Agentes do ICE em Minnesota — Foto: Victor J. Blue/Bloomberg via Getty Images
Agentes federais de imigração do ICE (Immigration and Customs Enforcement) espalhados por Minnesota e outras partes dos Estados Unidos passaram a contar recentemente com um conjunto de tecnologias de vigilância de ponta. Elas vão desde rastreadores biométricos a bancos de dados de localização de celulares, spyware, drones. As informações são do The Washington Post.
Isso foi possível após a aprovação de uma lei no ano passado, que transformou o ICE na agência de aplicação da lei mais bem financiada do país. O Departamento de Segurança Interna (DHS, na sigla em inglês), do qual o ICE faz parte, revelou em um relatório anual que a agência ampliou significativamente o escopo operacional do uso de reconhecimento facial, inteligência artificial e outras tecnologias avançadas.
Confira, a seguir, algumas das tecnologias usadas pelo ICE:
O ICE começou a usar tecnologia de reconhecimento facial nas ruas ao longo do último ano. Um novo aplicativo desenvolvido pela NEC, o Mobile Fortify, permite que agentes comparem imediatamente, em campo, escaneamentos de rostos e impressões digitais feitos por celular com bancos de dados que contêm o status migratório e outras informações biográficas das pessoas.
No ano passado, o ICE adquiriu um aplicativo móvel de escaneamento de íris que, segundo a fabricante BI2 Technologies, consegue identificar uma pessoa a partir do olho em questão de segundos, a uma distância de cerca de 38 centímetros.
Como funciona o reconhecimento facial:
ICE, CBP (U.S. Customs and Border Protection), NEC e BI2 Technologies não responderam aos pedidos de comentário do WP.
Leitores de placas utilizam câmeras de alta velocidade para fotografar carros e armazenar esses dados em bancos de dados comerciais ou governamentais. Agentes do ICE podem acessar o histórico de deslocamento de um veículo ou pesquisar todos os veículos que circularam em uma área durante um período específico, filtrando por cor, modelo ou estado de registro.
Como funcionam os leitores de placas:
No final do ano passado, o ICE encomendou leitores móveis de placas da Motorola Solutions e renovou um contrato com o banco de dados da Thomson Reuters, que afirma conter mais de 20 bilhões de leituras de placas, inclusive de feeds privados de câmeras de vigilância. A Thomson Reuters já disse que esses dados podem mostrar, por exemplo, quando uma pessoa registrada em um endereço estaciona regularmente o carro em outro local.
Motorola Solutions e Thomson Reuters não responderam aos pedidos de comentário.
Simuladores de antenas celulares, também conhecidos como Stingrays, se passam por torres de celular e induzem telefones próximos a se conectar a eles, permitindo que agentes do ICE rastreiem a localização de um aparelho em tempo real. Esses dispositivos, frequentemente montados sobre veículos, são usados de duas maneiras: se os agentes já conhecem o número identificador do telefone-alvo, podem procurar especificamente por ele; ou podem escanear todos os celulares em uma determinada área.
Embora os simuladores indiquem a localização geral de um celular, eles não fornecem coordenadas exatas de GPS nem capturam o conteúdo das comunicações.
Os agentes do ICE devem obter um mandado judicial antes de usar um Stingray de fornecedores como a L3Harris, embora as diretrizes da agência prevejam várias exceções de emergência, como “a necessidade de proteger a vida humana ou evitar ferimentos graves”, estar em “perseguição imediata a um criminoso em fuga” ou “prevenir a fuga de um suspeito ou condenado”.
A L3Harris não respondeu a um pedido de comentário.
Em 2018, a Suprema Corte dos EUA decidiu que os dados de localização de celulares revelam tanto sobre a vida das pessoas que as autoridades precisam de um mandado para obtê-los junto às operadoras.
Agências federais encontraram uma alternativa: comprar essas informações de corretores de dados comerciais. Esses corretores obtêm os dados por meio de aplicativos de clima ou jogos móveis cujos usuários consentem com o rastreamento. O primeiro governo Trump utilizou esses serviços para fiscalização migratória, como revelou o Wall Street Journal em 2020, mas o ICE afirmou em janeiro de 2024 que havia interrompido a prática.
