A decisão do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) André Mendonça que determinou a prisão preventiva do empresário Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, reproduz mensagens obtidas pela PF (Polícia Federal) durante as investigações da Operação Compliance Zero. Segundo o magistrado, os diálogos indicam tentativas de monitoramento, intimidação e ameaça contra pessoas consideradas adversárias do grupo investigado.
As conversas foram feitas em um grupo de WhatsApp, denominado “A Turma”, que tinha a função de coordenar as atividades de intimidação. Em uma das mensagens, Vorcaro fala para os seus funcionários forjarem um assalto contra um jornalista e “quebrar todos os dentes”.
As trocas de mensagens foram citadas na decisão como parte dos elementos que apontariam risco à integridade de pessoas e possibilidade de obstrução das investigações. Mendonça afirma que os registros mostram ordens para monitorar indivíduos, levantar dados pessoais e intimidar críticos do grupo. Leia íntegra da decisão (PDF – 384 kB).
Ao justificar a medida, Mendonça disse que a demora na adoção de providências poderia trazer consequências graves. Segundo o ministro, “pode-se colocar em risco a segurança e a própria vida de pessoas que se tornaram vítimas dos ilícitos apontados nestes autos”, além de dificultar a recuperação de recursos associados às investigações. A decisão cita indícios de ameaças e de ações de monitoramento contra pessoas consideradas adversárias do grupo investigado, como jornalistas e autoridades públicas.
Leia trechos de conversas atribuídas a Vorcaro, reproduzidas por Mendonça na decisão a partir de mensagens obtidas na investigação da PF:
Os itens 35 a 38 da decisão citam mensagens que tratam do pagamento mensal ao grupo responsável pelas ações de monitoramento e intimidação.
Em uma conversa reproduzida nos autos, Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão afirma a Vorcaro que “o Fabiano não mandou este mês e a turma está perguntando”, em referência aos valores repassados ao grupo. Em seguida, explica que o pagamento seria dividido entre integrantes da estrutura.
Em outro diálogo, uma funcionária pergunta a Vorcaro se o repasse seria “1 mm como normalmente”, ao que ele responde “sim”, antes de ser realizada a transferência de R$ 1 milhão para uma empresa indicada por Mourão.
As mensagens também mostram o interlocutor relatando que monitorava um ex-funcionário do empresário e perguntando se havia “algum telefone alguma coisa assim para monitorar”, o que, segundo a investigação, indicaria a atuação do grupo na coleta de informações sobre pessoas consideradas adversárias.
A defesa de Daniel Vorcaro afirmou que o empresário “sempre esteve à disposição das autoridades” e “colaborou de forma transparente com as investigações desde o início”. Em nota, os advogados negam “categoricamente as alegações atribuídas” a Vorcaro e dizem confiar que “o esclarecimento completo dos fatos demonstrará a regularidade de sua conduta”, reiterando confiança “no devido processo legal e no funcionamento das instituições”.
Eis a íntegra da nota:
“A defesa de Daniel Vorcaro informa que o empresário sempre esteve à disposição das autoridades, colaborando de forma transparente com as investigações desde o início, e jamais tentou obstruir o trabalho das autoridades ou da Justiça.
“A defesa nega categoricamente as alegações atribuídas a Vorcaro e confia que o esclarecimento completo dos fatos demonstrará a regularidade de sua conduta.
Na 3ª fase da operação, estão sendo cumpridos 4 mandados de prisão preventiva e 15 de busca e apreensão em São Paulo e Minas Gerais. O cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel, também é alvo de mandado de prisão. A PF informou que as medidas incluem afastamento de cargos públicos e bloqueio de bens de até R$ 22 bilhões para interromper a movimentação de ativos ligados ao grupo investigado.
A operação Compliance Zero começou em novembro de 2025 e investiga crimes como ameaça, corrupção, lavagem de dinheiro e invasão de dispositivos informáticos. Nas fases anteriores, a PF apreendeu 52 celulares, mais de R$ 2,6 milhões em espécie, um avião avaliado em cerca de R$ 200 milhões, 30 armas e veículos que somam mais de R$ 25 milhões. As investigações tiveram início em 2024, a partir de pedido do MPF (Ministério Público Federal) para apurar indícios de fabricação e venda de títulos de crédito falsos no sistema financeiro.
Segundo a PF, o esquema investigado apresenta 4 núcleos principais de atuação:
Foram presos preventivamente:
Vorcaro havia sido preso na 1ª fase da operação, mas foi solto por decisão do TRF-1 (Tribunal Regional Federal da 1ª Região) em novembro de 2025, quando passou a cumprir medidas cautelares e a usar tornozeleira eletrônica. O banqueiro tinha depoimento marcado para esta 4ª feira (4.mar) na CPI do Crime Organizado do Senado, mas Mendonça retirou na 3ª feira (3.mar) a obrigatoriedade de comparecimento. O presidente da comissão, senador Fabiano Contarato (PT-ES), cancelou a sessão após a ausência dos convocados.
Em nota, Contarato afirmou que a CPI seguirá investigando o caso e disse que decisões que tornam facultativa a presença de investigados “acabam permitindo que o próprio investigado escolha se quer ou não prestar esclarecimentos à sociedade”.
Leia mais:


