Milhares de pessoas relatam experiências ligadas a sair do corpo quando estão perto da morte — Foto: Ralf Nau/Stock via Getty Images
Quando uma enfermeira de 37 anos foi levada às pressas ao hospital após uma complicação cardíaca pós-parto, ela passou por algo que a medicina ainda não consegue explicar completamente. Segundo relatou ao The Washington Post, Miasha Gilliam-El assistiu de fora do próprio corpo enquanto a equipe médica tentava salvá-la. Logo depois, sentiu-se sugada por um túnel e se viu em um lugar de paz absoluta, onde uma voz lhe disse: "Ainda não".
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Esse tipo de experiência não é exclusividade da paciente. Milhares de pessoas ao redor do mundo que voltaram do precipício da morte contam histórias de visões estranhas e jornadas iluminadas que desafiam o que sabemos sobre a rorte. Agora um grupo internacional de neurocientistas propôs uma explicação científica para o fenômeno. Mas a proposta está longe de ser consenso.
Charlotte Martial, neurocientista da Universidade de Liège, na Bélgica, liderou uma equipe que analisou cerca de 300 estudos sobre o tema com alguns traços em comum: a sensação de estar fora do corpo, a viagem por um túnel em direção a uma luz brilhante, e experimentar uma sensação produnda de paz.
Os autores ligaram essas experiências a mudanças específicas no cérebro, criando um modelo pioneiro chamado NEPTUNE, sigla em inglês para Teoria Neurobiológica, Evolucionária e Psicológica para Compreensão de Experiências de Quase Morte. O estudo foi publicado em 2025 na revista Nature Reviews Neurology
Para a equipe, essas sensações relatadas da experiência de quase morte podem ser rastreadas até alterações químicas e elétricas no cérebro provocadas por situações extremas, como a queda de oxigênio e o acúmulo de gás carbônico que acontecem durante uma parada cardíaca.
Uma das regiões cerebrais que aparece na análise é a junção temporoparietal, responsável por integrar informações sensoriais e ajudar a distinguir o próprio corpo do ambiente ao redor. Estudos anteriores mostraram que, ao estimular eletricamente essa área, alguns pacientes relataram sensações parecidas com a de estar fora do corpo.
Segundo Martial, o modelo foi pensado para evoluir conforme surjam novos dados. "A morte é um processo, não um evento instantâneo", afirmou. Ela explicou ao TWP que, durante uma parada cardíaca, a atividade cerebral primeiro diminui, mas em certo momento pode haver um pico elétrico antes de tudo se estabilizar em uma linha plana.
As experiências de quase morte acontecem em diversos contextos: entre 10% e 23% dos casos estão ligados a ataques cardíacos, 15% a internações prolongadas em UTI e 3% a traumatismos cranianos, segundo os dados compilados pela equipe. Outros gatilhos incluem choques elétricos, quase afogamentos e complicações no parto.
A proposta do modelo NEPTUNE, porém, foi contestada publicamente por Bruce Greyson e Marieta Pehlivanova, ambos da Universidade da Virgínia. Em artigo publicado na revista Psychology of Consciousness, os pesquisadores reconheceram o esforço dos colegas, mas afirmaram que a explicação puramente neurobiológica deixa pontos importantes de fora.
Um dos problemas apontados é que as ilusões criadas por estímulos elétricos no cérebro são muito diferentes das descrições detalhadas feitas por pacientes. Em um estudo citado pelos autores do NEPTUNE, a estimulação cerebral fez um paciente sentir vagamente a presença de alguém atrás dele, mas sem ver, ouvir ou tocar ninguém. Já os relatos de quase morte frequentemente incluem encontros sensoriais completos com pessoas falecidas: os pacientes dizem vê-las, ouvi-las, senti-las e até perceber cheiros.
Greyson e Pehlivanova também acusam os defensores do modelo de terem ignorado evidências que não se encaixavam na narrativa. Eles citam, por exemplo, casos em que pacientes descreveram com precisão detalhes do ambiente hospitalar, como o número de pessoas na sala, que só poderiam ter sido observados durante o período em que estavam clinicamente inconscientes.
Milhares de pessoas relatam experiências ligadas a sair do corpo quando estão perto da morte — Foto: Ralp Nau/Stock via Getty Images
O embate levanta uma questão delicada: até que ponto os testemunhos dos pacientes devem ser considerados evidência científica?
Kevin Nelson, professor emérito de neurologia da Universidade de Kentucky e um dos coautores do NEPTUNE, adota postura cautelosa. Para ele, as histórias são "narrativas sedutoramente poderosas que alimentam nossos anseios mais profundos", mas é prerefível manter o rigor científico.
Já Bruce Greyson defende outra perspectiva. Para ele, descartar os relatos subjetivos é um erro metodológico. "Toda descoberta científica começa com observação subjetiva que pode eventualmente ser corroborada por experimento controlado", argumentou.
Jeffrey Long, radio oncologista que já catalogou mais de 4.000 experiências de quase morte e coautor de um livro sobre o tema, resume o dilema: "A questão é: temos evidências de que a consciência sobrevive à morte do corpo? E quão fortes são essas evidências?".
Boa parte dos estudos sobre o tema é retrospectiva: os pesquisadores entrevistam pacientes meses ou anos depois do ocorrido e analisam prontuários médicos. Esse método está sujeito a distorções de memória e à influência de como as histórias foram recontadas ao longo do tempo.
Para superar essa limitação, Martial e colegas do Hospital Universitário de Liège iniciaram um estudo prospectivo. A pesquisa acompanha pacientes desde o momento em que entram na sala de ressuscitação, utilizando câmeras e eletroencefalogramas para registrar atividade cerebral em tempo real.
O debate deve ganhar novo fôlego em abril, quando especialistas se reunirem em Porto, Portugal, para discutir o tema na conferência "Atrás e Além do Cérebro". Ali, defensores e críticos do modelo NEPTUNE terão a oportunidade de confrontar suas ideias e talvez avançar na compreensão de um dos mistérios mais antigos da humanidade.


