Carl Frey já atuou como assessor e consultor de organizações como o G20, a ONU, a OCDE e a Comissão Europeia Divulgação Um dos economistas mais influentes da nossa era, Carl Frey criou em 2013 uma metodologia única para medir os impactos da inteligência artificial no mercado de trabalho, utilizada pelo ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama, pelo Banco da Inglaterra e pelo Banco Mundial. Já atuou como consultor e assessor de organizações internacionais como o Fórum Econômico Mundial, o G20, a OCDE, a Comissão Europeia e a ONU, além de aconselhar líderes de diversas empresas da Fortune 500. Professor associado de Inteligência Artificial no Oxford Internet Institute e diretor do Programa de Futuro do Trabalho na Oxford Martin School, Frey é responsável ainda por alguns dos melhores livros de negócios da última década. O mais recente, How Progress Ends: Technology, Innovation, and the Fate of Nations (inédito no Brasil; em tradução livre, “Como o progresso termina: tecnologia, inovação e o destino das nações”) está na lista de melhores livros de negócios do ano do Financial Times. O cérebro decide antes: por que micro-hábitos são o verdadeiro motor da inovação Por que destruição criativa é crucial para o crescimento, segundo ganhador do Nobel de Economia Estudo revela que dançar tango ou tocar instrumento pode manter o cérebro jovem Em entrevista a Época NEGÓCIOS, Frey fala sobre as tendências que vão impactar o futuro do trabalho, aponta os principais mitos e verdades sobre a IA e revela o segredo da inovação. ÉPOCA NEGÓCIOS Quais são os movimentos que vão impactar o mercado de trabalho e as profissões nos próximos anos? CARL FREY Muitas tendências moldarão o futuro do trabalho. A inteligência artificial é uma delas, claro. De certa maneira, todos os empregos serão influenciados pela IA. Não acho que ela vá substituir todos os profissionais, porque o ser humano ainda vai superá-la em alguns domínios, especialmente os que exigem criatividade e interações pessoais. Mas certamente não haverá empregos suficientes para a maioria das pessoas conseguirem viver disso. Pelo menos é o que suspeito. Mais do que a tecnologia, porém, uma tendência que vai influenciar o mercado de trabalho são as preferências do consumidor. O que as pessoas querem comprar? Pelo que estão dispostas a pagar? Hoje, pagamos cada vez mais por experiências e serviços presenciais. Em tese, não precisaríamos de garçons em restaurantes: uma máquina poderia servir as refeições. Mas a maioria ainda quer o garçom como parte da experiência. Então haverá muito trabalho evoluindo em torno das experiências. Além disso, há mudanças demográficas: o mundo vive uma crise de fertilidade e teremos populações envelhecidas. Isso trará mais demanda por trabalhos de cuidado. Talvez surjam políticas de trabalho mais flexíveis para incentivar famílias a terem mais filhos. Esses são alguns dos movimentos que prevejo no curto prazo. NEGÓCIOS Em famoso artigo escrito em 2013, você disse que 47% de todos os empregos nos EUA corriam risco de serem substituídos pela automação. Esse número faz sentido hoje? FREY Muita coisa mudou, mas os gargalos que eu via naquela época continuam valendo. Quer dizer, mesmo que a IA seja mais rápida ou eficiente em algumas áreas, os seres humanos ainda serão melhores em atividades que requerem inovação, comunicação interpessoal e capacidade de navegar em ambientes não estruturados. Quer dizer, houve um avanço nas interações humanas no espaço virtual – alguns chatbots são muito bons –, mas isso só vai aumentar o valor da comunicação presencial. Também houve progresso em trabalhos criativos, mas ainda com limitações. Quão criativo é escrever em prosa no estilo de Shakespeare? Isso só é possível porque Shakespeare existiu. Mas a IA não conseguiria fazer algo realmente inédito. Se, em 1900, você perguntasse a um modelo de linguagem se os humanos seriam capazes de voar, ele certamente teria dito não, porque estaria se baseando apenas no passado, e só teria uma lista de fracassos como referência. Talvez olhasse para os pássaros como prova de que o voo era possível, mas concluiria que não existe ave com mais de 15 quilos capaz de levantar voo. Então, em termos de criatividade de ponta, os humanos ainda têm clara vantagem comparativa. Quanto a ambientes não estruturados, houve algum progresso – temos robôs humanoides capazes de navegar em certos espaços –, mas ainda não existe um robô doméstico capaz de realizar todas as tarefas de limpeza da casa. O maior avanço foi com a IA generativa. Mas eu não a considero uma tecnologia de automação completa. O que ela faz é reduzir barreiras de entrada em serviços profissionais – atendimento ao cliente, escrita, programação. É parecido com o impacto do Waze nos táxis. Antes, conhecer cada rua de São Paulo era uma habilidade valiosa. Depois do GPS, qualquer pessoa com carteira de motorista pode dirigir usando o aplicativo e aumentar sua renda. Isso significou mais competição e salários menores para taxistas tradicionais. NEGÓCIOS Você acredita que as pessoas não deveriam ter medo de perder seus empregos, já que haverá novas oportunidades? FREY Veja, inteligência artificial é muitas coisas. É como um veículo: pode ser um carro, um ônibus, um avião. Veículos autônomos provavelmente vão, sim, substituir taxistas, motoristas de ônibus e caminhoneiros. Mas, no caso da IA generativa, o impacto está principalmente em reduzir barreiras para a criação de conteúdo. Isso vai levar à realocação de trabalho para países onde a mão de obra é mais barata, mas ainda relativamente capacitada, trabalhando em locais com boa infraestrutura digital. Ou seja, haverá mais oportunidades para economias emergentes crescerem vendendo seus serviços nos próximos anos. Por outro lado, acho que pouca gente percebe que a IA é ótima em ambientes estáticos, mas ruim em situações que mudam rapidamente. Se o ambiente for estático – por exemplo, no ensino de conteúdos que não mudam com frequência –, a IA pode ser melhor do que qualquer tutor humano. Mas onde não há precedentes, humanos se saem melhor: aprendemos com poucos exemplos, experimentamos no mundo real, improvisamos. É aí que a IA encontra dificuldade. NEGÓCIOS Hoje é comum ver empresários da área falando da IA como a maior revolução de todos os tempos, algo que vai mudar a história da humanidade para melhor. Você concorda com isso? FREY Não exatamente. A criação da internet foi algo muito mais significativo. A transferência de informação permitiu que alguns dos principais cientistas e inovadores do mundo colaborassem globalmente. Agora, com a IA, o que temos de fato é apenas um pequeno salto de produtividade que nem chega a durar uma