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Na ONU, Brasil critica ação na Venezuela e lógica do “vale tudo”

2026/01/06 02:03
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O Brasil afirmou durante reunião do Conselho de Segurança da ONU (Organizações das Nações Unidas) que “não se pode aceitar que os fins justifiquem os meios” ao condenar a intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela e alertar para os riscos da relativização da lei internacional. O encontro foi realizado nesta 2ª feira (5.jan.2026), na sede da ONU, em Nova York (EUA).

“O mundo multipolar do século 21, que promove paz e prosperidade, não deve ser confuso com esferas de influência. Não podemos aceitar o argumento de que o fim justifica os meios”, declarou o embaixador Sérgio Danese, representante brasileiro na ONU.

Assista à reunião do Conselho de Segurança da ONU:

Durante reunião de emergência, o embaixador rejeitou o uso da força. Disse que os bombardeios e a captura do presidente venezuelano violam a Carta das Nações Unidas e criam um precedente perigoso para a ordem global.

No discurso, o Brasil vinculou o episódio a um cenário mais amplo de enfraquecimento do multilateralismo. Citou o recorde de 61 conflitos armados ativos no mundo, 117 milhões de pessoas em crises humanitárias e crimes contra a humanidade, incluindo o genocídio em Gaza, além do avanço dos gastos militares globais.

Além disso, o embaixador defendeu a América Latina e o Caribe como uma zona de paz.

O Brasil avalia que a solução para a crise na Venezuela não passa pela imposição de medidas externas ou intervenções, mas por saídas que respeitem a autodeterminação do povo venezuelano e os marcos de sua Constituição.

Como o Brasil reiterou em diversas ocasiões, as normas que regem a coexistência entre os Estados são mandatórias e universais. Não admitem exceções baseadas em ideologia, geopolítica, interesses políticos ou econômicos, nem em qualquer outro tipo de projeto. Não se admite que a exploração de recursos naturais ou interesses econômicos justifique o uso da força ou a mudança ilegal de um governo“, disse Danese.

Apesar do tom firme, os Estados Unidos têm poder de veto no Conselho de Segurança, o que reduz a possibilidade de uma resolução. Ainda assim, a orientação do Itamaraty é se posicionar e registrar a condenação formal a ação.

Posicionamentos oficiais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Itamaraty evitam citar nominalmente Donald Trump (Partido Republicano) ou Nicolás Maduro (PSUV, esquerda). O foco brasileiro é a defesa da soberania e do multilateralismo.

Também há a preocupação em não deteriorar a relação com Washington, sobretudo com negociações em curso sobre o tarifaço e a parceria contra o crime organizado internacional.

Na mesma sessão, a China adotou uma posição mais dura. O embaixador Fu Cong disse estar “chocado” com a invasão e afirmou que os EUA poderiam ter buscado uma saída diplomática, mas optaram pelo uso indiscriminado da força. Defendeu ainda a América Latina e o Caribe como uma zona de paz.

Os Estados Unidos negaram estar em guerra com a Venezuela e afirmaram que não pretendem ocupar o país. Representantes americanos falaram em segurança no hemisfério ocidental e rejeitaram acusações de violação do direito internacional.

O episódio também acirrou o debate político no Brasil, com a oposição associando Lula ao chavismo durante o começo do ano eleitoral.

O ATAQUE

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (Partido Republicano), anunciou no sábado (3.jan.2026), em seu perfil na rede Truth Social, que o país realizou uma operação militar contra a Venezuela e capturou o presidente Nicolás Maduro (PSUV, esquerda) e a primeira-dama Cilia Flores.

O general Dan Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, afirmou que Trump ordenou a captura de Maduro na noite da 6ª feira (2.jan.2026). A operação foi realizada na madrugada de sábado (3.jan). Houve também ataques a 4 alvos no país com 150 caças e bombardeios, que decolaram de diferentes pontos e neutralizaram sistemas de defesa aérea venezuelanos.

Helicópteros militares dos EUA transportaram tropas para Caracas, capital venezuelana para capturar Maduro. A missão durou cerca de duas horas e 20 minutos.

Há questionamentos quanto ao fato de os EUA fazerem uma operação militar em outro país sem aprovação do Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas). Trump diz que isso é desnecessário.

Mas também há dúvidas sobre o descumprimento de leis dos EUA. A operação deveria ter sido previamente aprovada pelo Congresso dos EUA. O secretário de Estado, Marco Rubio, declarou que não foi possível comunicar os congressistas com antecedência.

É incerto se houve mortos e feridos na ação. Até a publicação desta reportagem, autoridades venezuelanas não haviam divulgado números, mas afirmaram que civis morreram durante a operação.

Um oficial norte-americano disse que não houve baixas entre militares dos EUA. Não falou sobre eventuais mortes venezuelanas.

COMANDO DO PAÍS

No início da tarde de sábado (3.jan.2026), Trump afirmou a jornalistas que os Estados Unidos assumiriam temporariamente a administração do país até que uma transição política fosse definida. Não detalhou como isso seria feito, concentrando-se em declarações sobre a exploração e a venda do petróleo venezuelano.

Pela Constituição venezuelana, o poder deveria ser exercido pela vice-presidente, Delcy Rodríguez. Trump disse que Rubio conversou com Rodríguez e que ela manifestou disposição para cooperar com ações lideradas pelos EUA.

Sobre a líder oposicionista María Corina Machado, vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 2025, Trump declarou que ela não teria apoio político suficiente para governar a Venezuela.

Em pronunciamento ao vivo no fim da tarde de sábado (3.jan), Rodríguez contestou as declarações de Trump, classificou a ação dos EUA como violação da soberania venezuelana e afirmou que Maduro continua sendo o presidente legítimo do país.

A vice também declarou que a Venezuela está aberta a uma relação respeitosa com o governo Trump, desde que baseada no direito internacional. “Esse é o único tipo de relação possível. Não seremos colônia de nenhum outro país”, disse.

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