Como consultora do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, Jaqueline defende uma maior participação das mulheres no mundo da pesquisa — Foto: Divulgação
2025 foi um ano especial para Jaqueline Goes de Jesus. Em setembro, ela foi efetivada como professora da Universidade de São Paulo, passando a integrar o quadro de docentes do Instituto de Ciências Biomédicas. Antes disso, ela havia trabalhado como pesquisadora e professora na Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública e na Faculdade de Medicina da própria USP. Mas o que deixa a premiada cientista mais feliz é a realização de seu maior projeto: a fundação do Instituto Jaqueline Goes, que tem como objetivo fomentar e acelerar a formação de meninas e mulheres na ciência.
Para quem não se lembra, Jaqueline ficou conhecida ao integrar, em 2020, a equipe responsável pelo primeiro sequenciamento genético do SARS-CoV-2 no início da pandemia na América Latina. Depois disso, ela se tornou consultora científica do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, e nomeada embaixadora da ciência no país. Nesse posto, colaborou com a ministra Luciana Santos para desenvolver políticas dedicadas a permitir o acesso e garantir a permanência de mulheres nos espaços dedicados à pesquisa científica.
Confira abaixo a entrevista que Jaqueline concedeu a Época NEGÓCIOS na véspera do Dia Internacional de Mulheres e Meninas na Ciência.
ÉPOCA NEGÓCIOS Você está envolvida em diversas iniciativas para atrair as meninas para a ciência. Pode me falar um pouco sobre elas?
JAQUELINE GOES Dentro do Ministério da Ciência, Inovação e Tecnologia, temos uma iniciativa chamada Futuro e Cientistas:a ideia é colocar as meninas dentro do ambiente científico, supervisionadas por outras mulheres que se disponibilizam a fazer isso de forma voluntária. Essas meninas, tendo contato com o ambiente científico ainda no ensino médio, conseguem vislumbrar outras possibilidades e entender que podem seguir esse caminho. Outra iniciativa, que não é voltada só para mulheres, mas acaba tendo impacto sobre elas, é o Caravanas na Ciência, que tem como objetivo levar a ciência para locais remotos. Tenho outro projeto, bem pessoal, que não envolve o ministério. Eu fundei no ano passado, ao lado de três pessoas, o Instituto Jaqueline Goes, que tem como objetivo fomentar e acelerar carreiras de mulheres na ciência. Estão comigo a doutora Valéria Borges, da Fiocruz da Bahia, Débora Prates, da Universidade Federal da Bahia, e a minha mãe, Edna Gomes Perdão, que é pedagoga e abraçou a causa.
Jaqueline ganhou destaque ao integrar equipe que sequenciou vírus da Covid-19 — Foto: Divulgação
NEGÓCIOS Como será a atuação do instituto?
JAQUELINE Nossa intenção é oferecer trilhas formativas para que alunas do Ensino Médio possam se interessar por áreas científicas nas suas graduações. Também oferecemos ajuda para que as jovens que já estão na graduação possam se preparar para processos seletivos para vagas de mestrado ou doutorado. A ideia do instituto é mostrar para essas meninas e mulheres que é possível, com a orientação correta, ingressar e se desenvolver no ambiente acadêmico. Queremos trabalhar no contexto de grupos minoritários, porque existem a maioria das mulheres que está na ciência hoje vêm de contextos privilegiados. Nossa intenção é trabalhar com mulheres negras, afrodescendentes, indígenas, quilombolas e ciganas. No segundo semestre de 2026, já devemos estar com as trilhas formativas prontas. E talvez já consigamos encerrar o ano com algumas jovens cadastradas em processos de mestrado e de pós-graduação.
NEGÓCIOS Você considera esse trabalho uma extensão do que você já faz como professora?
JAQUELINE Com certeza. Mas acredito que o instituto tem uma proposta mais direcionada, porque quer alcançar as meninas que estão sub representadas dentro da ciência. Se conseguirmos aumentar a representatividade desses grupos, podemos começar um processo de mudança para ter uma ciência mais diversa, sem olhares hegemônicos. E aí teremos discussões mais ricas, que realmente possam atender aos anseios da nossa população, que é extremamente diversificada.
NEGÓCIOS Em geral, quais as maiores dificuldades para trazer as meninas para a ciência?