década, e é algo bastante restrito aos Estados Unidos. Não acho que a IA seja mais transformadora do que algo que já deu às pessoas acesso a uma quantidade quase ilimitada de informação e permitiu que algumas das melhores e mais brilhantes mentes trabalhassem juntas, mesmo vivendo em diferentes partes do planeta. NEGÓCIOS Já existe hoje um questionamento sobre os benefícios trazidos pela tecnologia. Os investidores se queixam de que não houve um retorno real. Como vê esse cenário? FREY Acho importante, sim, fazer esse questionamento: por que não vimos nos últimos anos o mesmo salto de produtividade que ocorreu, digamos, com a Segunda Revolução Industrial, centrada na eletricidade e no motor a combustão? Minha teoria é que nós estamos utilizando a IA da maneira errada. O principal uso é na automação, o que considero um erro. Se tudo o que tivéssemos feito de 1800 para cá fosse automação, teríamos agricultura produtiva e roupas de lã, mas só isso. Não teríamos antibióticos, vacinas, computadores, aviões, foguetes etc. A maior parte do progresso vem de fazer coisas novas e antes inconcebíveis. Durante a Segunda Revolução Industrial, vimos o surgimento da indústria automobilística. Observamos o nascimento de uma série de empresas fornecendo componentes para essa indústria. Houve o crescimento do comércio rodoviário e do turismo. E surgiram uma série de indústrias produzindo todos os aparelhos que você provavelmente tem na sua cozinha. Isso criou muitas novas atividades. A menos que a IA tenha a capacidade de gerar novas atividades e novas indústrias, ela jamais terá o mesmo impacto. E a produtividade mundial continuará estagnada como está hoje na Europa, na China e, até certo ponto, nos Estados Unidos. NEGÓCIOS Resumindo, o erro está em focar apenas em automação e produtividade, quando deveríamos pensar em como a criatividade e a inovação humanas podem tirar proveito da IA? FREY Exatamente. Acho que isso também tem a ver com a falta de dinamismo empresarial. Empresas grandes tendem a focar no que já fazem, investindo em automação e melhorias de processos para reduzir os custos do que já produzem. Isso é importante, claro. Mas também precisamos de alguém que lance novos produtos. Somente as pequenas empresas estão fazendo isso. A queda do dinamismo das grandes empresas é uma preocupação central, tanto nos Estados Unidos quanto na China e Europa. Empresas novas não estão surgindo, mesmo havendo lucros a serem obtidos. Ao mesmo tempo, vemos as chamadas “aquisições assassinas”, nas quais as gigantes compram concorrentes apenas para fechá-las. Essas gigantes têm mais influência política hoje do que há algumas décadas, e pressionam por regulações protetoras que dificultam a entrada de novas empresas. No meu livro, menciono que, durante a revolução do computador, companhias como Microsoft, Apple, Google e Amazon abriram capital e se tornaram gigantes por mérito próprio. Mas desde os anos 2000, vimos Instagram, WhatsApp, YouTube e muitas outras sendo adquiridas. Para voltar a um cenário mais competitivo, precisamos repensar a análise de fusões, focando menos em receita e mais em avaliação de mercado. “A menos que a IA tenha capacidade de gerar novas indústrias, ela jamais terá o mesmo impacto de outras revoluções históricas”, diz Carl Frey Divulgação NEGÓCIOS Como o poder está concentrado em tão poucas empresas, talvez seja difícil mudar isso, certo? FREY Mas isso também já foi verdade no passado. Nos anos 1980, havia muita preocupação nos EUA de que o Japão iria ultrapassar o país economicamente. A Toyota já havia superado a General Motors e a Ford, o que contribuiu para a decadência de Detroit. E à medida que as empresas japonesas avançavam em semicondutores, havia grande preocupação de que o Vale do Silício seguisse o mesmo caminho de Detroit. Mas aí houve um processo antitruste contra a IBM, a maior empresa de tecnologia da época, que a obrigou a separar hardware de software, abrindo espaço para empresas como a Microsoft entrarem no mercado de software. E, mais importante ainda, vimos a quebra da AT&T, que liberou para o mundo a Arpanet – a precursora da internet moderna. Como consequência, os EUA lideraram a transformação em software e o comércio eletrônico, enquanto o Japão estagnou. Ou seja, já observamos no passado ferramentas antitruste e de competição sendo aplicadas contra empresas com enorme poder financeiro e político. A história mostra que isso pode ser feito. NEGÓCIOS Você disse que a IA generativa olha apenas para o passado, por isso ela não ajuda a inovar. No futuro, a inovação virá mais da interação presencial? FREY A comunicação presencial continuará fundamental para a inovação. Hoje, o problema não é a falta de ideias, mas as instituições que dificultam sua execução. Na indústria farmacêutica, por exemplo, os testes clínicos são tão caros que uma pequena empresa precisa se associar a uma gigante. Outro exemplo: o GDPR [Lei Geral de Proteção de Dados da União Europeia] tem segurado a inovação. As grandes empresas conseguem arcar com custos regulatórios e ainda ampliam sua fatia de mercado, enquanto as pequenas ficam para trás. O problema não é que hoje sejamos menos criativos ou colaborativos, mas sim que nossas instituições criam barreiras e até recompensam comportamentos errados. Cientistas são incentivados a tocar vários projetos ao mesmo tempo. Mas quanto mais dispersos, é menos provável que surja algo realmente fundamental. O avanço científico exige mergulhar fundo em um problema, não se espalhar em muitos. NEGÓCIOS Existe um movimento forte por mais regulação para IA, mídias sociais e big techs. Mas você acha que precisamos de menos regulação, e não mais? FREY Precisamos, sim, de alguma regulação. Há problemas reais em torno da inteligência artificial e das redes sociais. É importante que os reguladores auditem os dados de treinamento de grandes modelos de linguagem, para garantir que não contenham informações perigosas que possam ser usadas para criar armas biológicas, por exemplo. Mas quanto mais você regula, mais difícil fica para novas empresas entrarem no mercado. E se monopolizamos a tecnologia, a inovação diminui. Quando o assunto é segurança, a questão é mais complexa. Se a IA for de código aberto, fica difícil controlar; coisas ruins podem acontecer. Se houver uma única empresa concentrando toda a tecnologia, ela terá poder demais. É um problema difícil. Infelizmente, estamos regulando demais por medo de riscos hipotéticos, em vez de responder aos problemas reais eles quando surgem. Isso afeta negativamente a inovação e o crescimento. E o mundo precisa muito dessas duas coisas. *Esta matéria foi publicada originalmente na Época NEGÓCIOS de outubro de 2025 