Custo da incorporação no sistema seria de R$ 1,2 bilhão por ano; para 2026, 26 gastos no ministério superam esse valorCusto da incorporação no sistema seria de R$ 1,2 bilhão por ano; para 2026, 26 gastos no ministério superam esse valor

Negada pelo SUS, vacina contra herpes-zóster custa R$ 1.600 na rede privada

2026/01/18 19:00

O Ministério da Saúde rejeitou, por recomendação da Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde), a compra da vacina contra a doença herpes-zóster. Na rede privada, o imunizante custa cerca de R$ 1.600. 

A justificativa da comissão para a não inclusão da vacina no SUS (Sistema Único de Saúde) foi o custo: seria R$ 1,2 bilhão por ano nos primeiros 4 anos e R$ 380 milhões no 5º ano. O total gasto no período seria de R$ 5,2 bilhões. Leia a íntegra do relatório (PDF – 283 kB). 

A comissão estimou que 5.456.211 brasileiros poderiam receber a imunização. Em 5 anos, esse número saltaria para 6.471.151, por causa das projeções populacionais de idosos e de pessoas imunocomprometidas. 

Em nota, o Ministério da Saúde afirmou que continuará em negociação com a empresa GSK, produtora do imunizante, “em busca de um preço compatível com a disponibilidade orçamentária”. Como comparação, o órgão afirmou que, em 2025, todos os medicamentos distribuídos pelo Programa Farmácia Popular custaram R$ 4,2 bilhões.

Em 2026, o orçamento para o Ministério da Saúde é de R$ 271,3 bilhões. O custo da vacina equivale a aproximadamente 0,44% desse valor. 

Segundo dados do Siop (Sistema Integrado de Planejamento e Orçamento), outras 26 ações do ministério custarão, neste ano, mais do que a compra da vacina. O maior valor reservado, de R$ 80,7 bilhões, é para a “atenção à saúde da população para procedimentos em média e alta complexidade”

Das ações, 6 estão na faixa de R$ 1 bilhão por ano: 

  • atenção aos pacientes portadores de doenças hematológicas – R$ 1,7 bilhão;
  • assistência médica qualificada e gratuita a todos os níveis da população e desenvolvimento de atividades educacionais e de pesquisa no campo da saúde, para Rede Sarah de Hospitais de Reabilitação – R$ 1,5 bilhão;
  • promoção, proteção e recuperação da saúde indígena – R$ 1,4 bilhão;
  • contribuição da União, de autarquias e fundações para o custeio do regime de previdência dos servidores públicos federais – R$ 1,2 bilhão;
  • administração da unidade – R$ 1,1 bilhão;
  • atenção à saúde nos serviços ambulatoriais e hospitalares do Ministério da Saúde – R$ 1,1 bilhão.

Além disso, há um valor de R$ 287,8 milhões reservado para a publicidade do Ministério da Saúde. 

Em relação aos gastos governamentais como um todo, a compra do imunizante representaria 0,018% do Orçamento aprovado para este ano, de R$ 6,54 trilhões.

Em levantamento do Ploa (Projeto de Lei Orçamentária Anual) no Siop, 124 ações do Executivo Federal gastarão em torno de R$ 1 bilhão cada. 

A lista inclui programas e ações para 24 ministérios. 

Em publicação no X, o ex-ministro da Saúde Marcelo Queiroga criticou a decisão do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de não incluir a vacina na rede pública. “O governo Lula negou esse direito a você que paga seus impostos em dia e depende do SUS”, afirmou.

Na postagem, o ministro incluiu uma conversa com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) em que o político pergunta se deveria se vacinar contra a herpes-zóster. “Vou tomar essa herpes-zóster”, disse o ex-chefe do Executivo.

VACINA NA REDE PRIVADA

A vacina Shingrix deve ser aplicada em duas doses em um intervalo de 2 meses. Os preços das duas aplicações variam de R$ 800 a R$ 950 cada uma em clínicas privadas. 

Eis os valores:

  • BeepR$ 879  por dose (R$ 1.758 no total);
  • Sabin – R$ 950 por dose (R$ 1.900 no total);
  • Drogasil (unidades da farmácia em São Paulo) – R$ 799,33 por dose (R$ 1.598,66 no total);
  • Labs a+ – R$ 805 por dose (R$ 1.610 no total).

À exceção da aplicação na Drogasil, em todas as clínicas cujo valor foi consultado pelo Poder360 o imunizante custa mais do que o salário mínimo –fixado em R$ 1.621 em 2026

A DOENÇA

A herpes-zóster, popularmente conhecida como cobreiro, é uma doença causada pelo vírus varicela-zóster, que também provoca catapora. Depois da recuperação da infecção inicial, o vírus permanece “adormecido” no organismo e pode se manifestar décadas depois, com o envelhecimento ou com a queda da imunidade.  

