Em duas fases já deflagradas, a operação Compliance Zero apreendeu 52 celulares, mais de R$ 2,6 milhões em espécie, um avião de R$ 200 milhões, 30 armas e veículos avaliados em mais de R$ 25 milhões. Pelo menos 13 pessoas foram presas ou foram alvo de busca e apreensão. Todos estão soltos. O caso segue em sigilo e o STF (Supremo Tribunal Federal) ainda não teve acesso a nenhum material contido nos aparelhos eletrônicos apreendidos.
Iniciada pela pela PF (Polícia Federal) em 18 de novembro de 2025, a operação investiga um esquema bilionário de fraudes financeiras que teria usado a estrutura do mercado de capitais para desviar ativos e esconder prejuízos.
As investigações começaram em 2024, a pedido do MPF (Ministério Público Federal), que solicitou a verificação de indícios de fabricação e venda de títulos de crédito falsos por instituições que integram o SFN (Sistema Financeiro Nacional) e circulação de “ativos podres” para ocultar rombos financeiros.
Estão no centro das investigações o Banco Master, do banqueiro Daniel Vorcaro, e gestores, executivos e empresários ligados a fundos de investimentos e operações com títulos de crédito.
A 1ª fase, deflagrada em 18 de novembro de 2025, mirou a venda pelo Master de cerca de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito falsas ao BRB (Banco de Brasília). Sete pessoas foram presas.
Daniel Vorcaro e outros 4 executivos do banco foram presos preventivamente e outros 2 empresários tiveram prisões temporárias decretadas.
Foram cumpridos 25 mandados de busca e apreensão, além de medidas cautelares em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia e no Distrito Federal, autorizadas pelo Supremo Tribunal Federal. Ao todo, 10 pessoas foram alvos diretos dessa 1ª fase da operação.
Os números conhecidos do que se passou em 18 de novembro de 2025 são incompletos, pois a PF não divulga os detalhes nem para o STF. A seguir, o que se sabe:
5 prisões preventivas (todos já estão soltos)
2 prisões temporárias (todos já estão soltos):
3 afastados (a Justiça determinou que deixassem seus cargos no BRB, mas não foram presos):
Lista de bens apreendidos:
Os 13 aparelhos de celulares nessa 1ª fase da Compliance Zero estavam assim divididos: 9 com as pessoas presas que eram ligadas ao Master, Cartos e Tirreno e outros 4 com os que foram afastados de seus cargos no BRB.
Desses celulares apreendidos, 2 aparelhos eram de Daniel Vorcaro, que não quis fornecer as senhas de acesso aos equipamentos. Os 4 celulares dos agora ex-executivos do BRB foram entregues com as respectivas senhas de acesso aos seus conteúdos –ou seja, com tudo à disposição da PF para leitura imediata desde novembro de 2025.
Dos 4 celulares entregues pelos ex-executivos do BRB, o principal é o de Paulo Henrique Costa, que foi presidente do Banco de Brasília –instituição estatal que pertence ao governo do Distrito Federal. Era ele quem interagia mais diretamente com os dirigentes do Master, apontados pela PF e pelo BC como autores das fraudes.
Há no aparelho de Paulo Henrique Costa inúmeras mensagens recebidas de Daniel Vorcaro relatando com quem o então banqueiro tinha conversado no governo federal e no Banco Central e como negociava para salvar o Master. O fundador do Master fala nessas mensagens sobre diálogos que manteve dentro do Palácio do Planalto, inclusive com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Apesar de os 4 celulares apreendidos dos ex-executivos do BRB estarem com a Polícia Federal desde a 1ª fase da operação Compliance Zero, realizada em novembro de 2025 –há mais de 3 meses–, e com o conteúdo 100% aberto, a Polícia Federal optou por não compartilhar com o ministro Dias Toffoli, que foi relator do caso Master no Supremo Tribunal até 12 de fevereiro de 2026. O novo relator, nomeado na mesma data, André Mendonça, ainda não recebeu os dados.
Todos os 7 presos na 1ª fase da operação foram soltos. Em 28 de novembro de 2025, o TRF-1 (Tribunal Regional Federal da 1ª Região) determinou a soltura de Vorcaro e dos outros 4 executivos do Master. Os 5 colocaram tornozeleiras eletrônicas e cumprem medidas cautelares. Leia a íntegra da decisão (PDF – 74 kB).
Já Henrique Souza e Silva Peretto e André Felipe de Oliveira Seixas Maia foram soltos em 21 de novembro. Os pedidos de prisão dos 2 eram temporários. Valiam 3 dias e não foram renovados. Eles comandam a Cartos e a Tirreno, respectivamente, empresas que, segundo as investigações, teriam participado das operações de vendas de carteiras de crédito falsas.
No mesmo dia da 1ª fase da Compliance Zero, o BC (Banco Central) decretou a liquidação extrajudicial do Master. Leia a íntegra (PDF – 139 kB). No dia anterior, a Fictor Holding havia anunciado a compra do banco junto a um consórcio de investidores dos Emirados Árabes. Antes, o BRB também havia tentado comprar o Master. A operação recebeu aval do Cade e da Câmara do DF, mas foi barrada pelo BC.
Depois, já em 2026, o BC ainda liquidaria os bancos Will Bank (íntegra – PDF 79 kB) e Pleno (íntegra – PDF 65 kB), ligados ao Master.
A 2ª fase da Compliance Zero, deflagrada em 14 de janeiro de 2026, teve buscas em endereços ligados a Daniel Vorcaro e de alguns de seus parentes –entre eles, o pai, a irmã e o cunhado. Foram autorizados pelo STF 42 mandados de busca e apreensão nos Estados de São Paulo, Bahia, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro. Leia a decisão que deu aval à operação (PDF – 120 kB).
