando as pessoas a navegar não apenas por sistemas jurídicos diferentes, mas por diferentes formas de pensar. Dirige o Sabornay Law, firma membro da Uryu & Itoga, onde o seu trabalho se situa na interseção de dois sistemas jurídicos e duas culturas que nem sempre falam a mesma língua. Contacte-o no LinkedIn.
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