Vencida a ressaca do Carnaval, 2026 engrena com “cartas na mesa”. Grandes temas se entrelaçam e desafiam previsões no curto prazo. A economia segue “sequestrada” pela política e, de certo, prevalece a percepção de que, daqui para frente, o Brasil estará exposto a um duplo risco – fiscal e eleitoral – que cobrará seu preço.
Flávio Bolsonaro está consolidado, por ora, como principal adversário do presidente Lula na eleição, sugerindo polarização extrema na batalha pelo Planalto; o “Caso Master” está longe de acabar, apesar da troca do ministro Dias Toffoli por André Mendonça na relatoria da matéria no STF, onde ministros e parentes tornaram-se alvo de vazamento de dados fiscais na Receita Federal e mobiliza a Polícia Federal.
Os bancos estão em maus lençóis. Devem antecipar anos de contribuição ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC) pela “quebra” do Master – fatura estimada, somente em garantias, em R$ 40,6 bilhões e que extrapola R$ 50 bilhões ao agregar a liquidação do Banco Pleno e Will Bank pelo Banco Central (BC). Duas instituições que faziam parte do conglomerado.
O Banco do Brasil, o maior do País e que contribui com dividendos para a melhora das contas públicas, acusou uma queda abissal no lucro em 2025: R$ 20,7 bilhões, 45,4% menor que o observado em 2024. Motivo? A explosão na inadimplência do agronegócio – carro-chefe do PIB nacional.
Em meio ao cenário turvo também sobre as consequências jurídico-eleitorais da homenagem dos Acadêmicos de Niterói a Lula – possivelmente sem efeitos práticos a não ser o rebaixamento da escola de samba – o presidente, ministros e ampla comitiva de empresários estão em périplo pela Índia e Coreia do Sul. A viagem foi iniciada na terça-feira, 17, com encerramento previsto para a terça-feira, 24, quando a comitiva retornará ao Brasil.
Em seguida, Lula desfiará a contagem regressiva para encontro com Donald Trump, em Washington, em março – ainda sem data definida. Em abril, o presidente deverá marcar presença, na Alemanha, na Feira de Hannover, o maior evento de tecnologia industrial do mundo. Em junho poderá participar da reunião de Cúpula do G7, na França.
Em meio à ausência intermitente de Lula no Brasil, o Congresso deverá dedicar o tempo exíguo, em função do calendário eleitoral, a pautas de ampla repercussão. O mercado, por sua vez, seguirá contabilizando ajustes de preços de ativos observados em 50 dias do novo ano. Ajustes positivos, mas com tendência à desaceleração – assim como a inflação.
Do início de janeiro até 18 de fevereiro, da reabertura da B3 pós-Carnaval, os juros caíram no mercado futuro; o dólar recuou 4,37% ante o real. O Ibovespa valorizou 15,44% puxado pelo investidor estrangeiro que despejou no Brasil mais de R$ 35 bilhões também no ano até a sexta-feira “gorda”.
“O bom momento neste início de 2026 deve ser encarado como oportunidade para realizar ganhos, reduzir posições e comprar proteção diante da perspectiva de maior volatilidade a partir do segundo trimestre”, alerta Alexandre Mathias, estrategista-chefe da Monte Bravo Corretora.
Para Mathias, o ingresso maciço de divisas tem sustentado as cotações, mas não resolve a equação fiscal nem mitiga a incerteza política. “Encaramos a alta recente não como tendência estrutural, mas como oportunidade de saída. A partir de março, a matemática fiscal e o calendário eleitoral voltarão a ditar o prêmio de risco”, avalia o estrategista na Carta Mensal de fevereiro.
“Dança das cadeiras”
Entre março e abril, a corrida eleitoral estará no estágio da “dança das cadeiras” – período de desincompatibilização de cargos por ministros que disputarão a eleição. As chapas de Lula e oponentes estarão em construção e poderá ser confirmada a junção do Ministério da Gestão e Inovação com o Planejamento – Esther Dweck deve liderar a “nova” Pasta.
No Congresso, a agenda é diversa com pautas polêmicas: fim da jornada de trabalho 6x1; PEC da Segurança Pública; acordo UE-Mercosul e o Redata que passou de MP, a expirar em 25 de fevereiro, a projeto de lei.
A PEC de Autonomia Financeira do BC está em comissão no Senado que deverá destravar a matéria e, em novo relatório, atribuir ao BC poderes para intervir no mercado de títulos quando fundos e instituições apresentem disfuncionalidade ou falta de liquidez. A CVM terá poderes preservados.
Ainda pendente estão a formalização do Advogado-Geral da União, Jorge Messias, para vaga no STF e indicações de Lula para duas diretorias do BC – a sucessão em todos esses cargos está subordinada ao aval do Senado.
No âmbito das comissões parlamentares de inquérito, a que apura a atuação do crime organizado no País pretende convocar a advogada Viviane Barci, esposa do ministro Alexandre de Moraes, do STF, para esclarecimentos sobre o contrato milionário firmado por seu escritório com o Banco Master para a prestação de serviços advocatícios ao longo de três anos.
O “Caso Master” ganhará mais destaque nos dias 23 e 24 reservados para, respectivamente, o depoimento de Daniel Vorcaro à CPMI do INSS, onde o crédito consignado é alvo das apurações; e o depoimento do presidente interino da CVM, João Accioly, ao grupo de senadores que acompanha as investigações das fraudes no Master.
Na seara econômica que vai tomando corpo com a atualização de indicadores, fevereiro terminará com relatórios do BC sobre operações externas, crédito e política fiscal em janeiro; índices setoriais de confiança do Ibre FGV e o IPCA-15 de fevereiro que deverá acelerar no mês e cair para cerca de 3,8% em 12 meses por efeito estatístico.
Na agenda externa, dirigentes do Federal Reserve, o BC dos EUA, farão pronunciamentos, dando continuidade à agenda dos últimos dias, quando Fed Boys discursaram sem consenso sobre corte de juros em março, enquanto a ata da reunião de política monetária lançou ameaça de alta da taxa básica – sinalização que, somada à tensão entre EUA e Irã, recomenda cautela quanto ao comportamento dos ativos no mercado internacional.


