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OPINIÃO. Por que confiamos em María Corina

2026/01/18 11:10

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A melhor maneira de entender o que pode acontecer na Venezuela nos próximos meses é compreender, primeiro, como chegamos até aqui.

O que ocorreu em 3 de janeiro não foi um fato isolado nem improvisado. Foi o resultado de uma sequência de acontecimentos que vinham se desenrolando há pelo menos três anos, sob a liderança de uma figura central: María Corina Machado.

Antes de explicar por que acredito que podemos confiar nela, permita-me dizer quem sou e de onde falo.

Eu tinha 18 anos em 11 de abril de 2002 e já havia passado cinco meses protestando contra as arbitrariedades do governo de Hugo Chávez. Naquela manhã, durante uma manifestação perto do Palácio de Miraflores, uma pessoa que estava ao meu lado levou um disparo na perna. Saí correndo para ajudá-la e, junto com outros manifestantes, conseguimos carregá-la até um lugar onde ela pudesse estar a salvo.

Quando voltei ao ponto onde tudo havia ocorrido, um amigo me perguntou: “Você viu a pessoa que assassinaram?”

Ao me virar, vi um corpo sem vida estendido no chão, exatamente no mesmo lugar onde eu estive minutos antes. Naquele dia entendi, de forma direta e sem metáforas, o preço real de lutar pelo seu país, pela democracia e pela liberdade. Entendi também que, mesmo conhecendo esse custo, você decide seguir adiante: talvez para honrar aqueles que perderam a vida justamente onde você conseguiu sobreviver.

Aquele foi, sem dúvida, o começo real da minha luta pela Venezuela. O ponto de não retorno.

Vinte e quatro anos se passaram desde então. Hoje tenho 42 anos e vivo há dez no exílio. Neste tempo, transitei por diferentes searas de ativismo e organização democrática: ajudei a fundar e coordenar movimentos estudantis; fiz parte dos protestos massivos de 2007, quando mais de 200.000 estudantes saíram às ruas; contribuí para a criação de uma organização de direitos humanos, a Un Mundo Sin Mordaza, que coordenou protestos internacionais em mais de 300 cidades; e impulsionei campanhas globais como a SOS Venezuela. 

Também documentei crimes contra a humanidade e fui secretário do Painel de Especialistas criado pela Organização dos Estados Americanos em 2017 para avaliar a responsabilidade internacional do regime venezuelano.

Não menciono isso como um currículo nem como uma lista de méritos pessoais. Menciono para que o leitor entenda o nível de compromisso, sacrifício e persistência que esta luta exigiu. Também já fui preso político. Como tantos outros venezuelanos, paguei custos pessoais e familiares por me recusar a normalizar a ditadura.

E, no entanto, mesmo com todo esse percurso, o mais difícil destes anos não foi apenas a repressão, o exílio ou a perseguição. Foram duas coisas muito concretas: continuar ano após ano sem saber quando terminaria a ditadura e, talvez a tarefa mais complexa, aprender a confiar na liderança da oposição ao regime.

É daí que nasce este artigo.

Não pretendo desqualificar todos os líderes que assumiram responsabilidades nesta longa luta. Cada um contribuiu a partir da sua própria trincheira. Mas quero, sim, falar de María Corina Machado. Porque a história demonstra que os grandes movimentos de libertação, as transições políticas e as reconstruções nacionais não ocorrem de forma espontânea: ocorrem quando emerge uma liderança com características excepcionais e uma coerência que resiste à passagem do tempo.

Acredito que este foi o caso de Václav Havel. O caso de Nelson Mandela. E acredito que é, hoje, o caso de María Corina Machado.

Eu a vi pessoalmente pela primeira vez em 2004, após a fraude do referendo revogatório. Aquele processo foi realizado por meio de urnas eletrônicas que se tornaram uma verdadeira caixa-preta, sem auditorias críveis nem acesso à verdade eleitoral. Aquele episódio marcou para sempre a história democrática venezuelana.

Já naquela altura, María Corina estava dando a cara pelo país. Ela tinha 37 anos e assumiu um custo político e pessoal enorme. Menciono isso porque, vinte anos depois, essa mesma mulher protagonizaria o marco político mais importante da nossa história recente: derrotar politicamente o regime de Hugo Chávez e Nicolás Maduro ao vencer as eleições de 28 de julho. 

Sem essa vitória, verificada, documentada e reconhecida por atores internacionais, hoje a Venezuela não estaria no ponto em que está.

A pergunta inevitável é como ela chegou lá.