JAQUELINE Existem diversas camadas no processo de distanciamento das meninas do contexto acadêmico. A primeira é cultural. Infelizmente, as profissões mais relacionadas com a área STEM [matemática, ciência, computação e tecnologia] estão em um contexto masculino. É como se só os homens tivessem capacidade para desenvolver alguma pesquisa nessas áreas. A criação das meninas tem mudado um pouco, mas a gente ainda tem muito dessa cultura machista, até mesmo misógina, de que as mulheres devem ir para profissões de serviço, enquanto que os homens podem escolher as ocupações mais intelectuais. Um dado da Unesco mostra que as famílias acabam induzindo as meninas a pensarem que elas não são capazes de assumir essas profissões. Já começa pelos brinquedos: enquanto elas recebem aqueles mais relacionados com os cuidados da casa, os meninos ganham aqueles que vão estimular sua imaginação. E se a menina diz que quer fazer engenharia, ouve a resposta: “Ah, mas isso é coisa de menino, não é?”
NEGÓCIOS Qual o papel da educação nesse cenário?
JAQUELINE A falta de educação de qualidade e as desigualdades sociais fazem com que algumas pessoas tenham acesso ao conhecimento e outras não. Aquelas que têm acesso a uma educação de qualidade conquistam oportunidades desde cedo, seja para fazer uma iniciação científica, seja para se envolverem em um processo mais voltado para o pensamento crítico. Já aquelas que frequentam escolas públicas geralmente não conseguem entrar em um curso na área das STEM ou na área da ciência, porque não têm a base necessária para poder concorrer. Então, as vagas nas universidades públicas, na maioria das vezes, são ocupadas por pessoas que têm condições de pagar faculdades particulares. É uma inversão de valores.
NEGÓCIOS Para quem mesmo assim decide investir em ciência, há ainda a resistência dentro da universidade, certo?
JAQUELINE Sim. A estrutura da academia é misógina e machista. É uma estrutura que vai questionar o tempo todo a atuação e os resultados das mulheres lá dentro. Na maioria das vezes, não há apoio institucional para que elas sejam bem-sucedidas em seus projetos. Hoje temos mais pesquisadores trabalhando com mulheres como orientandas, por isso elas conseguem ir galgando até o doutorado. Temos até editais e bolsas de pesquisa voltadas especificamente para as mulheres. Mas isso não é suficiente, porque são iniciativas muito pontuais. Nós não temos uma política real de acesso de meninas ao ambiente científico. Há algumas que conseguem furar essa bolha, começam a fazer ciência ali no processo de graduação ou pós-graduação. Mas quando tentam avançar para posições de mais senioridade, começa a batalha pela estabilidade. Se você quiser ter um emprego formal, será por meio de um concurso público, que a levará a entrar em uma universidade pública. Nesse caso, você não será contratada como uma pesquisadora, e sim como uma professora. Dentro da sua carga horária, você precisará dedicar um tempo para pesquisa. Mas a atividade primária é ser docente. Como os cuidados com os filhos ainda cabem às mulheres, elas acabam ficando desfavorecidas em relação aos homens. Conheço casais de cientistas em que as mulheres acabaram ficando para trás porque tiveram filhos, enquanto os homens continuaram desenvolvendo a sua carreira. Quer dizer então que nada mudou? Houve mudanças, claro. Mas ainda são necessárias muitas mais para conseguirmos ter contextos equiparados.
NEGÓCIOS E no ambiente de trabalho científico, como funciona?
JAQUELINE As mulheres são tratadas de maneira diferente, porque há sempre o risco de que elas engravidem e se tornem menos produtivas. Quando você consegue ser contratada e romper as barreiras da permanência, na maioria das vezes há um apagamento. Em ciência, você se torna conhecido basicamente por aquilo que você publica, pelos resultados da sua pesquisa. As pesquisas que de fato trazem resultados e que impactam a vida da sociedade são feitas a muitas mãos. O que a gente observa é que os homens acabam ganhando os louros pelos projetos e pelos resultados de uma equipe como um todo. São poucos os orientadores que conseguem descer do salto e colocar as suas alunas ou mesmo seus alunos para serem protagonistas do processo. Pode parecer bobo, mas isso apaga as mulheres do contexto científico. Eu tive muita sorte, porque comigo aconteceu o inverso com a doutora Ester Sabino [coordenadora da equipe que sequenciou o coronavírus]. Ela poderia ter assumido a responsabilidade por tudo o que aconteceu no sequenciamento do genoma do vírus da Covid. Mas ela teve um posicionamento completamente diferente, e isso mudou a minha vida, me mostrou todo o meu potencial. E ainda assim eu sofri um apagamento. Quando o sequenciamento foi divulgado e comecei a falar com jornalistas, houve comentários dos meus próprios colegas dentro da ciência, falando que era um absurdo o que estava acontecendo comigo, e que o cientista deveria ficar dentro do laboratório, não dando entrevista na TV. No meu caso, há ainda o fato de eu ser uma mulher negra, então não tenho a cara da ciência. Cansei de ser convidada para eventos onde eu era palestrante principal e aí, na entrada do evento, as pessoas me barravam. Esse é o racismo estrutural em que vivemos. Mas espero colaborar para mudar isso.


