PUNTA DEL ESTE, Uruguai – Ano passado, estive aqui a convite de um gestor argentino que insistiu que eu precisava ver, “con tus propios ojos”, o que estava aconPUNTA DEL ESTE, Uruguai – Ano passado, estive aqui a convite de um gestor argentino que insistiu que eu precisava ver, “con tus propios ojos”, o que estava acon

OPINIÃO. Punta del Este, o novo hub da elite tech latino-americana

2026/02/05 23:00
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PUNTA DEL ESTE, Uruguai – Ano passado, estive aqui a convite de um gestor argentino que insistiu que eu precisava ver, “con tus propios ojos”, o que estava acontecendo na região.

Este ano, voltei para observar um movimento que deixou de ser sazonal para ganhar contornos estruturais: o nascimento de um ecossistema que funde eficiência fiscal, segurança institucional e ambição global – a pouco mais de duas horas de voo de Guarulhos.

Vim ao Uruguai em função do Punta Tech Meetup. Já em sua 18ª edição, o que começou como um asado entre amigos construindo a primeira leva de empresas tech da região evoluiu para um ponto de convergência recorrente do ecossistema tecnológico latino-americano.

No auge da temporada, um espresso aqui em Punta chega a custar mais caro que em São Francisco. Em qualquer outro lugar da América Latina isso pareceria um exagero. Aqui, é apenas uma pista do que está acontecendo.

O Uruguai está de braços abertos para o capital: ao se tornar residente fiscal do país, a pessoa se beneficia de um regime que, na prática, garante até 11 anos sem tributação sobre a renda do exterior. Essas condições fazem o Uruguai entrar no cálculo de qualquer fundador de sucesso.

Aqui em Punta, tudo é cotado em dólar. Num primeiro momento, isso incomoda. Depois, fica claro que o mercado apenas reflete a ambição da região. Eles conquistaram esse direito.

Mais revelador que o preço do café em dólar é a língua falada nas ruas. Punta, Manantiales e José Ignacio se tornaram os raros lugares da América Latina onde o default cultural é global: você fala inglês sem problema com os locais e os gringos.

A densidade de projetos de AI, deep tech e cripto surpreende: no jantar, a mesa ao lado está discutindo protocolos de cripto.  De dia, você conversa com fundadores argentinos que estão montando laboratórios de biotecnologia em Maldonado. 

Essa impressão ganha força quando se observa quem está se mudando pra cá. Fundadores de gigantes como Mercado Libre, Nubank, Globant e Auth0 fixaram residência no Uruguai. Não vieram veranear; vieram viver. É gente que já venceu o primeiro ciclo e agora otimiza tempo, vida e estrutura fiscal para construir o próximo.

O caso da dLocal é emblemático. No ano de sua estreia na Nasdaq, a empresa atingiu um market cap equivalente a 14% do PIB uruguaio, uma escala que só se alcança quando o global está presente na visão dos fundadores desde o “day one”. Sergio Fogel, o cofundador da empresa, é um dos organizadores do Punta Tech Meetup.

No último evento, agora em janeiro, mais de mil pessoas circularam pelo MACA (Museu de Arte Contemporânea Atchugarry). O complexo, projetado pelo renomado arquiteto Carlos Ott — o nome por trás da Ópera da Bastilha, em Paris — é um símbolo da ambição cultural do país. Mas o que impressiona não é a arquitetura; é o comportamento. Praticamente ninguém estava no celular. O evento foi desenhado ao redor do diálogo: sem palcos, sem slides, sem crachás.

O Uruguai está se tornando este hub de tecnologia graças a uma equação institucional única. De acordo com o Democracy Index da Economist Intelligence Unit, o Uruguai é o único país da América do Sul classificado como “democracia plena”, com níveis de estabilidade institucional raros na região.

O governo criou um Uruguay Innovation Hub cujo mecanismo de matching funds é um exemplo de sofisticação: o Estado co-investe, via nota conversível, seguindo o investidor-líder.

O economics é desenhado para quem entende do jogo, incluindo uma opção de liquidez para o investidor privado recomprar a participação pública em 24 meses por um preço pré-definido. É, na prática, um “preço-médio as a service”, uma política pública que estimula a inovação sem distorcer os incentivos privados.

Por todos esses fatores, Punta e José Ignacio deixaram de ser “as Hamptons dos argentinos” e agora funcionam como o headquarter emocional e estratégico da elite tech latino-americana.

Durante décadas, o capital brasileiro buscou oportunidades nas costas leste e oeste dos EUA. O que está se formando aqui sugere um novo ponto de referência, com lógica própria e ambição global.

Voltar aqui pela segunda vez deixou claro: este movimento é irreversível. O espresso continua caro e a praia segue sem água de coco, mas isso é detalhe. O que está nascendo aqui vai moldar a próxima década da inovação na América Latina.

William Cordeiro é general partner e co-fundador do SaaSholic, uma gestora de VC especializada em empresas de software na América Latina.

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