Emilio Herrera Linares — Foto: Reprodução/Wikimedia Commons
No dia 13 de fevereiro de 1879, há 147 anos, nascia em Granada um dos nomes mais visionários da engenharia aeronáutica europeia. Em meio a terremotos, enchentes do rio Darro e epidemias que marcaram o fim do século XIX, Emilio Herrera Linares cresceu cercado por livros, mapas e relatos de feitos científicos que moldariam sua trajetória.
Filho do militar Emilio Herrera Ojeda e de Rita Linares Salanava, desenvolveu cedo fascínio pelo céu e pelas forças da natureza. A herança intelectual da família incluía ainda Juan de Herrera, arquiteto do Mosteiro de El Escorial, referência de rigor técnico e ambição monumental. Ainda adolescente, ingressou na Academia de Engenheiros de Guadalajara, onde encontrou na engenharia militar e na nascente aeronáutica o campo ideal para transformar curiosidade em método.
Sob influência de Pedro Vives Vich, pioneiro da aviação militar espanhola, Herrera aprofundou estudos em matemática aplicada e física atmosférica. Suas primeiras ascensões em balões, incluindo a observação de um eclipse solar em Burgos, em 1905, foram experiências científicas que o levaram a questionar até onde o ser humano poderia resistir às condições extremas da atmosfera.
Em 1909, atuou como balonista na Guerra do Rif, no então Protetorado Espanhol de Marrocos, aplicando técnicas de observação aérea e cartografia. Poucos anos depois, em 1914, ao lado de José Ortiz Echagüe, realizou o primeiro voo de avião entre a Europa e a África, cruzando o Estreito de Gibraltar, feito que lhe rendeu reconhecimento do rei Afonso XIII.
Visionário, participou de projetos ambiciosos, como o dirigível Hispania, concebido com Leonardo Torres Quevedo para uma travessia transatlântica, e integrou voos do Graf Zeppelin, símbolo da era dos dirigíveis. Também colaborou com Juan de la Cierva no desenvolvimento do autogiro e impulsionou a criação do Laboratório Aerodinâmico de Cuatro Vientos, embrião do atual Instituto Nacional de Técnica Aeroespacial (INTA).
Em 1935, apresentou seu projeto mais audacioso: um traje estratosférico pressurizado capaz de permitir ascensões a cerca de 25 mil metros de altitude. O equipamento incluía capacete hermético, sistema independente de oxigênio, mecanismos de regulação de pressão e soluções para mobilidade, conceitos que anteciparam os trajes espaciais desenvolvidos décadas depois pela NASA. A Guerra Civil Espanhola impediu o teste planejado para 1936, mas consolidou seu nome como precursor da exploração espacial.
Com a proclamação da Segunda República, em 1931, Herrera assumiu funções de destaque na aviação republicana e participou da Conferência de Desarmamento de Genebra. Durante a Guerra Civil (1936-1939), alcançou o posto de general, mas sofreu perdas pessoais profundas, como a morte do filho Emilio Herrera Aguilera na Batalha de Belchite.
Após a vitória franquista, exilou-se na América do Sul e, posteriormente, na França e na Suíça. Recusou colaborar com regimes autoritários e, entre 1960 e 1962, presidiu o Governo da República no exílio. Nos anos finais, manteve atividade intelectual, colaborando com organismos internacionais como a UNESCO e dialogando com cientistas como Albert Einstein.
Emilio Herrera morreu em Genebra, em 13 de setembro de 1967. Seus restos mortais foram trasladados para Granada em 1993. Ao revisitar sua história 147 anos após seu nascimento, o que emerge é a figura de um engenheiro que olhou para a estratosfera quando a humanidade ainda engatinhava na aviação, e que ajudou a pavimentar, com cálculo e imaginação, o caminho até o espaço.