Carl Frey já atuou como assessor e consultor de organizações como o G20, a ONU, a OCDE e a Comissão Europeia Divulgação Um dos economistas mais influentes da nossa era, Carl Frey criou em 2013 uma metodologia única para medir os impactos da inteligência artificial no mercado de trabalho, utilizada pelo ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama, pelo Banco da Inglaterra e pelo Banco Mundial. Já atuou como consultor e assessor de organizações internacionais como o Fórum Econômico Mundial, o G20, a OCDE, a Comissão Europeia e a ONU, além de aconselhar líderes de diversas empresas da Fortune 500. Professor associado de Inteligência Artificial no Oxford Internet Institute e diretor do Programa de Futuro do Trabalho na Oxford Martin School, Frey é responsável ainda por alguns dos melhores livros de negócios da última década. O mais recente, How Progress Ends: Technology, Innovation, and the Fate of Nations (inédito no Brasil; em tradução livre, “Como o progresso termina: tecnologia, inovação e o destino das nações”) está na lista de melhores livros de negócios do ano do Financial Times. O cérebro decide antes: por que micro-hábitos são o verdadeiro motor da inovação Por que destruição criativa é crucial para o crescimento, segundo ganhador do Nobel de Economia Estudo revela que dançar tango ou tocar instrumento pode manter o cérebro jovem Em entrevista a Época NEGÓCIOS, Frey fala sobre as tendências que vão impactar o futuro do trabalho, aponta os principais mitos e verdades sobre a IA e revela o segredo da inovação. ÉPOCA NEGÓCIOS Quais são os movimentos que vão impactar o mercado de trabalho e as profissões nos próximos anos? CARL FREY Muitas tendências moldarão o futuro do trabalho. A inteligência artificial é uma delas, claro. De certa maneira, todos os empregos serão influenciados pela IA. Não acho que ela vá substituir todos os profissionais, porque o ser humano ainda vai superá-la em alguns domínios, especialmente os que exigem criatividade e interações pessoais. Mas certamente não haverá empregos suficientes para a maioria das pessoas conseguirem viver disso. Pelo menos é o que suspeito. Mais do que a tecnologia, porém, uma tendência que vai influenciar o mercado de trabalho são as preferências do consumidor. O que as pessoas querem comprar? Pelo que estão dispostas a pagar? Hoje, pagamos cada vez mais por experiências e serviços presenciais. Em tese, não precisaríamos de garçons em restaurantes: uma máquina poderia servir as refeições. Mas a maioria ainda quer o garçom como parte da experiência. Então haverá muito trabalho evoluindo em torno das experiências. Além disso, há mudanças demográficas: o mundo vive uma crise de fertilidade e teremos populações envelhecidas. Isso trará mais demanda por trabalhos de cuidado. Talvez surjam políticas de trabalho mais flexíveis para incentivar famílias a terem mais filhos. Esses são alguns dos movimentos que prevejo no curto prazo. NEGÓCIOS Em famoso artigo escrito em 2013, você disse que 47% de todos os empregos nos EUA corriam risco de serem substituídos pela automação. Esse número faz sentido hoje? FREY Muita coisa mudou, mas os gargalos que eu via naquela época continuam valendo. Quer dizer, mesmo que a IA seja mais rápida ou eficiente em algumas áreas, os seres humanos ainda serão melhores em atividades que requerem inovação, comunicação interpessoal e capacidade de navegar em ambientes não estruturados. Quer dizer, houve um avanço nas interações humanas no espaço virtual – alguns chatbots são muito bons –, mas isso só vai aumentar o valor da comunicação presencial. Também houve progresso em trabalhos criativos, mas ainda com limitações. Quão criativo é escrever em prosa no estilo de Shakespeare? Isso só é possível porque Shakespeare existiu. Mas a IA não conseguiria fazer algo realmente inédito. Se, em 1900, você perguntasse a um modelo de linguagem se os humanos seriam capazes de voar, ele certamente teria dito não, porque estaria se baseando apenas no passado, e só teria uma lista de fracassos como referência. Talvez olhasse para os pássaros como prova de que o voo era possível, mas concluiria que não existe ave com mais de 15 quilos capaz de levantar voo. Então, em termos de criatividade de ponta, os humanos ainda têm clara vantagem comparativa. Quanto a ambientes não estruturados, houve algum progresso – temos robôs humanoides capazes de navegar em certos espaços –, mas ainda não existe um robô doméstico capaz de realizar todas as tarefas de limpeza da casa. O maior avanço foi com a IA generativa. Mas eu não a considero uma tecnologia de automação completa. O que ela faz é reduzir barreiras de entrada em serviços profissionais – atendimento ao cliente, escrita, programação. É parecido com o impacto do Waze nos táxis. Antes, conhecer cada rua de São Paulo era uma habilidade valiosa. Depois do GPS, qualquer pessoa com carteira de motorista pode dirigir usando o aplicativo e aumentar sua renda. Isso significou mais competição e salários menores para taxistas tradicionais. NEGÓCIOS Você acredita que as pessoas não deveriam ter medo de perder seus empregos, já que haverá novas oportunidades? FREY Veja, inteligência artificial é muitas coisas. É como um veículo: pode ser um carro, um ônibus, um avião. Veículos autônomos provavelmente vão, sim, substituir taxistas, motoristas de ônibus e caminhoneiros. Mas, no caso da IA generativa, o impacto está principalmente em reduzir barreiras para a criação de conteúdo. Isso vai levar à realocação de trabalho para países onde a mão de obra é mais barata, mas ainda relativamente capacitada, trabalhando em locais com boa infraestrutura digital. Ou seja, haverá mais oportunidades para economias emergentes crescerem vendendo seus serviços nos próximos anos. Por outro lado, acho que pouca gente percebe que a IA é ótima em ambientes estáticos, mas ruim em situações que mudam rapidamente. Se o ambiente for estático – por exemplo, no ensino de conteúdos que não mudam com frequência –, a IA pode ser melhor do que qualquer tutor humano. Mas onde não há precedentes, humanos se saem melhor: aprendemos com poucos exemplos, experimentamos no mundo real, improvisamos. É aí que a IA encontra dificuldade. NEGÓCIOS Hoje é comum ver empresários da área falando da IA como a maior revolução de todos os tempos, algo que vai mudar a história da humanidade para melhor. Você concorda com isso? FREY Não exatamente. A criação da internet foi algo muito mais significativo. A transferência de informação permitiu que alguns dos principais cientistas e inovadores do mundo colaborassem globalmente. Agora, com a IA, o que temos de fato é apenas um pequeno salto de produtividade que nem chega a durar uma