Três décadas atrás, uma denúncia abalou a família e a reputação de Ibsen Pinheiro. O então ex-presidente da Câmara — um político em ascensão, tido até como presTrês décadas atrás, uma denúncia abalou a família e a reputação de Ibsen Pinheiro. O então ex-presidente da Câmara — um político em ascensão, tido até como pres

A “cobertura de luxo” de Ibsen Pinheiro, mais de 30 anos depois

2026/03/01 11:10
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Três décadas atrás, uma denúncia abalou a família e a reputação de Ibsen Pinheiro. O então ex-presidente da Câmara — um político em ascensão, tido até como presidenciável — seria dono de uma “cobertura de luxo” em sua cidade natal de Porto Alegre.  

33 anos depois, seu filho Márcio, correspondente do Brazil Journal em Porto Alegre, relembra os fatos e as versões que a imprensa publicou com estardalhaço na época.

Lula e eu tivemos um problema com um apartamento. Nos dois casos, uma cobertura. Nos dois casos, entramos na polêmica por tabela. O dele foi esmiuçado. O meu, lembrarei agora. 

Em novembro de 1993, saiu a primeira manchete envolvendo o nome de meu pai, Ibsen Pinheiro, como resultado das investigações de uma CPI em curso na Câmara que investigava fraudes no Orçamento.

Batizada com o pomposo nome de “Comissão Parlamentar Mista de Inquérito destinada a apurar fatos referentes às atividades de parlamentares na destinação de recursos do orçamento da União,” a CPI ganhou da imprensa uma alcunha menos longa e mais mobilizadora: Anões do Orçamento.

A nomenclatura fazia referência à baixa estatura de sete deputados – Genebaldo Correa, Cid Carvalho, Manoel Moreira, José Geraldo Ribeiro, Ronaldo Aragão e Geddel Vieira Lima, sob a liderança de João Alves. Meu pai, com mais de 1,70m e que nunca fora membro da Comissão de Orçamento, não se encaixava em nenhum dos dois perfis.

A manchete era apressada. Saía no alto da edição dominical de O Globo em 7 de novembro, e fora vazada pela CPI no sábado, poucas horas antes do fechamento do jornal, o que determinou o tratamento açodado dado ao tema. Mas o título não permitia dúvidas: “CPI: cheques comprometem Ibsen”

Na parte interna, um texto de Jorge Bastos Moreno era mais virulento: Ibsen havia “recebido cheques do esquema de corrupção”. “Pegamos um tubarão”, dizia um integrante da comissão.

A fonte revelada por Moreno era o folclórico senador Ney Maranhão, um ex-membro da tropa de choque de Collor e, à época, já no PPR, depois dos naufrágios de seu líder e do PRN. A outra fonte, não revelada, seria conhecida só uma década depois: o assessor Waldomiro Diniz, indicado pelo PT e próximo do senador Eduardo Suplicy e dos deputados Aloizio Mercadante e José Dirceu.

As primeiras acusações falavam de dois cheques com valores próximos a US$ 14 mil. Alimentadas por vazamentos e vitaminadas por boatos, as denúncias cresceriam e chegariam ao ápice numa capa da Veja. Às vésperas do Natal, meu pai, em depoimento à CPI, teve que rebater a acusação do deputado Luis Salomão (PDT-RJ) de que teria recebido uma cobertura de uma empreiteira.

O imóvel em questão era uma das três unidades de um prédio (sem luxo algum) no Bairro Petrópolis, em Porto Alegre. Grande, é verdade, o apartamento havia sido escolhido em 1991 pela minha mãe. Era lá que nós três vivíamos desde março de 1992. A negociação para a compra previa um pagamento em 36 parcelas – todas condizentes com a renda de um sujeito que era um advogado de relativo sucesso há três décadas, comentarista esportivo importante por duas, e parlamentar há 15 anos.

De nada adiantou.

***

Naquele mesmo novembro de 1993, o Jornal do Brasil, onde eu trabalhava, publicou uma nota dizendo estranhar que meu pai houvesse “esquecido de declarar” ao Imposto de Renda o apartamento que ele possuía em Ipanema, “logo o que Dona Laila mais se empenhou em decorar”. A nota, no então influente Informe JB, era apenas mais uma gota no tsunami de acusações imprecisas e “denúncias” que pipocavam – todas calcadas em algum exagero ou 100% falsas. Como falso era o apartamento, que nunca existiu, nunca tivemos.

Já calejado por viver nos dois lados do balcão – como jornalista e filho de uma figura pública – eu sabia que de nada adiantava desmentir. O desmentido não seria ouvido; pior, daria origem a uma nova onda de publicidade negativa, com o título clássico de quem já condenou mas teve que dar o outro lado: “Ibsen nega….”

