Petroleiro ancorado no lago Maracaibo em abril de 2025, depois de entregar uma carga de petróleo cru na Refinaria de Bajo Grande — Foto: Jose Bula Urrutia/UCG/Universal Images Group via Getty Images
A desestabilização política e militar no Oriente Médio e da América Latina está gerando um dos ciclos mais rentáveis para o setor de transportes marítimos especializados em petróleo. Segundo a Forbes, a fortuna coletiva dos 13 maiores proprietários de petroleiros cresceu mais de 50% no último ano, atingindo US$ 130 bilhões, e segue em rota de crescimento, impulsionada pelos últimos eventos geopolíticos, que reconfiguram cadeias globais de suprimento de energia.
Quanto maior a instabilidade nas rotas, maiores as margens de lucro das empresas de navegação que operam dentro do marco regulatório ocidental. Isso ocorre porque crises reduzem a oferta de transporte disponível, elevam os valores de frete e valorizam os ativos (os próprios navios) dessas companhias.
Em janeiro, o sequestro do presidente Nicolás Maduro pela administração Trump reabriu as exportações de petróleo venezuelano. O impacto foi imediato: navios de bandeira ocidental, que haviam sido afastados do país por sanções, voltaram a operar. Uma empresa de navegação conseguiu que o Mediterranean Voyager, um de seus navios, fosse o primeiro a carregar óleo da Venezuela logo no primeiro dia.
As taxas de frete subiram dramaticamente. Segundo a Forbes, as tarifas para contratar um petroleiro na Venezuela saltaram de US$ 70 mil por dia, antes de Maduro cair, para US$$ 110 mil, no final de janeiro. Após os ataques aéreos ao Irã, essas mesmas tarifas chegaram a US$ 160 mil por dia, para certos tipos de embarcação.
Os ataques coordenados entre EUA e Israel ao Irã intensificaram ainda mais a escassez de transporte. A guerra afeta dois pontos críticos da logística mundial: o Mar Vermelho, onde milícias apoiadas por Teerã atacam navios ocidentais, e o Estreito de Ormuz, por onde passa 20% da oferta diária de petróleo global. A criação desses pontos de fricção força navios a rotas alternativas mais longas, consumindo mais espaço de transporte e multiplicando a demanda.
Um segundo fator alimenta essa bonança: a campanha americana contra a "frota cinzenta", um conjunto com mais de mil petroleiros antigos registrados em jurisdições obscuras que operavam sem seguro e transportavam óleo iraniano, venezuelano e russo, contornando sanções.
Desde dezembro passado, segundo a Forbes, o governo americano apreendeu dez navios dessa frota e sancionou aproximadamente 300 outros. Essa ofensiva criou um vácuo: a China, maior importadora de petróleo venezuelano, costumava pagar taxas elevadas para usar navios da frota cinzenta. Agora, precisa recorrer a empresas legítimas de transporte, abrindo um mercado que não existia antes.
Essa mudança tem peso político e econômico. A China continuará importando petróleo com urgência, mas, sem acesso às embarcações não reguladas que antes dominavam essa rota, terá de pagar prêmios mais altos aos operadores legalizados.
As cotações de empresas de navegação dispararam. Ações da Tsakos Energy Navigation subiram 69% desde o início do ano, com um salto adicional de mais de 4% no primeiro dia de negociações após os ataques iranianos. A Frontline, quinta maior empresa de petroleiros do mundo, teve desempenho ainda melhor: alta de 93% nos últimos 60 dias.
Além das ações, o valor dos navios também subiu. A demanda por VLCCs (Very Large Crude Carriers), embarcações gigantes usadas em longas distâncias, começou a crescer aceleradamente em dezembro, antes mesmo dos conflitos recentes. Companhias como a Sinokor adquiriram mais de US$ 2,5 bilhões em VLCCs em poucos meses, elevando os preços de unidades usadas a patamares não vistos em uma década. Navios com dez anos de idade foram negociados por mais de $100 milhões cada. E esse movimento não deve parar tão cedo.
