O mercado de criptomoedas atravessa um período crítico em fevereiro de 2026, com o Bitcoin registrando seu pior início de ano em toda a história. A queda de 23% nos primeiros 50 dias de negociação reflete não apenas dinâmicas internas do mercado cripto, mas também as crescentes tensões geopolíticas e incertezas econômicas que marcam o cenário global.
O Bitcoin (BTC) está cotado em torno de US$ 67.868, apresentando uma alta de aproximadamente 2% nas últimas 24 horas. No entanto, essa recuperação pontual mascara uma realidade mais complexa: a principal criptomoeda permanece lateralizada entre US$ 65 mil e US$ 70 mil há duas semanas, incapaz de romper a resistência técnica em US$ 68.500.
Desde a máxima histórica de US$ 120 mil em outubro de 2025, o Bitcoin acumula uma queda de aproximadamente 50%, confirmando analistas que o mercado entrou em um bear market estruturado. O ativo caiu 10% em janeiro e 15% em fevereiro, podendo marcar a primeira vez na história com duas perdas mensais consecutivas.
Tecnicamente, o suporte importante está localizado na área de US$ 67.000–US$ 66.500, enquanto a resistência forte permanece em torno de US$ 68.500. Para encerrar fevereiro no positivo, o BTC precisaria subir mais de 15% para acima de US$ 78.600 nos dias restantes do mês – um cenário que analistas consideram improvável dado o sentimento de mercado atual.
O Índice de Medo e Ganância das criptomoedas está em 12, indicando extremo medo entre investidores. Essa métrica, que varia de 0 a 100, reflete a psicologia coletiva do mercado e sua sensibilidade a ruídos macroeconômicos e pressão vendedora.
A deterioração do sentimento é evidente nas buscas por “Bitcoin indo a zero” e na preferência de analistas por altcoins menores ou ferramentas para memecoins em bear market. Sem convicção de alta sustentada devido à indecisão macroeconômica, investidores buscam alternativas de menor risco ou maior volatilidade especulativa.
A crise do mercado cripto não ocorre em isolamento. A economia global enfrenta uma fase crítica marcada por tensões geopolíticas intensas que impactam diretamente a confiança nos ativos de risco, incluindo criptomoedas.
O segundo mandato de Trump introduziu arancéis universais de 10-20% sobre importações, com taxas de até 60% sobre bens chineses. Essas medidas comerciais transcenderam sua função econômica tradicional para se tornarem instrumentos de pressão geopolítica, particularmente contra Groenlândia e Canadá. O Banco Central Europeu estima que arancéis estadounidenses de 20% reduziriam o crescimento da eurozona a apenas 0,7%.
Além disso, o índice de risco político global alcançou 41,1% em 2025 – um máximo histórico – consolidando-se como tendência estrutural que marca 2026. Os principais desafios incluem um calendário eleitoral sensível, crescente descontento popular e mudanças na política estadounidense.
Os arancéis bilaterais e estratégicos estão erodindo a legitimidade de instituições como a OMC, acelerando a regionalização de cadeias de valor mediante “friendshoring” – a redesignação de produção segundo proximidade geográfica e afinidade política. Isso reduz a eficiência produtiva global e abandona a lógica de vantagem comparativa que sustentou o crescimento econômico das últimas décadas.
Esse ambiente de fragmentação geopolítica cria incerteza para investidores globais, reduzindo o apetite por ativos de risco como criptomoedas. Enquanto economias desenvolvidas enfrentam pressões inflacionárias e políticas monetárias restritivas, os mercados emergentes sofrem com volatilidade cambial e saídas de capital.
O FMI e Banco Mundial projetam crescimento da economia global de 3,3% em 2026, uma cifra que mantém ligeira revisão ao alza. No entanto, esse crescimento coexiste com o que analistas descrevem como uma situação “ao borde do vulcão” – caracterizada por riscos geopolíticos, financeiros e sociais persistentes.