década, e é algo bastante restrito aos Estados Unidos. Não acho que a IA seja mais transformadora do que algo que já deu às pessoas acesso a uma quantidade quase ilimitada de informação e permitiu que algumas das melhores e mais brilhantes mentes trabalhassem juntas, mesmo vivendo em diferentes partes do planeta. NEGÓCIOS Já existe hoje um questionamento sobre os benefícios trazidos pela tecnologia. Os investidores se queixam de que não houve um retorno real. Como vê esse cenário? FREY Acho importante, sim, fazer esse questionamento: por que não vimos nos últimos anos o mesmo salto de produtividade que ocorreu, digamos, com a Segunda Revolução Industrial, centrada na eletricidade e no motor a combustão? Minha teoria é que nós estamos utilizando a IA da maneira errada. O principal uso é na automação, o que considero um erro. Se tudo o que tivéssemos feito de 1800 para cá fosse automação, teríamos agricultura produtiva e roupas de lã, mas só isso. Não teríamos antibióticos, vacinas, computadores, aviões, foguetes etc. A maior parte do progresso vem de fazer coisas novas e antes inconcebíveis. Durante a Segunda Revolução Industrial, vimos o surgimento da indústria automobilística. Observamos o nascimento de uma série de empresas fornecendo componentes para essa indústria. Houve o crescimento do comércio rodoviário e do turismo. E surgiram uma série de indústrias produzindo todos os aparelhos que você provavelmente tem na sua cozinha. Isso criou muitas novas atividades. A menos que a IA tenha a capacidade de gerar novas atividades e novas indústrias, ela jamais terá o mesmo impacto. E a produtividade mundial continuará estagnada como está hoje na Europa, na China e, até certo ponto, nos Estados Unidos. NEGÓCIOS Resumindo, o erro está em focar apenas em automação e produtividade, quando deveríamos pensar em como a criatividade e a inovação humanas podem tirar proveito da IA? FREY Exatamente. Acho que isso também tem a ver com a falta de dinamismo empresarial. Empresas grandes tendem a focar no que já fazem, investindo em automação e melhorias de processos para reduzir os custos do que já produzem. Isso é importante, claro. Mas também precisamos de alguém que lance novos produtos. Somente as pequenas empresas estão fazendo isso. A queda do dinamismo das grandes empresas é uma preocupação central, tanto nos Estados Unidos quanto na China e Europa. Empresas novas não estão surgindo, mesmo havendo lucros a serem obtidos. Ao mesmo tempo, vemos as chamadas “aquisições assassinas”, nas quais as gigantes compram concorrentes apenas para fechá-las. Essas gigantes têm mais influência política hoje do que há algumas décadas, e pressionam por regulações protetoras que dificultam a entrada de novas empresas. No meu livro, menciono que, durante a revolução do computador, companhias como Microsoft, Apple, Google e Amazon abriram capital e se tornaram gigantes por mérito próprio. Mas desde os anos 2000, vimos Instagram, WhatsApp, YouTube e muitas outras sendo adquiridas. Para voltar a um cenário mais competitivo, precisamos repensar a análise de fusões, focando menos em receita e mais em avaliação de mercado. “A menos que a IA tenha capacidade de gerar novas indústrias, ela jamais terá o mesmo impacto de outras revoluções históricas”, diz Carl Frey Divulgação NEGÓCIOS Como o poder está concentrado em tão poucas empresas, talvez seja difícil mudar isso, certo? FREY Mas isso também já foi verdade no passado. Nos anos 1980, havia muita preocupação nos EUA de que o Japão iria ultrapassar o país economicamente. A Toyota já havia superado a General Motors e a Ford, o que contribuiu para a decadência de Detroit. E à medida que as empresas japonesas avançavam em semicondutores, havia grande preocupação de que o Vale do Silício seguisse o mesmo caminho de Detroit. Mas aí houve um processo antitruste contra a IBM, a maior empresa de tecnologia da época, que a obrigou a separar hardware de software, abrindo espaço para empresas como a Microsoft entrarem no mercado de software. E, mais importante ainda, vimos a quebra da AT&T, que liberou para o mundo a Arpanet – a precursora da internet moderna. Como consequência, os EUA lideraram a transformação em software e o comércio eletrônico, enquanto o Japão estagnou. Ou seja, já observamos no passado ferramentas antitruste e de competição sendo aplicadas contra empresas com enorme poder financeiro e político. A história mostra que isso pode ser feito. NEGÓCIOS Você disse que a IA generativa olha apenas para o passado, por isso ela não ajuda a inovar. No futuro, a inovação virá mais da interação presencial? FREY A comunicação presencial continuará fundamental para a inovação. Hoje, o problema não é a falta de ideias, mas as instituições que dificultam sua execução. Na indústria farmacêutica, por exemplo, os testes clínicos são tão caros que uma pequena empresa precisa se associar a uma gigante. Outro exemplo: o GDPR [Lei Geral de Proteção de Dados da União Europeia] tem segurado a inovação. As grandes empresas conseguem arcar com custos regulatórios e ainda ampliam sua fatia de mercado, enquanto as pequenas ficam para trás. O problema não é que hoje sejamos menos criativos ou colaborativos, mas sim que nossas instituições criam barreiras e até recompensam comportamentos errados. Cientistas são incentivados a tocar vários projetos ao mesmo tempo. Mas quanto mais dispersos, é menos provável que surja algo realmente fundamental. O avanço científico exige mergulhar fundo em um problema, não se espalhar em muitos. NEGÓCIOS Existe um movimento forte por mais regulação para IA, mídias sociais e big techs. Mas você acha que precisamos de menos regulação, e não mais? FREY Precisamos, sim, de alguma regulação. Há problemas reais em torno da inteligência artificial e das redes sociais. É importante que os reguladores auditem os dados de treinamento de grandes modelos de linguagem, para garantir que não contenham informações perigosas que possam ser usadas para criar armas biológicas, por exemplo. Mas quanto mais você regula, mais difícil fica para novas empresas entrarem no mercado. E se monopolizamos a tecnologia, a inovação diminui. Quando o assunto é segurança, a questão é mais complexa. Se a IA for de código aberto, fica difícil controlar; coisas ruins podem acontecer. Se houver uma única empresa concentrando toda a tecnologia, ela terá poder demais. É um problema difícil. Infelizmente, estamos regulando demais por medo de riscos hipotéticos, em vez de responder aos problemas reais eles quando surgem. Isso afeta negativamente a inovação e o crescimento. E o mundo precisa muito dessas duas coisas. *Esta matéria foi publicada originalmente na Época NEGÓCIOS de outubro de 2025

A IA não é criativa e jamais vai inovar como os seres humanos, afirma economista que ajudou Barack Obama

2025/12/03 17:00
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Carl Frey já atuou como assessor e consultor de organizações como o G20, a ONU, a OCDE e a Comissão Europeia — Foto: Divulgação Carl Frey já atuou como assessor e consultor de organizações como o G20, a ONU, a OCDE e a Comissão Europeia — Foto: Divulgação

Um dos economistas mais influentes da nossa era, Carl Frey criou em 2013 uma metodologia única para medir os impactos da inteligência artificial no mercado de trabalho, utilizada pelo ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama, pelo Banco da Inglaterra e pelo Banco Mundial. Já atuou como consultor e assessor de organizações internacionais como o Fórum Econômico Mundial, o G20, a OCDE, a Comissão Europeia e a ONU, além de aconselhar líderes de diversas empresas da Fortune 500.

Professor associado de Inteligência Artificial no Oxford Internet Institute e diretor do Programa de Futuro do Trabalho na Oxford Martin School, Frey é responsável ainda por alguns dos melhores livros de negócios da última década. O mais recente, How Progress Ends: Technology, Innovation, and the Fate of Nations (inédito no Brasil; em tradução livre, “Como o progresso termina: tecnologia, inovação e o destino das nações”) está na lista de melhores livros de negócios do ano do Financial Times.

