O pregão desta terça-feira (3) foi de forte turbulência para o Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores brasileira (B3), que despencou 3,28%, aos 183.104,87 pontos, impactado pela escalada dos conflitos no Oriente Médio e consequente disparada dos preços do petróleo.
Com o desempenho, o índice agora acumula perda de 3,01% na semana e, no ano, a alta encolheu para 13,64%, numa demonstração de como o cenário externo tem pesado sobre os ativos locais.
O índice acentuou a queda diante de relatos de que autoridades dos Estados Unidos estariam preparando medidas para conter o impacto da alta nos custos de energia, fazendo com que o petróleo saltasse mais de 6% ao longo da sessão, ampliando a aversão ao risco e forte queda dos mercados globais.
As blue chips amargaram perdas mesmo diante da valorização das commodities no exterior. Após ter disparado mais de 4% na véspera, a Petrobras devolveu parte dos ganhos e fechou em queda de 0,74% (ON) e 0,44% (PN). Já a Vale, ação de maior peso no índice, recuou 4,17%, amplificando o impacto negativo sobre o Ibovespa.
Os bancos tiveram forte influência na baixa do Ibovespa, com Itaú Unibanco em queda de 3,35%, o BTG Pactual com perda de 5,86%, e as units do Santander Brasil fechando em baixa de 2,45%.
Entre as raras exceções no pregão, a Raízen avançou 6,15% e a Braskem subiu 3,24%, surfando o movimento das commodities. Do outro lado, a pressão foi intensa sobre varejo e educação: Pão de Açúcar desabou 17,78%, Yduqs caiu 6,99% e Assaí perdeu 6,49%.
No câmbio, o dólar disparou 1,92% ante o real, negociado a R$ 5,26, em uma sessão marcada pelo movimento de liquidação de ativos de risco, diante das incertezas sobre a duração do conflito no Oriente Médio.
No cenário internacional, em meio ao conflito entre os Estados Unidos, Israel e Irã, o temor de desabastecimento mundial sustenta a forte volatilidade do petróleo e eleva os custos logísticos internacionais, pressionando cadeias de suprimento e reacendendo alertas inflacionários.
Na reta final dos negócios desta terça-feira, uma intervenção do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ajudou a reduzir parte do estresse — após o Brent disparar até 9% no intraday, alcançando US$ 85, a alta perdeu força e fechou próxima de 4%, na faixa de US$ 81. O alívio veio depois de Trump afirmar que a Marinha americana poderá escoltar navios que cruzarem o Estreito de Ormuz — rota estratégica para o transporte global de petróleo.
Em publicação na rede Truth Social, o presidente anunciou proteção militar imediata a navios-tanque e garantias financeiras ao comércio marítimo, com foco especial no setor de energia. Trump determinou ainda que o governo ofereça seguro contra riscos políticos a preços “bastante razoáveis”, após seguradoras privadas cancelarem coberturas e as taxas globais de frete de petróleo dispararem.
“Independentemente do que aconteça, os EUA garantirão o livre fluxo de energia para o mundo. O poder econômico e militar dos Estados Unidos é o maior da Terra. Mais ações virão”, escreveu o presidente, confirmando informação antecipada pelo site Politico.
Do lado da oferta, o quadro é igualmente preocupante. Segundo a Reuters, o Iraque, segundo maior produtor da Opep, começou a interromper a produção em seus principais campos, reduzindo o volume para 1,5 milhão de barris por dia. Os cortes, segundo fontes do mercado, podem mais que dobrar nos próximos dias, ampliando o risco de choque na oferta global.
No Brasil, o avanço do petróleo pelo segundo dia consecutivo esfriou parte do otimismo em relação ao primeiro corte da Selic em 2026. Faltando duas semanas para a reunião do Copom, a curva de juros revela divisão crescente: o mercado agora aposta majoritariamente em um início mais cauteloso do ciclo de afrouxamento, com 54% de probabilidade de corte de 0,25 ponto percentual em março, contra 46% para uma redução de 0,5 ponto.
A expectativa para a Selic no fim do ano também foi revisada. Antes da eclosão do conflito, havia apostas de taxa abaixo de 12%. Agora, a projeção subiu para 12,5%, refletindo a pressão inflacionária potencial do petróleo e o aumento do risco geopolítico.
As Bolsas da Europa operam em alta relevante, puxadas por ações de tecnologia e saúde, após fortes perdas com a guerra no Oriente Médio. Papéis ligados a viagens e ao segmento de luxo, que vinham sendo os mais penalizados nas últimas semanas, também avançam, sinalizando um movimento de recomposição de posições por parte dos investidores.
No cenário macroeconômico da Zona do Euro, os dados reforçaram a leitura de resiliência: o índice de preços ao produtor (PPI) avançou em janeiro acima das expectativas do mercado, enquanto a taxa de desemprego registrou leve recuo no mesmo período.
Na Ásia, os mercados encerraram mais um pregão em forte queda, com investidores reduzindo a exposição ao risco e liquidando posições em empresas de semicondutores diante do temor de que os conflitos no Irã provoquem um choque nos preços do petróleo, pressione a inflação e adie os cortes nas taxas de juros.
Ásia é região mais vulnerável a um eventual fechamento do Estreito de Ormuz e que vinha registrando forte ritmo de crescimento antes dos conflitos. Na Coreia do Sul, um dos mercados mais fortes globalmente até então, o índice KOSPI despencou 12,06% no dia e acumula perdas de 17% em apenas dois pregões, refletindo um mercado excessivamente posicionado e agora em forte ajuste.
Em Nova York, os índices futuros buscam estabilidade nesta quarta-feira, em meio à escalada da guerra no Irã, que ampliou a aversão ao risco e aumentou a tensão nos mercados globais.
Confira os principais índices do mercado:
A escalada do conflito entre Estados Unidos e Israel contra o Irã segue desestabilizando o Oriente Médio e mantendo os mercados em estado de alerta. Ontem, forças israelenses e norte-americanas atingiram alvos estratégicos iranianos, provocando novas retaliações no Golfo e ampliando o risco geopolítico na principal região produtora de petróleo do mundo.
Na agenda econômica, às vésperas do payroll de sexta-feira (6), a agenda econômica dos Estados Unidos ganha peso.
Saem hoje o Livro Bege do Federal Reserve (Fed) e o relatório da ADP sobre a criação de empregos no setor privado em fevereiro. O dado sai às 10h e deve indicar abertura de 50 mil vagas em fevereiro, após 22 mil no mês anterior — um termômetro importante para as apostas em torno da política monetária americana.
No Brasil, a agenda também movimenta o pregão. Serão divulgados o índice de preços ao produtor de janeiro, indicador relevante para a dinâmica inflacionária, e o fluxo cambial semanal, que ajuda a calibrar a leitura sobre entrada e saída de dólares no país em meio ao cenário global mais turbulento.
O noticiário político-jurídico também adiciona tensão ao ambiente. O banqueiro Daniel Vorcaro foi preso pela segunda vez, agora por ordem do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, na terceira fase da Operação Compliance Zero, que investiga suspeitas de irregularidades na gestão do Banco Master. É a primeira ação autorizada por Mendonça após assumir a relatoria do caso.
A operação, conduzida pela Polícia Federal, também cumpriu outros três mandados de prisão e 15 de busca e apreensão. Entre os alvos está Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, apontado como operador financeiro e suspeito de auxiliar na prática de crimes.
Segundo a PF, a investigação apura possíveis delitos de ameaça, corrupção, lavagem de dinheiro e invasão de dispositivos informáticos, supostamente praticados por organização criminosa.
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