O ex-embaixador dos Estados Unidos em Caracas James Story disse que Delcy Rodríguez (MSV, esquerda) é fiel a Nicolás Maduro (PSUV, esquerda) e não representa uma mudança de regime. Ela assumiu a presidência da Venezuela na 2ª feira (5.jan.2026), 2 dias depois da operação militar norte-americana que capturou o líder venezuelano e sua mulher, Cilia Flores.
“Se Maduro era um presidente ilegítimo e perdeu a eleição no ano passado, então a vice-presidente dele também é ilegítima. Como essa vice-presidente agora é a presidente?”, declarou Story, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, sobre a decisão do presidente dos EUA, Donald Trump (Partido Republicano), de apoiar Delcy como líder interina da Venezuela.
“Delcy Rodríguez nunca havia ocupado um cargo de liderança de alto nível no governo venezuelano até a chegada de Maduro. Ela se tornou chanceler, depois ministra do Petróleo e vice-presidente”, disse.
“O que me preocupa é não termos uma mudança de regime. Temos apenas a substituição de uma figura ruim por outra, ambas do mesmo clã político. Delcy é uma aliada de Maduro. Se Delcy continuar no comando e ainda não houver independência do Judiciário, será que a maioria das empresas vai querer voltar à Venezuela? Eu acho que não”, declarou o ex-embaixador.
Story afirmou que a queda de Maduro é uma chance para quem foi embora da Venezuela retornar. Ele disse que a crítica do presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), à ação dos EUA não deve prejudicar a relação bilateral entre Brasil e EUA. O chefe do Executivo declarou que os bombardeios na Venezuela e a captura de Maduro ultrapassaram a “linha aceitável”.
O ex-embaixador disse: “Eu ouvi os comentários do presidente Lula e os compreendo completamente. A soberania é de importância suprema para toda a região. Eu entendo plenamente as preocupações com a extraterritorialidade e com a ideia de entrar e remover o Maduro. Mas se isso realmente for uma restauração da democracia, dará a oportunidade para que todas as pessoas que tiveram de fugir de suas casas possam voltar, o que teria um impacto positivo enorme sobre a região”.
Trump anunciou no sábado (3.jan), em seu perfil na rede Truth Social, que o país realizou uma operação militar contra a Venezuela e capturou Maduro e sua mulher, Cilia Flores.
O general Dan Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, afirmou que o presidente dos EUA ordenou a captura de Maduro na noite da 6ª feira (2.jan). A operação foi realizada na madrugada de sábado (3.jan). Houve também ataques a 4 alvos no país com 150 caças e bombardeiros, que decolaram de diferentes pontos e neutralizaram sistemas de defesa aérea venezuelanos.
Helicópteros militares dos EUA transportaram tropas para Caracas, capital venezuelana, para capturar Maduro. A missão durou cerca de duas horas e 20 minutos.
Há questionamentos quanto ao fato de os EUA fazerem uma operação militar em outro país sem aprovação do Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas). Trump diz que isso é desnecessário.
Mas também há dúvidas sobre o descumprimento de leis dos EUA. A operação deveria ter sido previamente aprovada pelo Congresso norte-americano. O secretário de Estado, Marco Rubio, declarou que não foi possível comunicar os congressistas com antecedência.
É incerto se houve mortos e feridos na ação. Até a publicação desta reportagem, autoridades venezuelanas não haviam divulgado números, mas afirmaram que civis morreram durante a operação.
Um oficial norte-americano disse que não houve baixas entre militares dos EUA. Não falou sobre eventuais mortes venezuelanas.
No início da tarde de sábado (3.jan), Trump afirmou a jornalistas que os Estados Unidos assumiriam temporariamente a administração do país até que uma transição política fosse definida. Não detalhou como isso seria feito, concentrando-se em declarações sobre a exploração e a venda do petróleo venezuelano.
Pela Constituição venezuelana, o poder deveria ser exercido pela vice-presidente, Delcy Rodríguez. Trump disse que Rubio conversou com Rodríguez e que ela manifestou disposição para cooperar com ações lideradas pelos EUA.
Sobre a líder oposicionista María Corina Machado, vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 2025, Trump declarou que ela não teria apoio político suficiente para governar a Venezuela.
Em pronunciamento ao vivo no fim da tarde de sábado (3.jan), Rodríguez contestou as declarações de Trump, classificou a ação dos EUA como violação da soberania venezuelana e afirmou que Maduro continua sendo o presidente legítimo do país.
A vice também declarou que a Venezuela está aberta a uma relação respeitosa com o governo Trump, desde que baseada no direito internacional. “Esse é o único tipo de relação possível. Não seremos colônia de nenhum outro país”, disse.
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