Agora, a agência voltou a usar dados comerciais de localização. Em setembro, o ICE adquiriu uma assinatura do Webloc, banco de dados da Penlink que permite aos agentes criar “cercas geográficas” (geofencing) e rastrear todos os telefones dentro de uma área específica. Neste mês, o ICE também demonstrou interesse em expandir ainda mais seu arsenal, emitindo um “pedido de informações” a possíveis fornecedores sobre como empresas de tecnologia publicitária e dados de localização podem auxiliar a agência.
A Penlink recusou-se a comentar.
O ICE possui um vasto conjunto de ferramentas de perícia digital que permitem invadir telefones e computadores bloqueados, recuperar arquivos apagados e ler informações em conversas criptografadas. Essas ferramentas eram limitadas a investigações de terrorismo, tráfico de crianças e outros crimes transnacionais graves, mas, durante este segundo governo Trump, a liderança ordenou o redirecionamento de recursos investigativos da agência para a ofensiva de deportações.
No ano passado, o ICE assinou contratos com as empresas israelenses Paragon Solutions — que desenvolve spyware capaz de invadir telefones remotamente — e Cellebrite, que permite aos agentes acessar o conteúdo de telefones bloqueados apreendidos e organizar automaticamente os dados. A agência também adquiriu o FINALMobile Forensics, da Finaldata, e outros softwares semelhantes capazes de recuperar dados apagados de dispositivos.
A Cellebrite afirmou em comunicado que seu contrato com o DHS é voltado a investigações de segurança nacional. A Finaldata não respondeu a um pedido de comentário do WP e a Paragon não divulga informações de contato.
O ICE tem usado drones menores para monitorar alguns protestos ao longo do último ano. Um modelo de drone compacto adquirido pelo ICE, o Skydio X10D, é anunciado como capaz de detectar pessoas a até 12 quilômetros de distância e identificá-las a cerca de 1,3 quilômetro. Muitos modelos são equipados com visão noturna e câmeras térmicas.
Sua agência-irmã, a Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA, também utilizou um drone muito maior, de padrão militar — o MQ-9 Predator — sobre protestos anti-ICE em Los Angeles. Apesar de não deixar claro quais tecnologias estavam no drone, a Força Aérea dos EUA já divulgou anteriormente que equipou alguns MQ-9 Predator, fabricados pela General Atomics, com o sistema “Gorgon Stare”, composto por centenas de câmeras capazes de rastrear tudo o que se move em uma área de 40 milhas quadradas em alta definição.
O porta-voz da General Atomics, C. Mark Brinkley, afirmou que os drones MQ-9A básicos incluem um sistema de câmera de alta definição com sensores infravermelhos e radar capazes de enxergar através de nuvens, chuva ou neblina. Ele disse não poder comentar se a CBP realizou outras atualizações. A CBP afirmou em 2020 que as câmeras de seus drones MQ-9 conseguem distinguir a cor da roupa ou se alguém carrega uma mochila, mas não identificar um rosto.
No ano passado, o ICE assinou um contrato de US$ 514 mil para comprar novos drones, indicando que eles podem ter um papel ainda maior no futuro.
O ICE está utilizando ferramentas de inteligência artificial generativa da Palantir para classificar e resumir denúncias relacionadas à fiscalização da imigração recebidas por meio de seu formulário público, de acordo com um inventário que lista todos os casos de uso de IA do DHS em 2025. As informações são da Wired.
O serviço AI Enhanced ICE Tip Processing (Processamento de Denúncias do ICE com IA Aprimorada) tem como objetivo ajudar investigadores do ICE a “identificar e agir mais rapidamente sobre denúncias” em casos urgentes, além de traduzir envios feitos em idiomas diferentes do inglês, segundo o inventário. A ferramenta também fornece um “BLUF”, definido como um “resumo de alto nível da denúncia”, produzido com o uso de ao menos um modelo de linguagem de grande porte. BLUF, sigla para bottom line up front (“conclusão logo no início”), é um termo militar que também é usado internamente por alguns funcionários da Palantir.
O DHS afirma que o software está “sendo ativamente autorizado” para apoiar operações do ICE e acrescenta que a ferramenta ajuda a reduzir o “esforço manual demorado necessário para revisar e categorizar as denúncias recebidas”.
A Palantir, o ICE e o DHS não responderam imediatamente aos pedidos de comentários.