Em muitos casos, a herpes-zóster passa sem a necessidade de intervenções médicas. Porém, em alguns pacientes pode causar complicações graves, incluindo feridas na pele (que secam e criam crosta) e alterações no sistema nervoso, nos olhos e nos ouvidos. Também pode ocasionar a neuralgia pós-herpética (dor crônica intensa que persiste por meses ou anos). 

Os principais sintomas são: 

  • lesões na pele, com vermelhidão e bolhas; 
  • dores nos nervos; 
  • sensação de formigamento, agulhadas, adormecimento ou pressão;
  • ardor e coceira;
  • febre;
  • dores de cabeça;
  • mal-estar.

As partes do corpo mais atingidas pelas feridas são o tórax, o pescoço e as costas. Caso a lesão seja percebida no rosto, pode provocar problemas oftalmológicos.

Caso necessário, o tratamento é feito com o uso de antivirais. 

Os principais grupos atingidos pelo cobreiro são: 

  • pessoas com mais de 50 anos; 
  • pacientes com câncer e submetidos à quimioterapia e radioterapia; 
  • pessoas com HIV (vírus da imunodeficiência humana) ou Aids (síndrome da imunodeficiência adquirida); 
  • transplantados;
  • pessoas com doenças reumatológicas;
  • pacientes que usam medicamentos imunossupressores.

Segundo informações do SIA (Sistemas de Informações Ambulatoriais) e SIH (Sistemas de Informações Hospitalares) do SUS (Sistema Único de Saúde), foram registrados 85.888 atendimentos ambulatoriais e 30.801 internações de pacientes com herpes-zóster de 2008 a 2024.

Já dados do SIM (Sistema de Informações sobre Mortalidade) mostram que, de 2007 a 2023, foram 1.567 mortes pela doença. Do total, 90% foram de pessoas com idade maior ou igual a 50 anos –dessas, 53,4% de pessoas com mais de 80 anos.

O número de idosos, grupo mais afetado, cresce a cada ano no Brasil. O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostra que, de 2000 a 2023, a proporção de pessoas com mais de 60 anos no país saiu de 8,7% para 15,6% –ou seja, de 15,2 milhões para 33 milhões. 

O imunizante Shingrix, da GSK, é o único disponível no Brasil contra a herpes-zóster. 

Em nota, a empresa afirmou que “respeita” o parecer técnico e que está “comprometida em colaborar com as autoridades de saúde”

Eis a íntegra da nota da GSK: 

“A GSK respeita o parecer da Conitec e reforça que a vacina contra o herpes-zóster apresenta elevada eficácia, com benefícios amplamente comprovados na redução de casos, diminuição da severidade dos quadros e na prevenção de complicações. Essa proteção tem impacto direto na redução de internações, de atendimentos emergenciais e, consequentemente, dos custos, inclusive para o sistema público de saúde, além de contribuir para a qualidade de vida dos adultos mais vulneráveis. 

“É importante esclarecer que, ao longo de todo o processo, houve reuniões de diálogo técnico com o DPNI (Departamento do Programa Nacional de Imunizações), do Ministério da Saúde, nas quais foram discutidos ajustes que incluíram potenciais estratégias de incorporação por faixas etárias, redução de preço e respectivos resultados sumarizados de custo-efetividade. Ainda assim, o valor final não atingiu os parâmetros definidos para a incorporação ao SUS.

“A GSK está comprometida em colaborar com as autoridades de saúde, contribuindo com evidências atualizadas e estudos que possam apoiar futuras revisões, sempre com o objetivo de ampliar o acesso à prevenção e melhorar a qualidade de vida da população. A vacina permanece disponível na rede privada, podendo ser obtida em farmácias, laboratórios de exames e imagem e clínicas de vacinação.”

Eis a íntegra da nota do Ministério da Saúde sobre a decisão da Conitec: 

“Para que uma tecnologia em saúde seja incorporada ao SUS, é necessário que passe pela avaliação da Conitec, que analisa evidências científicas de eficácia, segurança, custo-efetividade e impacto orçamentário.

“No dia 10 de dezembro, a Conitec emitiu parecer final desfavorável à incorporação da vacina contra a herpes-zóster. Reconheceu-se a importância da vacina; no entanto, ela não foi considerada custo-efetiva, uma vez que o impacto orçamentário estimado ultrapassaria R$ 5,2 bilhões ao longo de 5 anos. Para efeito de comparação, todos os medicamentos distribuídos pelo Programa Farmácia Popular custaram R$ 4,2 bilhões no ano passado.

“Até o momento, o laboratório responsável não apresentou nova proposta. O Ministério da Saúde manifestou interesse na incorporação da vacina e seguirá em negociação para a busca de um preço compatível com a disponibilidade orçamentária.”

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