As sessões abrangem desde entrevistas de emprego até tarefas cotidianas, como fazer compras ou administrar dinheiro — Foto: Divulgação/Departamento de Correções e Reabilitação da Califórnia
A Califórnia passou a testar uma abordagem inédita de reabilitação no sistema prisional ao permitir que detentos utilizem óculos de realidade virtual para treinar entrevistas de emprego e habilidades do dia a dia. A iniciativa é conduzida pela organização sem fins lucrativos Creative Acts e já funciona em diversas unidades estaduais, com o objetivo de facilitar a reintegração social de pessoas que cumprem longas penas, segundo a Associated Press.
Na Penitenciária Estadual de Valley, em Chowchilla, internos participaram recentemente de uma semana intensiva de atividades com a tecnologia. As simulações imersivas incluem desde a prática de conversas com recrutadores até tarefas simples, como sacar dinheiro em um caixa eletrônico ou fazer compras em um supermercado. Em alguns casos, os participantes exploram cenários internacionais, como ruas da Tailândia, ampliando o contato com ambientes totalmente fora da realidade prisional.
O programa busca mitigar os efeitos do isolamento social prolongado, apontado como um dos principais obstáculos à adaptação após a libertação. Bailey O’Brian, vice-diretora da Penitenciária Estadual de Valley, afirmou à Associated Press que a iniciativa tem apresentado “sucesso notável” ao capacitar jovens encarcerados. Segundo ela, sessões de mentoria com voluntários ajudam os detentos a elaborar emoções despertadas pela experiência virtual, contribuindo para o crescimento pessoal e para a melhoria do ambiente interno.
A resposta dos participantes tem sido imediata. Jacob Smith, que passou 20 anos na prisão, relatou entusiasmo ao usar os óculos pela primeira vez e hoje atua como voluntário no apoio a outros internos durante as simulações de entrevistas de emprego. Para ele, o treinamento ajuda a enfrentar o constrangimento de explicar o próprio passado diante de um recrutador.
A fundadora da Creative Acts, Sabra Williams, define a tecnologia como uma “máquina de esperança”. Em depoimento à agência, ela destacou o impacto emocional de explorar digitalmente lugares desconhecidos, experiência que frequentemente provoca reações intensas entre os participantes.
Dados do Departamento de Correções e Reabilitação da Califórnia indicam que o projeto, que opera com cerca de cem headsets Oculus doados pela Meta, registrou uma redução de 96% nas violações disciplinares ao longo de um ano. O programa ocorre três vezes por ano em quatro prisões estaduais e é aberto tanto à população em geral quanto a detentos em regime de isolamento e jovens infratores, com planos de expansão para outras unidades dentro e fora do estado.
Especialistas acompanham a experiência de perto. Nancy La Vigne, reitora da Escola de Justiça Criminal da Rutgers-Newark, observa que a realidade virtual permite aos detentos praticar interações comuns, como o uso do transporte público. Pesquisas da Associação Americana de Psicologia, citadas pela Associated Press, indicam ainda que a exposição a ambientes visuais relaxantes reduz estresse, agressividade e incidentes disciplinares em presídios. Considerada uma das primeiras iniciativas em larga escala do tipo nos Estados Unidos, a experiência da Creative Acts vem atraindo a atenção de autoridades e organizações interessadas em reduzir a reincidência criminal.


