A conta dos resgates de quase R$ 52 bilhões ao Banco Master, Will Bank e Banco Pleno pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC) está prestes a chegar ao caixa das instituições financeiras. E, agora, com um novo arcabouço. Segundo cálculos do Citi, o impacto para o lucro dos bancos brasileiros será limitado.
Em relatório a clientes, o Citi diz que a nova engenharia de funding do fundo exige uma antecipação de capital: as instituições terão de adiantar contribuições equivalentes a até 84 meses e ainda absorver uma cobrança adicional recorrente de 6 pontos-base (bps, equivalente a 0,06%) ao ano.
Para os bancos, os custos são de carregar hoje um dinheiro que seria pago ao longo dos anos e uma cobrança operacional extraordinária anual. Na prática, o cronograma trabalhado no mercado é em três etapas: um adiantamento “imediato” de 60 meses ao longo de 2026; mais 12 meses em 2027; e outros 12 meses em 2028 - totalizando 84 meses.
Para estimar o impacto nos lucros, o Citi usa como custo de oportunidade 100% do CDI (isto é, assume que o dinheiro “travado” no adiantamento deixa de render a taxa básica), capitalizando esse custo ao longo do tempo. Daí sai a conclusão: apesar do volume grande em meses, o efeito no resultado tende a ficar contido em relação ao tamanho dos balanços.
O banco estima um efeito financeiro “modesto” em 2026: algo entre 0,4% e 1,9% do lucro, e cerca de 8 bps de pressão no capital principal, com base nos números do quarto trimestre de 2025.
No recorte do Citi, o impacto fica mais concentrado nos incumbentes tradicionais: em 2026, o “total” (adiantamento de 60 meses mais a taxa extraordinária) chega a 1,9% do lucro no Banco do Brasil; 1,8% no Bradesco e 1,6% no Inter, com Santander Brasil em 1,5% e Banco ABC Brasil em 1,4%; o Itaú Unibanco aparece abaixo desse bloco, em 1,3%, enquanto o Nubank é o “menos afetado”, com 0,4%.
O ponto de virada institucional ocorreu em 22 de janeiro de 2026, quando o Conselho Monetário Nacional (CMN) aprovou mudanças no estatuto e regulamento do FGC, ampliando a flexibilidade do fundo para ajustar alíquotas e determinar antecipações em situações de necessidade de caixa.
A próxima etapa, segundo o Citi, é o Banco Central do Brasil formalizar o cronograma de parcelamento do adiantamento de 60 meses. Algo que, no radar do mercado, poderia ocorrer entre março e maio, com implementação esperada no primeiro semestre.
E, por ser uma exigência extraordinária, não está descartada a hipótese de algum tipo de flexibilização na aplicação da regra, dependendo da avaliação do BC sobre o espaço de capital de partes do sistema.
Amortecedores do custo
De qualquer forma, os bancos já discutem como diminuir o preço. A via mais óbvia passa por redirecionar ativos que hoje já ficam parados: depósitos compulsórios. Se esses recursos já são mantidos no BC sem remuneração, usá-los para financiar a antecipação ao FGC reduz (ou pelo menos suaviza) o custo de oportunidade embutido na medida.
O segundo amortecedor é interno: eficiência. Se a cobrança adicional vira um “novo custo fixo” do sistema, a reação natural é acelerar iniciativas de produtividade e digitalização para preservar retorno sobre patrimônio, especialmente num momento em que bancos também enfrentam competição forte em pricing e mudanças no mix de funding.
O terceiro, mais sensível, é repassar preço. O Citi aponta que parte da proteção de ROE pode vir de repricing de crédito — o que, na prática, significa tentar distribuir o custo do novo arcabouço ao tomador final, principalmente em linhas onde a elasticidade permite ajustes sem perder volume de forma relevante.
Para os bancos, o mais importante será entender como ficam o cronograma de parcelamento, a possibilidade de uso (ou não) de compulsórios e, principalmente, se a antecipação será tratada como um evento pontual de recomposição ou se abre precedente para um FGC estruturalmente mais caro em ciclos de estresse.