Para chegar lá, María Corina teve que enfrentar um sistema profundamente hostil. A política latino-americana é estruturalmente misógina, e a Venezuela não é exceção. Ela foi sistematicamente excluída. Seu partido foi marginalizado. Construíram-se plataformas unitárias de oposição sem ela e sem a sua organização. Hoje soa quase absurdo: quem terminaria ganhando as primárias com mais de 90% dos votos nem sequer fazia parte da plataforma unitária da oposição.

Anos antes, em 2014, ela foi expulsa do Parlamento após enfrentar Chávez publicamente, quando disse uma frase que se tornou histórica: “expropriar é roubar”. Essa confrontação custou-lhe a inabilitação política. A cadeira tomada de seu partido foi entregue a outro partido de oposição. Nem mesmo seus aliados reivindicaram seu espaço. Deixaram-na sozinha.

E ainda assim, ela continuou. Inclusive quando a proibiram de sair do país, continuou. Quando tentaram apagá-la politicamente, continuou.

Quando todas as vias pareciam esgotadas, chegou o momento decisivo: as primárias. Numa ditadura, até uma eleição interna da oposição depende de condições impostas pelo poder. María Corina venceu com mais de 90% dos votos. Naquele dia produziu-se uma ruptura: o chavismo, no seu excesso de controle, cometeu um erro estratégico ao permitir que a oposição se organizasse em torno de uma liderança real, legítima e, sobretudo, incapaz de negociar os valores fundamentais da democracia.

Mas vencer as primárias não foi suficiente.

Após sua vitória, ela foi novamente desqualificada. Venceu as primárias, mas não permitiram que fosse a candidata. Para muitos, esse teria sido o final. Para ela, foi o início de outra etapa. Construiu uma saída política complexa e conseguiu algo que parecia impossível: articular um candidato unitário.

Primeiro tentou com Corina Yoris, mas o regime também não permitiu; talvez tenha parecido perigoso demais enfrentar “duas Corinas”. A busca continuou, e María Corina chegou a Edmundo González. Fez isso com precisão estratégica, evitando que o regime impusesse um falso opositor “aceitável”. Esse foi seu segundo grande êxito.

O terceiro foi ainda mais difícil: transferir confiança. Convencer um país inteiro a votar em alguém que não conhecia. E ocorreu algo extraordinário: milhões de venezuelanos votaram em Edmundo González não apenas por causa dele, mas porque María Corina pediu. Porque confiaram no julgamento dela. Porque viram nela uma líder que, até aqui, não falhou.

A vitória foi contundente: mais de 67% dos votos.

Depois veio a pergunta crucial: como provar isso? Em 2004 não foi possível. Desta vez, sim. María Corina aprendeu a lição. Organizou, documentou e provou perante o mundo a vitória. O regime nunca pôde demonstrar o contrário e recorreu ao Supremo, passando por cima do seu próprio Conselho Nacional Eleitoral, para se declarar vencedor sem revisar os votos.

Depois chegou o quarto momento decisivo. Em apenas 48 horas, o regime assassinou mais de 25 pessoas e deteve mais de 1.000. María Corina tomou, então, uma decisão profundamente humana: proteger a vida dos venezuelanos. Foi criticada. Mas essa decisão a diferencia radicalmente do regime. Enquanto eles governam com morte e terror, ela agiu com responsabilidade moral.

Duas semanas depois, as detenções subiram para 2.000 e não pararam. Os presos políticos foram torturados, e os que sobreviviam enfrentavam uma realidade com apenas duas saídas possíveis: o exílio ou a clandestinidade. María Corina Machado escolheu a clandestinidade, não como quem se esconde, mas como quem decide seguir operando sob as piores condições, sem abandonar o objetivo nem delegar responsabilidades.

Ninguém pode compreender totalmente o que significou esse último ano para ela. Um ano inteiro confinada, isolada, sob ameaça constante. Eu só posso atestar duas coisas.

A primeira ocorreu em Oslo, no dia em que ela recebeu o Prêmio Nobel da Paz. Ela tinha uma vértebra fraturada e uma deterioração física evidente. Naquele momento entendi o custo silencioso de um ano em clandestinidade e a fortaleza que implica não desistir. A segunda é ainda mais clara: os fatos de 3 de janeiro demonstraram que ela não descansou um só dia. Mesmo das sombras, continuou impulsionando o processo até esse ponto de inflexão.