Fiz este relato e esta argumentação à minha melhor amiga naquela época, que sabia da inexistência do imóvel e era assistente da coluna de Danuza Leão. A indignação e a revolta da minha amiga foram tão grandes que chamaram a atenção de Danuza.

Inteirando-se do que aconteceu, Danuza indignou-se, atravessou a redação e entrou no pequeno aquário que o colunista da nota mentirosa ocupava com sua assistente.

O colunista não estava, mas Danuza perguntou à assistente se ela sabia que o filho do Ibsen, alvo por tabela daquela nota fantasiosa e maldosa, era um colega de redação. E mais: que bastaria que ela desse poucos passos para descobrir que a informação era falsa.

Como isso significaria matar a “notícia”, a assistente não só não se retratou como se saiu com este primor de sem-vergonhice: “Se não tinha [apartamento], agora tem.”

***

De novembro de 1993 a maio do ano seguinte, a tal “cobertura de luxo” volta e meia ganharia destaque na imprensa – e foi uma das atrações da reportagem de capa de Veja com o título, “Até tu, Ibsen?”, publicada uma semana depois da manchete de O Globo.

Faminta pelo escândalo, a imprensa chegou a avaliar o imóvel em US$ 1 milhão, valor que nem todo o prédio mais o terreno inteiro deveriam alcançar.

Enfim, a “cobertura de luxo” ganhou uma dimensão imensa e cumpriu o papel decisivo que dela se esperava: em 18 de maio de 1994, 193 dias depois da primeira denúncia, o mandato de meu pai foi cassado, com 296 votos a favor, 139 contra e 24 abstenções.

Depois daquele dia, a “cobertura de luxo” nunca mais foi relevante, e nunca mais apareceu em nenhuma reportagem.

***

Os seis meses de superexposição que levaram à cassação alteraram uma trajetória ascendente na política nacional e obrigaram meu pai a um recolhimento. Foi o único período em que meu pai não teve um papel político mais atuante, depois de uma militância iniciada ainda na adolescência, na segunda metade dos anos 40. 

Agora, Ibsen resignava-se, porém sem nunca deixar de lutar para provar sua inocência. Cumpriria seu exílio.

Dez anos depois, o ano de 2004 marcaria uma reviravolta na vida de Ibsen. Procurado pelo repórter da Veja que havia feito a reportagem de capa, Ibsen ouviu dele o que realmente ocorrera naquela madrugada de fechamento da revista. 

O novo relato deu à revista IstoÉ material para uma nova reportagem, com o título: “Massacrado”. A linha de apoio explicava: “Como o mau jornalismo transformou US$ 1 mil em US$ 1 milhão e levou à cassação de um forte candidato a presidente do Brasil.”

A revista então narrava que o repórter da Veja, onze anos depois, confessava ter recebido de Waldomiro Diniz, assessor da CPI do Orçamento, a informação de que Ibsen transferira US$ 1 milhão de um conta da Caixa Econômica Federal para outra – também sua – do Banrisul.

O repórter na época não checou a matemática da conversão da moeda para dólar (passada pela fonte), e publicou a informação como a recebeu. Ainda segundo ele, de madrugada o time de checagem da Veja percebeu que a conversão estava errada, e que Ibsen transferira apenas US$ 1.000.

Naquele momento, meu pai passou a ser um caso raro de pessoa que, acusado injustamente, pôde ter parte de sua dor reparada ainda em vida. Não se amargurou, retomou suas atividades, e se reconstruiu – ou “se negou a morrer,” como disse em uma entrevista na época.

Mais tarde, Jô Soares perguntou a Ibsen em seu programa por que jamais havia rebatido as acusações mentirosas de que tinha US$ 1 milhão na conta. “Eu expliquei!  Mas ninguém queria escutar,” respondeu meu pai.

***

Laila, minha mãe, nunca se recuperaria daquele processo de linchamento. Entre triste e revoltada, dizia a meu pai: “Mas Ibsen, isso é uma injustiça!”  Meu pai rebatia com graça: “Ainda bem, né? Tu querias que fosse verdade?” 

Minha mãe morreu em outubro de 2013, aos 78 anos.

Meu pai ainda veria o STF arquivar todas as acusações. Parcialmente reabilitado, negou-se a entrar com processos contra pessoas ou empresas que o atacaram.

“Não vou dar um preço à minha dor,” dizia. 

Elegeu-se vereador em 2004 e deputado federal em 2006. Seguiu morando na “cobertura de luxo” até 24 de janeiro de 2020, quando morreu aos 84 anos.

A cobertura, herdada por mim, levou quase três anos para ser vendida – por bem menos que o US$ 1 milhão avaliado pela imprensa. Consta que vem sendo reformada pelo casal com duas filhas que adquiriu o imóvel. Desejo-lhes sorte.

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