Meta do projeto que transforma resíduos em adubo é chegar ao volume de 10 toneladas por mês — Foto: Divulgação
O que antes seguia para aterros sanitários agora retorna à cidade como insumo para produção de alimentos. Em Joinville (SC), a indústria farmacêutica Catarinense, especializada na produção de medicamentos fitoterápicos, vitaminas e suplementos alimentares, estruturou há dois anos um programa de compostagem que converte resíduos orgânicos e materiais industriais em adubo.
Leonardo Bitsch, diretor do Centro de Serviços Compartilhados da Catarinense, conta que a ideia surgiu com a necessidade de ter iniciativas de ESG mais concretas e conectadas com as comunidades do entorno.
“Quando olhávamos para o que estava acontecendo no mundo, nesses movimentos de ESG, o que víamos era que existia muito modismo, iniciativas pouco integradas com o contexto socioambiental, muitas vezes conquistadas com dinheiro, ou seja, empresas que compram rentabilização de carbono. É relativamente fácil fazer isso, é só ter orçamento, ter dinheiro, que a gente neutraliza carbono, mas é algo mais vazio”, afirma.
A partir dessa visão, a companhia pesquisou o mercado e conheceu, no final de 2023, a Organa Biotech, startup de biotecnologia que transforma localmente resíduo orgânico em adubo. Após alguns meses de conversa, nasceu o projeto de compostagem, que recebeu investimento inicial de apenas R$ 1.800.
Nele, são empregados os resíduos gerados pelo refeitório da empresa, bem como o oriundo da estratificação da matéria-prima - por exemplo, agrião, mel e alcachofra - usados na produção dos medicamentos.
O adubo gerado é destinado a hortas comunitárias de Joinville, auxiliando mais de 40 famílias. Em um primeiro momento, foram instaladas cinco caixas de compostagem. Hoje, são 15. Em 2024, ano um da iniciativa, foram compostadas 12 toneladas. Em 2025, foram 24 toneladas.
“Em 2024, com a introdução da compostagem, reciclamos 71 toneladas de resíduos de um total gerado de 316 toneladas, levando em conta todos os nossos projetos. No ano passado, esse número subiu para 151 toneladas, de um total de 316 toneladas”, informa Gabriela Guesser, supervisora de ESG da Catarinense, acrescentando que a taxa de reciclagem da empresa há dois anos era de 42% e, em 2025, foi de 60%.
Guilherme Ottoni Zimmermann, CEO e sócio fundador da Organa Biotech, destaca que, em dois anos de projeto de compostagem, 20 toneladas de CO2 equivalente deixaram de ser emitidas. Entre janeiro e dezembro de 2025, a farmacêutica liberou apenas 2,29 toneladas.
“No aterro, os resíduos ficam 10 anos gerando gases. Quando faz a compostagem, isso é mitigado ali na hora”, complementa. Ele salienta que, a partir do segundo semestre, o programa ganhará escala com a instalação de uma máquina que substituirá as atuais caixas. “Atualmente, não conseguimos compostar 100% dos resíduos gerados, mas, com ela, vamos absorver tudo”, indica.
A partir da implementação do maquinário, cujo valor é de R$ 140 mil, serão produzidas 10 toneladas de adubo por mês, totalizando 120 por ano. O volume extra poderá ser destinado a outras 36 hortas comunitárias, além de praças públicas e projetos de educação ambiental de Joinville.
A Catarinense também planeja envolver seus fornecedores agrícolas no uso do adubo gerado internamente. “Estamos iniciando um projeto de economia circular, olhando para o processo como um todo, sempre com a preocupação de não mandar resíduos para aterros. A nossa proposta é comprar os insumos do produtor, fazer a estratificação deles, compostar o extrato resultante e fornecer o adubo para o produtor, finalizando a cadeia”, aponta Guesser.
O avanço desse programa ocorre em um contexto de pressão crescente por soluções concretas de descarbonização no setor industrial. Ao optar por investir em uma tecnologia local de baixo custo inicial — e não apenas em compensações externas — a empresa busca estruturar uma estratégia ambiental com impacto mensurável e vínculo direto com a comunidade.
Banner da série Inovação de Resultado (Novo) — Foto: Clayton Rodrigues