Não conheço os detalhes das conversas com a administração estadunidense. Mas o argumento central foi claro e compreensível para qualquer observador internacional: segurança, narcotráfico e responsabilidade regional.

A Venezuela deixou de ser um problema interno e se tornou um fator de desestabilização continental, com impactos diretos na migração em massa, crime transnacional, economias vizinhas e precedentes autoritários que ameaçam toda a América Latina. Em 3 de janeiro, os Estados Unidos agiram. Aquele dia não marcou o final automático do regime, mas sim o início de uma fase distinta: o começo do seu desmantelamento real.

Para muitos venezuelanos, essa data será lembrada como uma efeméride nacional. Porque, embora a ditadura ainda não tenha desaparecido por completo, a ideia de um regime irremovível — como o cubano — quebrou-se pela primeira vez em décadas.

Aqui quero dizer algo com absoluta clareza: os venezuelanos estarão eternamente agradecidos ao presidente Donald Trump e ao secretário de Estado Marco Rubio pela decisão tomada naquele dia. Foi uma decisão arriscada, mas necessária. A decisão que ninguém mais se atrevia a tomar e que evitou que a Venezuela ficasse condenada a décadas adicionais de ditadura.

É claro que ainda existe preocupação. Ver figuras sem legitimidade, responsáveis por crimes contra a humanidade e que representam a continuidade do regime, como Delcy Rodríguez, apresentadas como soluções interinas, gera incerteza.

Mas, mesmo com todas as suas imperfeições, o cenário atual é infinitamente melhor que o de semanas atrás. Pela primeira vez, a Venezuela deixou de enfrentar sozinha o regime e começou a interagir com os Estados Unidos como interlocutor. Essa mudança por si só transformou o ânimo coletivo. O cenário deixou de ser o de uma ditadura que avançava sem consequências e passou a ser o de um regime em retirada, submetido a uma pressão real.

Por que faço todo este relato?

Porque se chegamos até aqui, foi graças a María Corina Machado, que conseguiu o que ninguém conseguiu em 26 anos: articular uma maioria social, sustentar coerência ética sob pressão extrema e converter uma vitória eleitoral em um fato verificável perante a comunidade internacional. Não se trata de carisma nem de retórica. Trata-se de consistência estratégica. O Prêmio Nobel da Paz não foi um gesto simbólico, e sim o reconhecimento de uma forma de liderança que privilegia a vida, a legalidade e a responsabilidade democrática.

Por isso afirmo com convicção: não existe uma saída política crível para a Venezuela que não conte com o aval de María Corina Machado. Não porque ela concentre poder, mas porque concentra confiança. Essa confiança conquistada, não imposta, é o recurso mais escasso em qualquer transição democrática. A experiência recente demonstra que ela não avaliza cenários que comprometam o objetivo central: desmontar a ditadura e restaurar a democracia. E quando permite um movimento, faz isso porque sabe como levá-lo adiante.

Esta mensagem não é apenas para a Venezuela. É para a América Latina. Para o Brasil, para a Colômbia, para toda uma região que aprendeu, às vezes tarde demais, que normalizar ditaduras não traz estabilidade, e sim mais autoritarismo, mais crime organizado e mais migração forçada. A verdadeira notícia para o continente não é unicamente que a Venezuela esteja deixando para trás uma ditadura, mas que este processo pode marcar o princípio do fim daquelas que ainda persistem, em particular em Cuba e na Nicarágua.

Não acredito que os cubanos e nicaraguenses permanecerão indiferentes perante uma Venezuela livre. E posso dizer com certeza: os venezuelanos tampouco descansarão até vê-los em liberdade. A história latino-americana demonstra que as mudanças verdadeiras não ocorrem em isolamento. Quando um país rompe o cerco do medo, outros começam a imaginar que também é possível.

Durante mais de 25 anos, a Venezuela foi um fator de desestabilização regional: exportou crises políticas, migração massiva, economias ilícitas, redes de corrupção e alianças autoritárias que danificaram todo o hemisfério. Esse ciclo está chegando ao fim. 

Uma Venezuela livre não apenas fechará uma das etapas mais escuras da região. Pode se tornar uma força de equilíbrio, crescimento e previsibilidade em um continente que precisa disto com urgência. Não se trata apenas de recuperar um país, mas de reordenar uma região. E desta vez, pela primeira vez em décadas, esse futuro está ao alcance das mãos.

Rodrigo Diamanti fundou e preside Un Mundo Sin Mordaza (A World Without Censorship).

@RodrigoSinMordaza Instagram; @Rdiamanti Twitter.

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