Emmanuel Macron no Fórum Econômico Mundial — Foto: Harun Ozalp/Anadolu via Getty Images
Entre os dias 19 e 23 de janeiro, Davos, na Suíça, sediou mais uma vez o Fórum Econômico Mundial (WEF) para discutir os problemas globais mais urgentes. Mas, mais do que anúncios ou decisões concretas, o encontro deste ano foi escola para entender como os líderes se comunicam para conseguir o que querem.
René Carayol, coach de liderança de executivos das empresas Fortune 500 e FTSE 100 e de líderes mundiais, apontou à CNBC que o presidente francês Emmanuel Macron e o primeiro-ministro canadense Mark Carney foram “dois exemplos magistrais” de oratória, liderança e influência.
Macron, por exemplo, fez um discurso contundente, no qual disse que o mundo deu uma guinada rumo à autocracia, em detrimento da democracia e rumou a um mundo sem regras.
“Onde o direito internacional é pisoteado e onde as únicas leis que parecem importar são as do mais forte. E as ambições imperialistas estão ressurgindo”, salientou. “Isso ocorre também em direção a um mundo sem governança coletiva eficaz, onde o multilateralismo é enfraquecido por potências que o obstruem ou se afastam dele, e onde as regras são minadas.”
O presidente francês ainda citou sem rodeios os Estados Unidos e a China. “Sem governança coletiva, a cooperação dá lugar à competição implacável. Competição dos Estados Unidos da América por meio de acordos comerciais que prejudicam nossos interesses de exportação, exigem concessões máximas e visam abertamente enfraquecer e subordinar a Europa, combinada com um acúmulo interminável de novas tarifas que são fundamentalmente inaceitáveis – ainda mais quando usadas como instrumento de pressão contra a soberania territorial”, observou.
E continuou: “E a concorrência da China, onde a enorme capacidade ociosa e as práticas distorcivas ameaçam sobrecarregar setores industriais e comerciais inteiros. O controle de exportações tornou-se mais perigoso, com novas ferramentas desestabilizando o comércio global e o sistema internacional”.
Carayol salientou que, em seu pronunciamento, no qual usou óculos de sol azuis estilo aviador, devido a uma infecção ocular, Macron parecia “um super-herói da Marvel”. “Era ereto, franco, o mais alto que podia ser, e falava o que pensava”, destacou a coach.
Carney transmitiu uma mensagem semelhante em seu discurso no WEF. “Parece que todos os dias somos lembrados de que vivemos em uma era de rivalidade entre grandes potências, de que a ordem baseada em regras está desaparecendo, de que os fortes podem fazer o que podem e os fracos devem sofrer o que devem”, falou.
Ele também declarou que as potências médias devem agir em conjunto, “porque se não estivermos à mesa de negociações, estaremos no cardápio”.
Carayol evidenciou que a fala de Carney foi “brilhante”, e o descreveu como calmo, ponderado, estudioso e alguém que transmite autoridade.
“Ele estava falando sério... ele queria que o mundo soubesse que não iriam recuar contra [Donald] Trump sem nunca mencioná-lo”, adicionou o coach. “Macron era aquele de quem você sairia com a lembrança, Carney era aquele a quem você respeitaria.”
Em relação a Trump, ele analisou que o presidente norte-americano fez um discurso confuso no evento: “Trump estava completamente perdido, fora do roteiro, divagando, sem rumo, porque estava fazendo suas coisas. Trump sempre se acovarda quando alguém o enfrenta. Ele estava um desastre completo”, indicou.
Apesar disso, Carayol ponderou que o presidente americano geralmente é “brilhante” e “quando ele está em sua melhor forma... você não concordará com o que ele diz, mas sim com a maneira como ele diz”.
“Ele se sai melhor em um ambiente competitivo. Então, quando se candidatou à presidência, massacrou toda a oposição”, exemplificou.
Andrew Brodsky, professor de administração da Universidade do Texas e autor de ″PING: The Secrets of Successful Communication (Os Segredos da Comunicação Bem-Sucedida)”, disse à CNBC que líderes mundiais e CEOs de empresas têm uma forma diferente de se comunicar. Enquanto o primeiro grupo pode utilizar uma retórica mais incisiva, o segundo precisa estar mais atento a como suas palavras afetam o preço das ações dos negócios.
“Os líderes mundiais geralmente têm outras ferramentas de comunicação à sua disposição porque não precisam se preocupar com o preço das ações”, sinalizou. “Notavelmente, os líderes mundiais usam estratégias como explorar emoções negativas, como a raiva, e destacar potenciais ameaças existenciais ao futuro de seus países para motivar suas populações.”
Brodsky complementou que um dos melhores estilos de comunicação na liderança é usar “imagens, metáforas e histórias” para compartilhar uma visão com o público. Ele citou o discurso de Satya Nadella, diretor-executivo da Microsoft, que discutiu os avanços da IA no WEF e comparou-os ao impacto transformador que os PCs tiveram quando foram lançados.
“Em vez de enfatizar os elementos técnicos, Nadella comunicou sua visão para o futuro da IA usando metáforas simples de uma forma que qualquer pessoa pudesse entender”, acentuou o professor.
No caso de Jensen Huang, CEO da Nvidia, Brodsky pontuou que ele foi questionado sobre se a IA aumentaria ou diminuiria o número de empregos e, em vez de usar estatísticas, ele relatou como a IA aumentou o número de empregos na indústria de radiologia.
“Em vez de se basear em estatísticas gerais de diversos setores, Huang conseguiu usar uma história sobre radiologistas para mostrar o impacto positivo da IA. Ao usar uma história, ele conseguiu tornar o que estava dizendo muito mais tangível e significativo para o público, de uma forma que as estatísticas por si só simplesmente não conseguem”, avaliou o especialista.
Sobre Bill Gates, cofundador da Microsoft, o professor disse que ele destacou durante um painel mantendo contato visual com a plateia na maior parte do tempo enquanto respondia às perguntas dos entrevistadores e dos outros participantes.
“Essa escolha aparentemente pequena deu a impressão de que Gates estava falando diretamente com o público e o envolvendo na conversa”, completou.


