Desfile do grupo especial das Escolas de Samba do Rio em 2025 — Foto: André Moreira/Getty Images
O maior show da Terra não ficou parado no tempo. Reconhecido internacionalmente como a festa mais tradicional da cultura brasileira, o Carnaval incorporou nos últimos anos algumas das maiores evoluções tecnológicas da década.
De drones personalizados a peças criadas com impressão 3D, passando por pulseiras inteligentes e samba-enredo cantado por IA, confira a seguir como as escolas do Rio de Janeiro e de São Paulo reimaginam o futuro na avenida.
A cada ano, os carnavalescos se dedicam a entregar um espetáculo ainda maior do que os anteriores. Um dos marcos dessa história aconteceu em 2014, quando a carioca Portela realizou um sonho antigo: fazer a águia, símbolo da escola, voar na Sapucaí.
Para isso, uma equipe técnica desenvolveu um drone no formato da ave, o primeiro do tipo a ser utilizado em um desfile. O dispositivo pesava 4,5 kg e podia voar a uma altura de até 500 metros, mas se manteve a apenas 6 metros do chão, por questões de segurança.
No ano seguinte, a Portela dobrou a aposta: lançou 450 drones menores, também decorados como águias, além de um modelo semelhante ao do ano anterior e outros dois no formato de bolas de futebol, que sobrevoaram um carro alegórico no formato do Maracanã.
A escola ainda aproveitou os dispositivos no desfile de 2023, quando a Portela comemorava 100 anos de fundação. Dessa vez, os drones foram utilizados para criar desenhos, formando tanto a icônica águia quanto o próprio nome da escola.
Águia, símbolo da Portela, em desfile de 2023 — Foto: Bruno Martins Imagens/Getty Images
A Mocidade Independente de Padre Miguel foi outra agremiação carioca a colocar tecnologia no samba. A agremiação surpreendeu o público em 2017 com um aeromodelo adaptado que representava o personagem Aladim, numa apresentação que homenageava o Marrocos e fazia referência aos contos das Mil e Uma Noites.
A Mocidade Independente de São Miguel recriou a magia de Aladim em 2017 — Foto: Salim Wariss
Já em 2022, a Mocidade voltou a encantar os carnavalescos com um drone personalizado que representava a flecha de orixá que foi tema do enredo da escola naquele ano.
O mercado de tecnologia vestível, ou wearables, também chegou na avenida, por meio das smartbands, pulseiras programadas para fazer monitoramento físico.
Em 2020, com o enredo “Tempos Modernos” - uma referência ao clássico filme de Charles Chaplin -, a Rosas de Ouro, de São Paulo, discutiu os rumos da transformação digital e da Indústria 4.0. Além de ser tema do desfile, a tecnologia também foi integrada à apresentação, com membros da escola - incluindo a presidente da Rosas de Ouro, Angelina Basílio - usando smartbands.
As pulseiras foram usadas para medir a frequência cardíaca dos sambistas, a distância percorrida por eles, o número de passos dados e o gasto de calorias de cada um. Essas informações ficavam disponíveis em um app desenvolvido pela escola e podiam ser acompanhadas pelos espectadores em tempo real.
O app também disponibilizava dados com base no rastreamento de etiquetas RFID (identificação por radiofrequência) localizadas nas fantasias dos membros de cada ala. Algumas destas ainda contavam com QR Codes conectados a um recurso de realidade aumentada (AR), para que os foliões provassem os trajes pelo celular.
Outra escola que apostou nos wearables foi a Acadêmicos do Grande Rio, em 2024. Naquele ano, 55 mil pulseiras luminosas, conhecidas como xylobands, foram distribuídas antes do desfile. Os acessórios continham LEDs integrados que mudavam de cor de acordo com a música e os efeitos visuais da apresentação.
A Mocidade adotou um visual hi-tech para o desfile de 2025 — Foto: Thomaz Silva/Agência Brasil
Em 2024, depois de 12 anos distante da elite do Carnaval do Rio de Janeiro, a Unidos do Porto da Pedra retornou ao grupo especial. Naquele ano, a escola inovou ao implementar técnicas de impressão 3D no desenvolvimento de suas alegorias. O recurso foi utilizado no desenvolvimento de maquetes: as peças serviam de referência para a produção em tamanho real, que seguiu métodos tradicionais.
A Mocidade Independente de Padre Miguel voltou a se reinventar na Marquês de Sapucaí em 2025, com o enredo “Voltando para o Futuro – Não há Limites pra Sonhar”. A escola montou uma comissão de frente high tech, com telões que reproduziam imagens geradas por inteligência artificial sincronizadas à coreografia e ao samba-enredo, além de um robô humanoide que acenava para o público e dois cachorros-robôs.
Em outro momento do desfile, um carro alegórico transmitiu uma espécie de game gerado por IA, em que CEOs de big techs como Elon Musk, Mark Zuckerberg e Jeff Bezos, além do presidente da China, Xi Jinping, literalmente lutavam pela hegemonia global.
A voz do cantor Dominguinhos do Estácio foi recriada com IA para a Unidos do Viradouro — Foto: Henrique Matos
Pelo menos duas escolas apostam em inovação neste ano para conquistar o público - e os jurados. A Unidos do Viradouro, de Niterói, vai experimentar outra funcionalidade da IA em seu desfile. Marcelo Bertoldo, co-compositor do samba-enredo da escola, recriou a voz de um dos maiores intérpretes da história da Viradouro, Dominguinhos da Estácio, com o auxílio da tecnologia.
O processo foi autorizado pela família do músico, e o resultado agradou os membros da escola, que viram com bons olhos a homenagem a Dominguinhos, falecido em 2021. De acordo com Bertoldo, a iniciativa foi inspirada no comercial da Volkswagen que recriou a imagem e a voz de Elis Regina num dueto com a filha, Maria Rita.
A impressão em 3D também está de volta, mas de uma maneira bem mais ousada. Desta vez, a Beija-Flor de Nilópolis terá 10% de seus elementos cenográficos, adereços e figurinos confeccionados em uma enorme impressora 3D - a maior do país, instalada no barracão da escola e desenvolvida em parceria com o engenheiro mecânico Luiz Lolli. O investimento da atual campeã do Carnaval do Rio representa um avanço importante para a escola, reduzindo o tempo de produção e colaborando para a diminuição dos impactos ao meio ambiente.
Peças de até 1,10 metros de altura, que antes levavam dias para serem construídas, foram impressas em 24 horas. Além disso, a utilização de plástico ABS - mais leve e reciclável - irá permitir que a escola reaproveite o material em desfiles futuros, nos quais a escola pretende ampliar ainda mais o uso da técnica.
*Com supervisão de Marisa Adán Gil