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  • O cérebro decide antes: por que micro-hábitos são o verdadeiro motor da inovação
  • Por que destruição criativa é crucial para o crescimento, segundo ganhador do Nobel de Economia
  • Estudo revela que dançar tango ou tocar instrumento pode manter o cérebro jovem

Em entrevista a Época NEGÓCIOS, Frey fala sobre as tendências que vão impactar o futuro do trabalho, aponta os principais mitos e verdades sobre a IA e revela o segredo da inovação.

ÉPOCA NEGÓCIOS Quais são os movimentos que vão impactar o mercado de trabalho e as profissões nos próximos anos?
CARL FREY
 Muitas tendências moldarão o futuro do trabalho. A inteligência artificial é uma delas, claro. De certa maneira, todos os empregos serão influenciados pela IA. Não acho que ela vá substituir todos os profissionais, porque o ser humano ainda vai superá-la em alguns domínios, especialmente os que exigem criatividade e interações pessoais. Mas certamente não haverá empregos suficientes para a maioria das pessoas conseguirem viver disso. Pelo menos é o que suspeito. Mais do que a tecnologia, porém, uma tendência que vai influenciar o mercado de trabalho são as preferências do consumidor. O que as pessoas querem comprar? Pelo que estão dispostas a pagar? Hoje, pagamos cada vez mais por experiências e serviços presenciais. Em tese, não precisaríamos de garçons em restaurantes: uma máquina poderia servir as refeições. Mas a maioria ainda quer o garçom como parte da experiência. Então haverá muito trabalho evoluindo em torno das experiências. Além disso, há mudanças demográficas: o mundo vive uma crise de fertilidade e teremos populações envelhecidas. Isso trará mais demanda por trabalhos de cuidado. Talvez surjam políticas de trabalho mais flexíveis para incentivar famílias a terem mais filhos. Esses são alguns dos movimentos que prevejo no curto prazo.

