Carro autônomo da Waymo — Foto: Getty Images
Apesar das preocupações com segurança, permitir que crianças e adolescentes se desloquem sozinhos em carros de aplicativo tem sido visto por muitos pais como uma solução prática, pois reduz a sua necessidade de deslocamentos e libera tempo na rotina diária, especialmente em agendas familiares cada vez mais apertadas. Nos Estados Unidos, essa lógica de conveniência começa agora a se estender aos carros autônomos, inaugurando um novo e controverso capítulo na mobilidade urbana.
Com a expansão dos robotáxis nas cidades americanas, alguns pais passaram a autorizar que os filhos os utilizem para ir à escola e outros compromissos. A promessa é sedutora: trajetos previsíveis, ausência de interação com estranhos ao volante e a possibilidade de acompanhar o percurso em tempo real pelo aplicativo.
A Waymo, empresa de veículos sem motorista controlada pela Alphabet, já oferece contas específicas para adolescentes de 14 a 17 anos, mas apenas na região metropolitana de Phoenix. Mesmo assim, relatos mostram que, em outros mercados onde o serviço opera, famílias têm recorrido aos robotáxis para transportar menores de idade — ainda que isso contrarie tanto os termos de uso da empresa quanto legislações estaduais.
Ao San Francisco Chronicle, a moradora de São Francisco, na Califórnia, Laura Mancuso relatou que já chamou um Waymo para sua filha de 15 anos, apesar de lá isso ser proibido. “Simplesmente percebemos que isso facilitaria nossas vidas”, afirmou. “E no meu círculo de amigos, tornou-se totalmente aceitável chamar um Waymo para o seu filho adolescente.”
Megan Schmidt é outra mãe local que recorre à empresa de robotáxis para transportar seus filhos de 14 e 11 anos. “Isso realmente se tornou parte da nossa cultura”, afirmou, acrescentando que os veículos autônomos a ajudaram a recuperar muito tempo livre, que ela pode usar para socializar com outros pais.
A prática, no entanto, levanta uma série de questionamentos. Especialistas em segurança viária alertam que, apesar dos avanços tecnológicos, os veículos autônomos ainda enfrentam desafios em situações imprevisíveis, como obras, comportamentos humanos erráticos no trânsito e condições climáticas extremas. Há também o debate jurídico: quem é responsável em caso de acidente envolvendo um menor desacompanhado?
O San Francisco Chronicle destaca que a fiscalização não é tão simples. Embora os carros da Waymo tenham câmeras internas que ajudam a identificar violações dos termos de serviço, incluindo aquelas relacionadas à idade mínima, representantes da empresa apontaram que tentam respeitar a privacidade dos clientes.
“Há casos de que temos conhecimento, alguns dos quais foram divulgados publicamente, em que pais usaram o Waymos para o transporte de menores”, disse Jack Stoddard, advogado da companhia, a um juiz administrativo durante uma recente audiência na Comissão de Serviços Públicos da Califórnia.
Ele observou que os pais que reservam viagens para menores desacompanhados estão violando os termos de serviço e sujeitos à suspensão caso sejam descobertos.
Mas isso não parece preocupar tanto assim esses pais. “Minha filha tem que ir a muitos treinos de vôlei, jogos, festas do pijama e outros compromissos, e eu quero dar a ela a opção de voltar para casa quando eu não estiver disponível”, contou uma mãe que preferiu não se identificar por medo de que a Waymo encerrasse sua conta.
Ela indicou ao San Francisco Chronicle que sua filha de 14 anos usa robôstáxis cerca de uma vez por semana, uma frequência normal entre suas amigas.
Em comentários por escrito enviados ao jornal, funcionários da Autoridade de Transporte do Condado de São Francisco recomendaram que o transporte de menores desacompanhados em carros sem motorista não seja liberado em São Francisco.
Eles argumentaram que seria prematuro permitir que crianças entrassem sozinhas nesses veículos, “dado o estágio inicial” do setor.

