“Ninguém escolheria viver sem amigos, mesmo que pudesse ter todas as outras coisas boas no lugar deles.”

Aristóteles foi um dos primeiros pensadores a tratar a amizade como tema filosófico central. Em sua Ética a Nicômaco, ela aparece como essencial a uma vida plena — tanto no plano individual como no coletivo. Quase dois milênios e meio depois, nunca como agora tanta gente viveu sem amigos.

Na era da hiperconexão e da hiperprodutividade, os vínculos voluntários, baseados em confiança, afeição e cuidado mútuo, parecem se desfazer na velocidade do scroll. O fenômeno ganhou até nome: “recessão das amizades”, termo cunhado pelo cientista político Daniel Cox, diretor do Survey Center on American Life, dos Estados Unidos.

A metáfora é precisa. Como em uma crise econômica, o esfacelamento dos laços afetivos não resulta de um colapso súbito, mas de um processo gradual de desinvestimento. As amizades enfraquecem quando atenção, presença e reciprocidade deixam de "circular". E, como acontece na economia, a insegurança aumenta e o tecido social empobrece.

Embora sutil, a recessão é veloz o suficiente para já aparecer nas estatísticas. Mergulhados na desaceleração das amizades, 25% dos brasileiros não se sentem próximos de ninguém, revela pesquisa do Instituto Locomotiva, com quase 1,7 mil pessoas entre 18 e 77 anos.

Entre os adultos americanos, 12% dizem não ter amigos íntimos — o quádruplo em relação a 1990, aponta o estudo The American Perspectives Survey.

Se, em um passado não muito distante, eles passavam 6,5 horas semanais em convivência com vínculos mais estreitos, hoje, gastam, no máximo, quatro horas.

Dos números para o cotidiano, nos últimos dois anos, nos Estados Unidos, o número de pessoas que jantam sozinhas aumentou quase 30%, de acordo com a plataforma OpenTable. Com o surgimento do vídeo, do CD e, mais recentemente, do streaming, atualmente, o americano vai, em média, três vezes por ano ao cinema. Mas passa 19 horas semanais defronte à televisão — o equivalente a oito filmes nas salas de exibição.

“No entretenimento, assim como na gastronomia, a modernidade transformou um ritual de união em uma experiência de reclusão em casa e até mesmo de solidão”, escreve o editor Derek Thompson, em artigo para a revista The Atlantic. “O isolamento autoimposto pode muito bem ser o fato social mais importante do século 21 na América.” Lá, aqui e em grande parte do mundo.

Tão simplista quanto óbvio seria explicar a recessão afetiva apenas pela vida confinada nas telas. "A tecnologia é apenas uma ferramenta e a gente se expressa por meio das ferramentas disponíveis", diz a psiquiatra e psicoterapeuta Nina Ferreira, em entrevista ao NeoFeed. "A tecnologia só amplifica um comportamento que já mora em nós como sociedade."

As raízes do esfacelamento dos laços afetivos são mais profundas e antigas, sobretudo nos grandes centros. A violência tornou o espaço público território do medo e nos trancamos em condomínios superprotegidos. Pensadas para os carros, as cidades perderam parques e jardins, áreas de convivência por excelência. Na velocidade da construção dos arranha-céus, nos tornamos mais e mais solitários.

Há ainda o velho argumento da escassez de tempo. Ultimamente, o trabalho virou a “identidade social dominante”, define a psicóloga americana Carolyn Bruckmann, em artigo para a plataforma do Laboratório de Liderança e Felicidade, da Harvard Kennedy School.

“E a amizade não é mais vista como parte integrante da vida diária, mas, sim, como algo que encaixamos quando todas as outras responsabilidades já foram cumpridas”, diz ela.

Nas classes média alta e alta, performance se tornou quase um valor moral, normalizando a sobrecarga no escritório — enaltecida nas redes profissionais e sociais. "A obsessão por esse padrão de sucesso, na realidade, é contraproducente", alerta Nina, sócia-fundadora da clínica LuxVia, em São Paulo.

Mais cedo ou mais tarde, a conta chega. E o preço cobrado é alto. O corpo adoece, a mente padece e a produtividade, claro, despenca.

Nas classes média alta e alta, performance se tornou quase um valor moral, normalizando a sobrecarga no escritório
"Se o afeto não é retribuído, ele, de alguma forma, é extinto, esquecido", diz a psiquiatra e psicoterapeuta Nina Ferreira (Foto: Arquivo pessoal)

A ideia de autossuficiência, tão valorizada no universo corporativo, ainda converte a vulnerabilidade, essencial à construção de laços genuínos de amizade, em desconforto social.

Admitir medos, dúvidas, limites e fracassos desfaz a lógica da performance permanente, criando um lugar onde não é preciso “dar conta de tudo” o tempo todo. Não à toa, para Aristóteles, o amigo é um "outro eu" — indispensável ao autoconhecimento.

Seja pela hiperconexão, seja pelo culto à alta eficiência, os mais jovens estão perdendo a habilidade de prestar de verdade atenção no outro e de lidar com o desafio (nem sempre fácil) da conexão olho no olho.

Como costuma dizer Derek Thompson, “uma infância socialmente subdesenvolvida leva a uma vida adulta socialmente atrofiada”. Nessa toada, nós, animais sociais por natureza, estamos nos transformando em seres antissociais. E as consequências podem ser desastrosas.

Do ponto de vista evolucionário, só chegamos até aqui porque estabelecemos laços uns com os outros. O contato real com os amigos próximos nos protege física e emocionalmente, evitando a escalada de um ciclo perverso — a solidão alimenta as inseguranças e medos sociais que, ao fim e ao cabo, impedem a construção de laços íntimos e duradouros, explica Nina, criadora do recém-lançado Clube Potente Mente, um aplicativo gratuito com conteúdos focados no desenvolvimento pessoal, saúde mental e autoconsciência.

Sim, a tecnologia tem serventia. "Se a ferramenta é usada para sustentar amizades do mundo concreto, o mundo virtual pode ajudar muito", defende a médica. O problema é quando os laços virtuais roubam espaço dos laços reais.

Nosso cérebro não foi programado para receber atenção sob a forma de likes, curtidas ou emojis. A qualidade da interação digital é infinitamente mais pobre do que a das presenciais. É o paradoxo das amizades contemporâneas: nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão solitários.

Em um mundo que fragmenta o tempo, supervaloriza a produtividade e empurra os momentos com os amigos para a periferia do cotidiano, criar vínculos verdadeiros passou a exigir método.

No início de 2025, a Universidade Stanford, nos Estados Unidos, por exemplo, lançou o curso Designing for Friendship, dedicado a pensar como criar e sustentar interações mais profundas e duradouras a partir dos princípios do design thinking.

Fora dos meios acadêmicos, a resposta é menos sofisticada — e talvez mais complicada. O controle da recessão das amizades depende da intenção. De escolher abrir espaço na agenda, proteger o tempo e se lançar aos encontros presenciais.  É como diz a psiquiatra: "Se o afeto não é retribuído, ele, de alguma forma, é extinto, esquecido".

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