Destróier USS Thomas Hudner lança míssil Tomahawk em apoio à Operação Fúria Épica, em 1º de março de 2026 — Foto: Getty Images
Enquanto mísseis americanos e israelenses destruíam instalações militares em Teerã na manhã de 28 de fevereiro, uma plataforma de apostas online estava pagando a quem havia previsto o dia exato do ataque. Bem-vindo ao Polymarket, que se apresenta como o maior mercado de previsões do mundo — e que acaba de bater o maior recorde de sua história apostando em guerra.
O Polymarket funciona como uma bolsa de valores, mas em vez de ações de empresas, negocia probabilidades de eventos futuros. Usuários compram contratos do tipo "Sim" ou "Não" sobre perguntas como "Os EUA vão atacar o Irã até 28 de fevereiro?" ou "Haverá cessar-fogo na Ucrânia até março?". As apostas são feitas em criptomoedas.
Cada contrato vale entre zero e US$ 1: quem acerta recebe US$ 1 por cota comprada; quem erra, perde tudo. O preço de cada contrato num dado momento reflete a probabilidade implícita que o mercado atribui àquele evento — um contrato a US$ 0,38 significa que os apostadores coletivamente estimam 38% de chance de o evento ocorrer.
A plataforma lucra com taxas sobre o volume de transações. E o volume, especialmente em contratos de guerra, tem sido expressivo.
Contrato "EUA x Irã: cessar-fogo até quando?" no Polymarket mostra probabilidades de 51% até 31 de março e 83% até 30 de junho, com US$ 6 milhões apostados — Foto: Reprodução
Na página dedicada à geopolítica do Polymarket, é possível identificar pelo menos 30 mercados ativos relacionados às tensões no Oriente Médio. Entre os contratos abertos neste momento:
Na seção dedicada à Ucrânia, o contrato "Haverá cessar-fogo Rússia x Ucrânia em 2025?" acumulou US$ 61 milhões em volume, com apenas 3% de probabilidade. Outros contratos detalham o avanço russo cidade a cidade, como a tomada de Pokrovsk (57% de chance) e de Kostyantynivka (90%).
O receio de uma invasão chinesa a Taiwan até o final de 2026 marca 13% na plataforma, com US$ 5 milhões apostados. Já a chance de os EUA assumirem algum controle territorial sobre a Groenlândia está em 39%. Exame
Os ataques de 28 de fevereiro transformaram o Polymarket em algo sem precedente. Conforme reportado pelo CoinDesk, o contrato "EUA atacam o Irã até qual data?", aberto em dezembro, acumulou US$ 529 milhões em volume total — tornando-se o maior já registrado nas categorias "Mundo" e "Geopolítica" da plataforma, e o quarto maior de sua história. O contrato sobre a saída de Khamenei do poder movimentou US$ 45 milhões e foi liquidado após a confirmação de sua morte, com o principal apostador faturando US$ 757.000.
A velocidade foi tão notável quanto o volume. A Polymarket levou menos de 24 horas para transformar uma guerra no Oriente Médio em um pregão ativo.
A atividade mais perturbadora ocorreu antes dos primeiros mísseis. A empresa de análise de dados Bubblemaps identificou, conforme o CoinDesk, seis contas que lucraram cerca de US$ 1,2 milhão ao apostar que os EUA atacariam o Irã especificamente em 28 de fevereiro. A maioria das carteiras foi criada nas 24 horas anteriores ao ataque, apostou naquela data específica, e não em janelas mais amplas, e comprou cotas poucas horas antes das explosões.
O episódio não foi isolado: em fevereiro, autoridades de Israel indiciaram um reservista militar e um civil por utilizarem dados confidenciais para lucrar aproximadamente US$ 150 mil com operações de segurança no Polymarket. Em janeiro, uma conta nova havia apostado US$ 30 mil na captura de Nicolás Maduro horas antes de uma operação americana e embolsou US$ 400 mil.
O Polymarket defende seus mercados como ferramenta de informação. A plataforma adicionou nota em seus mercados do Oriente Médio afirmando que, após conversar com pessoas afetadas pelos ataques, concluiu que os mercados de previsão "poderiam fornecer respostas que as notícias televisivas e o X não conseguiram".
Críticos respondem que esse argumento não elimina o problema ético central: a plataforma cria incentivos financeiros diretos vinculados à ocorrência de ataques militares e mortes. Mesmo entre plataformas de mercados de previsão que testaram limites legais e regulatórios, a maioria definiu um limite em apostas diretas em guerras. Não é o caso do Polymarket.
A plataforma está atualmente restrita em mais de 30 países. A Ucrânia baniu o acesso após o regulador de jogos citar a falta de licença e a natureza dos mercados, que incluem apostas relacionadas ao próprio conflito no país.
Nos Estados Unidos, o Polymarket foi multado em US$ 1,4 milhão pela CFTC em 2022 por operar sem registro. Investigações posteriores do FBI e do Departamento de Justiça foram encerradas sem acusações em 2025. A plataforma recebeu investimento da controladora da Bolsa de Valores de Nova York e opera atualmente com sede no exterior, o que torna a fiscalização estruturalmente difícil.
No Congresso americano, o deputado Ritchie Torres apresentou projeto de lei para proibir servidores federais de negociar contratos vinculados a decisões governamentais quando possuírem informação não pública. A proposta ainda não foi votada e novos mercados sobre o conflito no Irã continuam sendo abertos enquanto a guerra segue.


