Um relatório do Banco da Itália trouxe à tona análise incomum para instituições financeiras tradicionais: os riscos sistêmicos de um possível colapso do Ethereum (ETH). O documento examina como uma queda severa e prolongada no preço da criptomoeda poderia comprometer o funcionamento da rede e afetar centenas de bilhões em ativos digitais.
A análise marca postura rara entre bancos centrais ao tratar infraestruturas blockchain sob perspectiva de estabilidade financeira, ampliando o debate sobre riscos que transcendem o mercado especulativo de criptoativos.
O relatório define o cenário de colapso como uma queda profunda e persistente no valor do ETH capaz de comprometer os incentivos econômicos da rede. A preocupação central recai sobre o modelo de validadores descentralizados do Ethereum, que operam sem obrigação legal de manter os serviços ativos.
Os validadores enfrentam custos operacionais reais denominados em moedas tradicionais — energia, equipamentos e conectividade — enquanto suas receitas vêm exclusivamente em ETH. Numa queda prolongada de preço, esses rendimentos podem tornar-se insuficientes para cobrir despesas, levando operadores a desligarem seus nós por simples racionalidade econômica.
Esse ponto desafia a ideia de que os ativos tokenizados regulamentados estão isolados do risco cripto. O estudo afirma que, em redes permissionless, a estabilidade técnica depende diretamente do valor do token nativo.
A descentralização, geralmente considerada um ponto forte, também traz uma vulnerabilidade econômica estrutural.
A análise também destaca questões ligadas à segurança da rede. A proteção do Ethereum depende de seu “orçamento econômico”, ou seja, do custo para adquirir uma quantidade suficiente de stake e controlar o sistema. Se o valor do ETH despencar, esse custo é reduzido proporcionalmente.
Até o fim de 2025, o valor econômico que protege a rede era estimado em dezenas de bilhões de dólares. No entanto, uma queda acentuada no preço tornaria os ataques potencialmente menos custosos. O objetivo de um agente malicioso não seria obter ETH desvalorizado, mas manipular ativos tokenizados dependentes da rede.
O Ethereum abriga mais de 1,7 milhão de ativos, incluindo stablecoins e títulos tokenizados. O relatório estima que mais de US$ 800 bilhões em ativos digitais podem ser impactados. Um ataque bem-sucedido permitiria, em tese, a manipulação de registros e duplicação de transações em instrumentos do mundo real.
Nesse cenário, o impacto seria transferido diretamente ao sistema financeiro tradicional. Caso emissores fossem obrigados a resgatar ativos tokenizados, mas a contabilidade on-chain estivesse comprometida, as perdas refletiriam nos balanços fora do setor de cripto.
A ausência de um emprestador de última instância agrava a situação, pois não há mecanismo central para estabilizar a rede durante uma crise de confiança.
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