NEGÓCIOS Em famoso artigo escrito em 2013, você disse que 47% de todos os empregos nos EUA corriam risco de serem substituídos pela automação. Esse número faz sentido hoje?
FREY
 Muita coisa mudou, mas os gargalos que eu via naquela época continuam valendo. Quer dizer, mesmo que a IA seja mais rápida ou eficiente em algumas áreas, os seres humanos ainda serão melhores em atividades que requerem inovação, comunicação interpessoal e capacidade de navegar em ambientes não estruturados. Quer dizer, houve um avanço nas interações humanas no espaço virtual – alguns chatbots são muito bons –, mas isso só vai aumentar o valor da comunicação presencial. Também houve progresso em trabalhos criativos, mas ainda com limitações. Quão criativo é escrever em prosa no estilo de Shakespeare? Isso só é possível porque Shakespeare existiu. Mas a IA não conseguiria fazer algo realmente inédito. Se, em 1900, você perguntasse a um modelo de linguagem se os humanos seriam capazes de voar, ele certamente teria dito não, porque estaria se baseando apenas no passado, e só teria uma lista de fracassos como referência. Talvez olhasse para os pássaros como prova de que o voo era possível, mas concluiria que não existe ave com mais de 15 quilos capaz de levantar voo. Então, em termos de criatividade de ponta, os humanos ainda têm clara vantagem comparativa. Quanto a ambientes não estruturados, houve algum progresso – temos robôs humanoides capazes de navegar em certos espaços –, mas ainda não existe um robô doméstico capaz de realizar todas as tarefas de limpeza da casa. O maior avanço foi com a IA generativa. Mas eu não a considero uma tecnologia de automação completa. O que ela faz é reduzir barreiras de entrada em serviços profissionais – atendimento ao cliente, escrita, programação. É parecido com o impacto do Waze nos táxis. Antes, conhecer cada rua de São Paulo era uma habilidade valiosa. Depois do GPS, qualquer pessoa com carteira de motorista pode dirigir usando o aplicativo e aumentar sua renda. Isso significou mais competição e salários menores para taxistas tradicionais.

NEGÓCIOS Você acredita que as pessoas não deveriam ter medo de perder seus empregos, já que haverá novas oportunidades?
FREY
 Veja, inteligência artificial é muitas coisas. É como um veículo: pode ser um carro, um ônibus, um avião. Veículos autônomos provavelmente vão, sim, substituir taxistas, motoristas de ônibus e caminhoneiros. Mas, no caso da IA generativa, o impacto está principalmente em reduzir barreiras para a criação de conteúdo. Isso vai levar à realocação de trabalho para países onde a mão de obra é mais barata, mas ainda relativamente capacitada, trabalhando em locais com boa infraestrutura digital. Ou seja, haverá mais oportunidades para economias emergentes crescerem vendendo seus serviços nos próximos anos. Por outro lado, acho que pouca gente percebe que a IA é ótima em ambientes estáticos, mas ruim em situações que mudam rapidamente. Se o ambiente for estático – por exemplo, no ensino de conteúdos que não mudam com frequência –, a IA pode ser melhor do que qualquer tutor humano. Mas onde não há precedentes, humanos se saem melhor: aprendemos com poucos exemplos, experimentamos no mundo real, improvisamos. É aí que a IA encontra dificuldade.

NEGÓCIOS Hoje é comum ver empresários da área falando da IA como a maior revolução de todos os tempos, algo que vai mudar a história da humanidade para melhor. Você concorda com isso?
FREY
 Não exatamente. A criação da internet foi algo muito mais significativo. A transferência de informação permitiu que alguns dos principais cientistas e inovadores do mundo colaborassem globalmente. Agora, com a IA, o que temos de fato é apenas um pequeno salto de produtividade que nem chega a durar uma década, e é algo bastante restrito aos Estados Unidos. Não acho que a IA seja mais transformadora do que algo que já deu às pessoas acesso a uma quantidade quase ilimitada de informação e permitiu que algumas das melhores e mais brilhantes mentes trabalhassem juntas, mesmo vivendo em diferentes partes do planeta.

NEGÓCIOS Já existe hoje um questionamento sobre os benefícios trazidos pela tecnologia. Os investidores se queixam de que não houve um retorno real. Como vê esse cenário?
FREY
 Acho importante, sim, fazer esse questionamento: por que não vimos nos últimos anos o mesmo salto de produtividade que ocorreu, digamos, com a Segunda Revolução Industrial, centrada na eletricidade e no motor a combustão? Minha teoria é que nós estamos utilizando a IA da maneira errada. O principal uso é na automação, o que considero um erro. Se tudo o que tivéssemos feito de 1800 para cá fosse automação, teríamos agricultura produtiva e roupas de lã, mas só isso. Não teríamos antibióticos, vacinas, computadores, aviões, foguetes etc. A maior parte do progresso vem de fazer coisas novas e antes inconcebíveis. Durante a Segunda Revolução Industrial, vimos o surgimento da indústria automobilística. Observamos o nascimento de uma série de empresas fornecendo componentes para essa indústria. Houve o crescimento do comércio rodoviário e do turismo. E surgiram uma série de indústrias produzindo todos os aparelhos que você provavelmente tem na sua cozinha. Isso criou muitas novas atividades. A menos que a IA tenha a capacidade de gerar novas atividades e novas indústrias, ela jamais terá o mesmo impacto. E a produtividade mundial continuará estagnada como está hoje na Europa, na China e, até certo ponto, nos Estados Unidos.

