Seis anos depois de vender todos os jornais do grupo e dizer que, para a maior parte da indústria, o futuro seria de queda “sem fim”, a Berkshire Hathaway voltou a colocar dinheiro no jornalismo. No último trimestre de Warren Buffett como CEO, o conglomerado revelou uma nova posição de cerca de US$ 351,7 milhões na The New York Times Company, dona do jornal The New York Times.

A aposta, de aproximadamente 5,07 milhões de ações, cerca de 3% do capital da empresa, apareceu no formulário 13F enviado à U.S. Securities and Exchange Commission. O documento também mostrou que a companhia reduziu sua posição em Apple, energia e bancos. E deixa no ar a pergunta que a sucessão inevitavelmente acende: “quem está assinando essas decisões agora?”.

Quando Buffett se desfez, em 2020, de dezenas de jornais regionais que a Berkshire acumulou ao longo dos anos, ele decretou que a indústria “já era”. A palavra virou senha para a capitulação de um investidor que, por décadas, defendeu publicações locais como negócios com barreiras de entrada e influência comunitária.

Mas havia uma ressalva já naquela época: marcas nacionais, com musculatura de assinatura e capacidade de virar produto digital, poderiam escapar do destino do impresso. E é nessa exceção que a Berkshire entra agora. Em vez de comprar uma cadeia de jornais, ele investiu uma fatia relativamente pequena em um grupo que se reposicionou como plataforma de assinatura.

O The New York Times mantém raízes de jornal, mas hoje é um negócio digital “vivo”, impulsionado por produtos como Wordle, pela plataforma esportiva The Athletic e por uma base de mais de 12 milhões de assinantes digitais.

O mercado, como costuma fazer quando a Berkshire aparece no quadro acionário de alguém, tentou ler o movimento como “voto de confiança” no valor da empresa. As ações do New York Times sobem cerca de 1% no pregão desta quarta-feira, 18 de fevereiro. Em 12 meses, os papéis se valorizaram 52%.

Dentro da própria carteira da Berkshire, a posição no The New York Times é modesta: é apenas a 29ª maior alocação de 41 posições. É o tipo de investimento que não muda o eixo da holding, indicando que não há intenção de gerir a empresa, mas muda a história contada sobre ela, sobretudo quando o trimestre em questão foi o último com Buffett “no comando” como CEO.

Mas não está claro se foi Buffett quem montou a posição ou já o seu sucessor. A Berkshire tinha dois gestores relevantes tocando fatias do portfólio: Todd Combs e Ted Weschler.

Greg Abel assumiu como CEO no início de 2026 (Buffett segue como chairman). E, no meio desse rearranjo, Combs saiu em dezembro e se juntou ao JPMorgan Chase em janeiro para liderar um braço de investimentos ligado à iniciativa de “security and resiliency” do banco.

Apple encolhe de novo

O mesmo 13F trouxe a continuidade de um processo que virou marca do “Buffett dos últimos anos”: ajustes graduais, corte de excesso e menos tolerância à concentração extrema.

A Berkshire reduziu sua posição em Apple em 4,3%, para US$ 61,96 bilhões, com base em dados da InsiderScore. Mesmo após o corte, a Apple segue, de longe, como maior posição em ações do conglomerado.

E o histórico recente ajuda a dar contexto ao corte: a Berkshire já havia diminuído Apple com força em 2024 (um corte de dois terços naquele ano), voltou a reduzir no segundo trimestre de 2025 e, no terceiro trimestre, cortou novamente Apple e iniciou uma posição em Alphabet.

Em 2025, as ações da Apple subiram cerca de 9% — terceiro ano consecutivo de alta —, mas ficaram atrás do S&P 500, que ganhou mais de 16%. Já em 2026, o papel acumulava queda de cerca de 3%.

Além disso, Buffett sempre descreveu a Apple menos como “tech pura” e mais como uma empresa de produtos de consumo com ecossistema e fidelidade. Na leitura do mercado, o corte pode ser parte de um esforço para deixar um portfólio mais administrável para o sucessor.

Ainda do lado das vendas, a Berkshire seguiu reduzindo sua posição em Bank of America. Foram aproximadamente 50 milhões de ações vendidas no trimestre, embora a holding ainda mantivesse uma participação relevante ao fim do ano.

Entre as compras, a Berkshire aumentou sua posição em Chevron: foram cerca de 8 milhões de ações adicionais no trimestre, levando o total para mais de 130 milhões de ações.

O timing chamou atenção porque, no início de 2026, a Chevron teve uma alta forte, de quase 19%, após noticiário envolvendo a Venezuela e o governo Donald Trump.

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