A ATP (Associação de Terminais Portuários Privados) afirmou neste sábado (21.fev.2026) que “repudia” os atos de indígenas ocupando e invadindo a sede, terminais portuários e embarcações da Cargill em Santarém (PA), como forma de protesto contra a privatização e o fluxo de cargas no rio Tapajós.
Os atos começaram em 22 de janeiro de 2026, quando 14 povos indígenas ocuparam a sede da Cargill em Santarém, bloquearam o acesso ao terminal da empresa e interceptaram balsas no rio contra a privatização do rio Tapajós. Em 19 de fevereiro, cerca de 400 indígenas voltaram a interceptar embarcações da empresa.
Segundo a associação, os episódios envolveram vandalismo, destruição de equipamentos, danos a estruturas operacionais, ameaças diretas aos trabalhadores e restrição da liberdade de funcionários por horas, colocando em risco a integridade física das pessoas presentes. Para a ATP, as ações são “inaceitáveis” e incompatíveis com qualquer forma legítima de reivindicação.
“As reivindicações configuram ações inaceitáveis e incompatíveis com qualquer forma legítima de protesto. As pautas apresentadas dizem respeito a matérias de competência exclusiva do governo federal. Direcionar atos de violência e intimidação contra uma empresa privada que não possui ingerência sobre a pauta apresentada não apenas é improdutivo, como desvirtua o legítimo espaço democrático de diálogo e enfraquece o processo institucional adequado para tratar tais temas”, afirmou em nota enviada ao Poder360.
Apesar de reafirmar respeito ao direito constitucional de livre manifestação, a ATP solicitou às autoridades competentes a adoção imediata de medidas para restabelecer a posse e o funcionamento seguro do terminal, garantir a segurança dos funcionários, permitir a realização de perícias e investigações e proteger o patrimônio público e privado.
Por meio de nota, a Cargill afirmou que as ações que tem acontecido com seus ativos são “violentas” e fizeram com que fosse necessário a acionamento de planos de emergência.
A inclusão da Hidrovia do Rio Tapajós no PND (Programa Nacional de Desestatização) colocou governo federal, indígenas e a multinacional do setor alimentício Cargill, no centro de um impasse político, ambiental e judicial no oeste do Estado do Pará (PA).
O ponto de partida é o decreto 12.600, assinado em agosto de 2025 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A norma incluiu 3 hidrovias federais no PND (Rio Madeira, Rio Tocantins e Rio Tapajós). Estar no programa significa que o governo pode realizar estudos técnicos, econômicos e jurídicos para avaliar uma eventual concessão dos serviços de navegabilidade, como dragagem e manutenção do canal.
Publicamente, o governo tem afirmado que o decreto não autoriza obras nem privatiza os rios. Diz que o texto trata exclusivamente da realização de estudos e que qualquer decisão futura dependerá de licenciamento ambiental e da realização de consulta livre, prévia e informada às comunidades afetadas, conforme a Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho).
Para indígenas de 14 povos do Baixo e Médio Tapajós, além de lideranças Kayapó, Panará e Munduruku, a medida representa o início de um processo que pode consolidar o uso intensivo do rio para o escoamento de commodities, o que prejudicará o modo de vida do povo local.
O aumento das movimentações, com o aprofundamento do rio, pioraria a qualidade da água, com impactos na pesca e na segurança alimentar, risco a sítios arqueológicos e impactos à fauna, segundo o Citupi (Conselho Indígena Tupinambá). O Conselho reúne 18 territórios indígenas da etnia Tupinambá e Suraraitá e tem registrado protestos em suas redes sociais.
Eles dizem que não houve consulta prévia antes da edição do decreto e que os conflitos na região fizeram aumentar a violência contra os povos da região. “Os nossos rios não estão à venda. Dizemos não ao decreto, à dragagem e estamos na linha de frente pela defesa dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins”, afirma o Conselho.
Para o governo, a inclusão no PND é etapa preliminar e técnica. Para os povos indígenas, ela já sinaliza uma decisão política que pode transformar o rio em corredor permanente de exportação.