Nessa etapa, foram apreendidos 39 aparelhos de celular –somados aos 13 da 1ª fase, o total desse tipo de equipamento em posse da PF chegou a expressivos 52.
Também foram presos temporariamente os empresários Nelson Tanure, dono de empresas que cresceram rápido com fundos de investimentos administrados pela Reag, e Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, pastor, empreendedor e um dos aliados mais próximos do banqueiro. Leia os mandados contra os 2 (PDF – 164 kB). Como mostrou o Poder360, ao realizar a operação contra Zettel, a PF quase o deixou escapar do Brasil antes de ser preso –o que causou estranhamento entre Andrei Rodrigues e o ministro Dias Toffoli. O magistrado entendeu que a PF desejava criar uma armadilha para que houvesse uma falha do STF e assim desmoralizar a relatoria do caso.
Sabe-se que os alvos de busca e apreensão da fase 2 foram os seguintes, embora a PF não tenha divulgado uma relação oficial detalhando o que foi feito:
Eis o detalhamento dos bens apreendidos na fase 2 da Compliance Zero:
O material considerado mais sensível desse caso ainda não foi revelado por completo. Encontra-se nos 52 celulares apreendidos na investigação. Sabe-se que há citações a outras autoridades com foro. Esse é um dos pontos que dificulta o envio de toda a apuração à 1ª Instância, como é desejo de parte dos citados.
Até hoje (mais de 3 meses após as investigações terem começado), a PF nunca compartilhou com o Supremo Tribunal Federal os conteúdos de dezenas de aparelhos eletrônicos apreendidos (sendo 52 telefones celulares). O STF é responsável por relatar o caso, mas não sabe quase nada a respeito do que está sendo apurado.
O material em posse da PF sobre o caso Master, contido em celulares, computadores e arquivos de câmeras de segurança, tem informações a respeito de encontros pessoais das pessoas investigadas, festas em vários endereços e presença de mulheres contratadas especialmente para essas ocasiões. Nada foi até agora divulgado nem é possível saber exatamente quem está envolvido nesse tipo de evento.
Um arquivo com cerca de 7 terabytes, que tem sido mencionado em reportagens em alguns veículos de comunicação, é só um acervo de imagens sobre quem entrou e quem saiu de um dos endereços usados por Daniel Vorcaro em São Paulo. Nada indica que esses 7 terabytes de imagens revelem as cenas de festas promovidas pelo fundador do Master –e que têm deixado parte do establishment preocupada. Os relatos disponíveis até agora indicam que Vorcaro preferia fazer os encontros mais descontraídos em uma propriedade que alugava em Trancoso, uma praia na Bahia –e as informações disponíveis até o momento, mas não confirmadas oficialmente, dão conta de que há imagens sobre essas festas na Bahia.
A casa que era usada por Vorcaro em Brasília é uma propriedade ampla no Lago Sul, bairro nobre de Brasília (SHIS QI 26, chácara 7, casa A) –com ampla vista para o Lago Paranoá, como é conhecida a represa artificial construída no final dos anos 1950. A residência já havia sido alugada antes para outras autoridades, como o fundador da Localiza, o empresário mineiro Salim Mattar, que por um breve período participou da equipe do ministro da Fazenda, Paulo Guedes, no início do governo Jair Bolsonaro (de 2019 a 2020).
Não há informações se essa casa tem um circuito interno de câmeras de segurança nem se, caso exista esse sistema, se as imagens foram apreendidas pela PF. Era nessa casa do Lago Sul em que Vorcaro recebia políticos, integrantes do governo e até juízes, como o ministro Alexandre de Moraes, do STF.
O caso chegou ao Supremo por envolver autoridades com prerrogativa de foro: na operação Compliance Zero, que investiga o Master, foi encontrado pela Polícia Federal um envelope com o nome do deputado federal João Carlos Bacelar (PL-BA) em um endereço ligado a Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master. A relatoria do ministro foi marcada por rumores, críticas, decisões consideradas controversas e embates com a PF. Leia as principais:
Essas e outras relações de Toffoli com o caso Master elevaram a pressão para que o ministro deixasse a relatoria.
A temperatura subiu quando o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, levou em 11 de fevereiro um relatório ao presidente do Supremo, Edson Fachin, que sugeria a declaração de suspeição de Dias Toffoli na relatoria do caso Master.
A decisão de Andrei, considerada ousada, uniu 8 dos 10 ministros da Corte em defesa do colega, como mostraram diálogos exclusivos da reunião publicados pelo Drive e pelo Poder360. Na ocasião, foi decidido que Toffoli deixaria a relatoria da investigação em busca de uma autopreservação da Corte. Com a saída do ministro, a relatoria foi redistribuída para André Mendonça.
O Poder360 revelou em 29 de janeiro de 2026, com exclusividade, os depoimentos dos principais citados no caso Master.
A PF realizou uma acareação entre Paulo Henrique Costa, Daniel Vorcaro e o diretor de Fiscalização do BC, Ailton de Aquino, para esclarecer contradições dos depoimentos sobre a origem das carteiras de crédito negociadas entre o BRB e o Banco Master.
O procedimento foi conduzido pela delegada Janaina Pereira Lima Palazzo em 30 de dezembro de 2025 na sede do Supremo Tribunal Federal. Tudo foi gravado em vídeo e o Poder360 teve acesso.
São 32 reportagens, 8 vídeos com as íntegras dos depoimentos, 15 vídeos com cortes de trechos dos depoimentos e uma apuração extensa. Acesse todos os materiais aqui.
Leia outras reportagens sobre o Caso Master já publicadas pelo Poder360:
Depoimentos:
📹 Assista à íntegra do depoimento de Aquino: parte 1 e parte 2.


