O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou nesta terça-feira (10) que parte do déficit primário (gasto acima da arrecadação) atual do governo de Luiz Inácio Lula da Silva foi contratada no governo do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Em declaração feita durante a CEO Conference Brasil 2026, organizada pelo BTG Pactual, em São Paulo, Haddad atribuiu a pressão no orçamento atual a despesas obrigatórias aprovadas no passado, como o Fundeb e mudanças nas regras do Benefício de Prestação Continuada (BPC).
“Você tem que negociar com o Congresso, que tinha acabado de aprovar aumento de despesas. O Fundeb foi contratado até este ano, as regras do BPC foram contratadas em 2021 […] Eu queria ter ido além, mas, como dizem os baianos, eu sou um só”, afirmou o ministro.
O Fundeb é um fundo destinado ao financiamento da educação básica e possui regras de aumento gradual de aportes federais, conhecidas como “escadinha de capitalização”. Já o BPC é um benefício pago a idosos e pessoas com deficiência de baixa renda, com critérios definidos por legislação anterior.
Haddad também afirmou que o atual nível de juros reais dificulta a redução da dívida pública. Segundo ele, com juros reais elevados, torna-se difícil reduzir o peso da dívida pública apenas por meio de superávit primário — quando o governo arrecada mais do que gasta.
Ele também destacou que, mesmo com a taxa básica de juros (Selic) nominal estável em 15% e a inflação em queda, os juros reais continuam subindo.
O ministro da Fazenda afirmou, durante o evento, que a arquitetura do arcabouço fiscal é consistente, embora reconheça que alguns parâmetros e itens do Orçamento possam ser ajustados. O modelo atual combina a meta de resultado primário, prevista desde a Lei de Responsabilidade Fiscal, com uma regra de limitação do crescimento das despesas, segundo ele.
“A arquitetura é muito boa, porque você uniu um critério da lei fiscal, que é ter meta de resultado primário, mas também fixou uma regra de gasto”, afirma.
Haddad afirmou que alguns itens do Orçamento podem estar fora do “espírito” do arcabouço fiscal e indicou a necessidade de revisões. O ministro também mencionou a possibilidade de repensar a estrutura da assistência social no Brasil, afirmando que o país estaria preparado para discutir novos modelos.
Apesar das sugestões, afirmou que o controle fiscal não deve comprometer o crescimento econômico. Complementou dizendo que o Brasil tem conseguido spread — diferença entre o rendimento pago e o de ativos considerados mais seguros — em títulos de 30 anos em dólares equiparados a países que têm grau de investimento e isso é sinal de que as perspectivas são positivas para a administração.
Questionado sobe o caso do Banco Master, o ministro afirmou que a expansão acelerada do banco foi “estancada” após a posse de Gabriel Galípolo na presidência do Banco Central (BC), quando foi identificada uma situação muito preocupante.
Ele comentou que, durante a crise, Galípolo solicitou apoio da equipe econômica em votações no Conselho Monetário Nacional (CMN). As discussões envolveram mudanças no Fundo Garantidor de Crédito (FGC), mecanismo que protege investidores em caso de falência ou intervenção de instituições financeiras.
O governo e o BC agora discutem mudanças estruturais no funcionamento do FGC para reduzir riscos no sistema financeiro. “Uma reforma mais estrutural está sendo discutida, porque ninguém quer passar por esse aperto outra vez”, afirmou.
Apesar das sinalizações de que poderia deixar o cargo entre janeiro e fevereiro, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou nesta terça-feira (10) que ainda não há uma data para sua saída do comando da equipe econômica.
Durante sua participação na CEO Conference 2026, Haddad também comentou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediu que ele conclua algumas entregas antes de deixar o ministério. O ministro não detalhou os projetos solicitados, mas afirmou que eles envolvem iniciativas na área de segurança pública, em coordenação com o Ministério da Justiça.
Após relatar o encontro com Lula, Haddad brincou com a jornalista Amanda Klein dizendo: “Não tem data ainda (para deixar o cargo), mas fique tranquila. Eu saio”.
O principal nome para assumir o cargo é Dario Durigan, secretário-executivo da Fazenda — segundo cargo mais alto do ministério —, com a possibilidade do secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron, assumir a posição atual de Durigan.
Também foi pedido a Haddad que fizesse um balanço sobre sua atuação até aqui, na qual exaltou a reforma tributária. “Após a reforma tributária, o Brasil terá um dos melhores sistemas tributários do mundo”.
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