A Coface, agência de análise de risco, reduziu sua projeção de crescimento global para 2,6% em 2026, um ligeiro declínio em relação aos 2,8% de 2025. Essa desaceleração reflete a incerteza sobre como as políticas comerciais estadounidenses e as tensões geopolíticas impactarão o comércio internacional e os investimentos.
Um episódio significativo ocorreu na Coreia do Sul, onde a exchange Bithumb cometeu um erro técnico ao acreditar erroneamente usuários com Bitcoin que não possuía. O incidente totalizou aproximadamente US$ 43 bilhões em ativos incorretos antes da correção. Embora a maioria dos ativos tenha sido recuperada, 125 BTC (cerca de US$ 8,6 milhões) permaneceram não recuperados.
Este episódio provocou apelos por supervisão regulatória mais rigorosa do mercado criptográfico sul-coreano, destacando as vulnerabilidades operacionais e de governança que ainda persistem no setor. Para um mercado que busca legitimidade institucional, tais incidentes prejudicam a confiança de investidores e reforçam a necessidade de padrões mais altos de segurança e conformidade.
Apesar do bear market, o setor de blockchain continua evoluindo. O relatório “Ativos Digitais 2026: Acima do Ruído” foi lançado, oferecendo análises sobre plataformas principais como BNB Chain, Ethereum, Solana, Uniswap e Hyperliquid. O relatório destaca avanços significativos em escalabilidade, interoperabilidade e adoção de usuários nessas redes.
A Kraken, uma das maiores exchanges de criptomoedas, adquiriu a plataforma de gestão de tokens Magna, visando fortalecer sua posição antes de um IPO planejado. A aquisição permitirá que a Kraken apoie emissores de tokens no início de seu ciclo de vida, potencialmente oferecendo uma vantagem competitiva em futuras listagens de tokens.
Embora o cenário atual seja desafiador, a história oferece algum consolo. O Bitcoin está próximo de atingir seu quinto mês consecutivo de queda – um padrão raro que ocorreu apenas entre agosto de 2018 e janeiro de 2019. Historicamente, sequências semelhantes foram seguidas por recuperações expressivas.
Na última sequência de cinco meses de queda, o Bitcoin avançou 93% no ano seguinte àquele período e renovou sua máxima histórica. No entanto, analistas alertam que o passado não garante o futuro. Os fatores que diferem este ciclo de quedas passadas incluem a reavaliação de investimentos em IA e as condições financeiras acomodatícias que caracterizam o ambiente macroeconômico atual.
Enquanto o Bitcoin permanece lateralizado, alguns ativos secundários apresentam movimentos mais dinâmicos. A criptomoeda KITE atingiu uma nova máxima histórica (ATH), valorizando-se 16,6% nas últimas 24 horas e sendo negociada a US$ 0,254. Esse movimento sugere que, mesmo em bear market, há oportunidades em segmentos específicos do mercado.
Solana (SOL) e Ethereum (ETH) sofrem maior volatilidade, com recuperação mais lenta esperada. O mercado total de criptomoedas subiu US$ 19 bilhões recentemente, mas enfrenta risco de reversão para US$ 2,22 trilhões ou até US$ 2,12 trilhões se perder suporte em US$ 3 trilhões.
O mercado de criptomoedas em fevereiro de 2026 reflete as tensões mais amplas da economia global. O bear market do Bitcoin não é meramente uma correção técnica, mas um reflexo das incertezas geopolíticas, fragmentação comercial e risco político em máximos históricos.
Investidores e analistas enfrentam um ambiente onde as dinâmicas macroeconômicas tradicionais se entrelaçam com novos riscos geopolíticos. A recuperação do mercado cripto dependerá não apenas de fatores técnicos e de sentimento, mas também da resolução das tensões comerciais e políticas que caracterizam o cenário global.
Enquanto isso, o setor continua evoluindo, com avanços em escalabilidade e adoção institucional ocorrendo em paralelo à turbulência de preços. Para investidores de longo prazo, o desafio permanece: distinguir entre oportunidades genuínas e armadilhas em um mercado caracterizado pelo extremo medo e pela incerteza estrutural.