NEGÓCIOS Resumindo, o erro está em focar apenas em automação e produtividade, quando deveríamos pensar em como a criatividade e a inovação humanas podem tirar proveito da IA?
FREY
 Exatamente. Acho que isso também tem a ver com a falta de dinamismo empresarial. Empresas grandes tendem a focar no que já fazem, investindo em automação e melhorias de processos para reduzir os custos do que já produzem. Isso é importante, claro. Mas também precisamos de alguém que lance novos produtos. Somente as pequenas empresas estão fazendo isso. A queda do dinamismo das grandes empresas é uma preocupação central, tanto nos Estados Unidos quanto na China e Europa. Empresas novas não estão surgindo, mesmo havendo lucros a serem obtidos. Ao mesmo tempo, vemos as chamadas “aquisições assassinas”, nas quais as gigantes compram concorrentes apenas para fechá-las. Essas gigantes têm mais influência política hoje do que há algumas décadas, e pressionam por regulações protetoras que dificultam a entrada de novas empresas. No meu livro, menciono que, durante a revolução do computador, companhias como Microsoft, Apple, Google e Amazon abriram capital e se tornaram gigantes por mérito próprio. Mas desde os anos 2000, vimos Instagram, WhatsApp, YouTube e muitas outras sendo adquiridas. Para voltar a um cenário mais competitivo, precisamos repensar a análise de fusões, focando menos em receita e mais em avaliação de mercado.

“A menos que a IA tenha capacidade de gerar novas indústrias, ela jamais terá o mesmo impacto de outras revoluções históricas”, diz Carl Frey — Foto: Divulgação “A menos que a IA tenha capacidade de gerar novas indústrias, ela jamais terá o mesmo impacto de outras revoluções históricas”, diz Carl Frey — Foto: Divulgação

NEGÓCIOS Como o poder está concentrado em tão poucas empresas, talvez seja difícil mudar isso, certo?
FREY
 Mas isso também já foi verdade no passado. Nos anos 1980, havia muita preocupação nos EUA de que o Japão iria ultrapassar o país economicamente. A Toyota já havia superado a General Motors e a Ford, o que contribuiu para a decadência de Detroit. E à medida que as empresas japonesas avançavam em semicondutores, havia grande preocupação de que o Vale do Silício seguisse o mesmo caminho de Detroit. Mas aí houve um processo antitruste contra a IBM, a maior empresa de tecnologia da época, que a obrigou a separar hardware de software, abrindo espaço para empresas como a Microsoft entrarem no mercado de software. E, mais importante ainda, vimos a quebra da AT&T, que liberou para o mundo a Arpanet – a precursora da internet moderna. Como consequência, os EUA lideraram a transformação em software e o comércio eletrônico, enquanto o Japão estagnou. Ou seja, já observamos no passado ferramentas antitruste e de competição sendo aplicadas contra empresas com enorme poder financeiro e político. A história mostra que isso pode ser feito.

NEGÓCIOS Você disse que a IA generativa olha apenas para o passado, por isso ela não ajuda a inovar. No futuro, a inovação virá mais da interação presencial?
FREY 
A comunicação presencial continuará fundamental para a inovação. Hoje, o problema não é a falta de ideias, mas as instituições que dificultam sua execução. Na indústria farmacêutica, por exemplo, os testes clínicos são tão caros que uma pequena empresa precisa se associar a uma gigante. Outro exemplo: o GDPR [Lei Geral de Proteção de Dados da União Europeia] tem segurado a inovação. As grandes empresas conseguem arcar com custos regulatórios e ainda ampliam sua fatia de mercado, enquanto as pequenas ficam para trás. O problema não é que hoje sejamos menos criativos ou colaborativos, mas sim que nossas instituições criam barreiras e até recompensam comportamentos errados. Cientistas são incentivados a tocar vários projetos ao mesmo tempo. Mas quanto mais dispersos, é menos provável que surja algo realmente fundamental. O avanço científico exige mergulhar fundo em um problema, não se espalhar em muitos.

NEGÓCIOS Existe um movimento forte por mais regulação para IA, mídias sociais e big techs. Mas você acha que precisamos de menos regulação, e não mais?
FREY
 Precisamos, sim, de alguma regulação. Há problemas reais em torno da inteligência artificial e das redes sociais. É importante que os reguladores auditem os dados de treinamento de grandes modelos de linguagem, para garantir que não contenham informações perigosas que possam ser usadas para criar armas biológicas, por exemplo. Mas quanto mais você regula, mais difícil fica para novas empresas entrarem no mercado. E se monopolizamos a tecnologia, a inovação diminui. Quando o assunto é segurança, a questão é mais complexa. Se a IA for de código aberto, fica difícil controlar; coisas ruins podem acontecer. Se houver uma única empresa concentrando toda a tecnologia, ela terá poder demais. É um problema difícil. Infelizmente, estamos regulando demais por medo de riscos hipotéticos, em vez de responder aos problemas reais eles quando surgem. Isso afeta negativamente a inovação e o crescimento. E o mundo precisa muito dessas duas coisas.

*Esta matéria foi publicada originalmente na Época NEGÓCIOS de outubro de 2025

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