No mesmo período em que as operações hoje investigadas por fraude entre o BRB e o Banco Master ganharam escala e complexidade, em 2024, o Banco de Brasília mais do que dobrou o valor pago à auditoria responsável por analisar suas contas — a Ernst & Young (EY) — que chegaram a R$ 4,5 milhões. As demonstrações financeiras daquele exercício, vale destacar, foram aprovadas sem ressalvas.
Os dados constam de documentos oficiais entregues pelo próprio banco à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e consultados pelo Monitor do Mercado. Eles mostram que, em 2024, o BRB destinou cerca de R$ 4,5 milhões a serviços de auditoria independente.
O valor é significativamente superior ao observado em anos anteriores e também ao praticado por bancos públicos regionais de porte semelhante, chamando atenção por ocorrer justamente no ano em que, segundo investigações da Polícia Federal e do Banco Central, avançaram operações bilionárias envolvendo o Banco Master.
Em 2023, o BRB havia registrado pagamento de R$ 1,73 milhão à EY, segundo os próprios Formulários de Referência. Em 2024, portanto, o valor mais do que dobrou, coincidindo com a ampliação da exposição do banco a estruturas financeiras hoje sob investigação.
A comparação com outros bancos regionais ajuda a dimensionar o descompasso. Enquanto o BRB, que tem capitalização de mercado de aproximadamente R$ 2,17 bilhões, o Banco do Nordeste, cujo valor de mercado gira em torno de R$ 11,5 bilhões, declarou contratos entre R$ 1,3 milhão e R$ 1,8 milhão com a PwC no mesmo período.
Já o Banrisul, banco estadual do Rio Grande do Sul, com market cap em torno de R$ 7,7 bilhões, informou pagamento de aproximadamente R$ 2,2 milhões em 2024 à sua auditoria independente, a Deloitte. O Banestes, banco estadual do Espírito Santo, auditado pela KPMG, também aparece bem abaixo do BRB, com contratos de auditoria que não ultrapassam a faixa de R$ 2 milhões, ainda segundo os documentos enviados à CVM.
Ou seja, instituições maiores, com balanços mais complexos e valor de mercado significativamente superior ao do BRB, gastaram menos com auditoria, bem como o próprio BRB, no exercício anterior.
Os dados utilizados pela reportagem têm como fonte os Formulários de Referência (FRE), documento oficial exigido pela CVM no qual as companhias abertas informam, entre outros pontos, os valores contratados com auditores independentes. Diferentemente das Demonstrações Financeiras Padronizadas (DFPs), o FRE é hoje a fonte mais clara e comparável para esse tipo de informação.
No caso do BRB, os documentos indicam crescimento relevante no valor dos contratos de auditoria a partir de 2023, com novo salto em 2024. Em nenhum dos FREs há qualquer ressalva pública, ênfase ou observação específica da Ernst & Young relacionada às operações com o Banco Master — hoje alvo de investigações que apontam possíveis irregularidades, engenharia contábil e tentativas de driblar a fiscalização do Banco Central.
Em termos práticos, o banco passou a pagar muito mais por auditoria no mesmo período em que ampliava operações que depois se mostrariam problemáticas, sem que isso aparecesse nos relatórios públicos do auditor.
Somente após o caso se tornar público e avançar para a esfera policial e regulatória é que o BRB passou a anunciar novas auditorias e revisões internas. Em nota divulgada nesta semana, o banco informou ter identificado “achados relevantes” em um relatório preliminar produzido por uma auditoria contratada especificamente para apurar os negócios com o Banco Master.
Segundo o comunicado, o relatório foi entregue à Polícia Federal no dia 29 de janeiro e ao Banco Central no dia seguinte. O BRB afirma ainda que vem adotando medidas administrativas, extrajudiciais e judiciais relacionadas a fundos de investimento, garantias e carteiras de crédito adquiridas do Master, parte delas sob sigilo.
O movimento ocorre meses depois de o Banco Central decretar a liquidação extrajudicial do Banco Master, em novembro de 2025, e de a gestora Reag também ser liquidada. As investigações apontam para um dos episódios mais graves recentes do sistema financeiro brasileiro, envolvendo suspeitas de fraudes bilionárias, uso de fundos de investimento para ocultar prejuízos e tentativas de socorro por meio de um banco público.
Controlado pelo banqueiro Daniel Vorcaro, o Master cresceu oferecendo CDBs com rentabilidade muito acima da média, estratégia que, segundo investigadores, foi sustentada por operações que inflavam artificialmente o balanço, enquanto a liquidez real se deteriorava.
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