Dinheiro, celular, fintechs — Foto: Getty Images
Durante décadas, a intermediação financeira esteve concentrada em poucas instituições, responsáveis por quase toda a originação, análise de risco e distribuição de recursos na economia. Esse desenho começou a mudar de forma deliberada em 2018, quando o próprio governo iniciou um movimento de descentralização do crédito, criando novas figuras regulatórias, ampliando o papel do mercado de capitais e abrindo espaço para que empresas não bancárias também pudessem financiar a economia real.
O objetivo nunca foi substituir os bancos, mas complementar o sistema. Surgiram as SCDs e SEPs, avançou o Open Finance, consolidou-se a duplicata escritural, o marco de garantias foi modernizado e os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios ganharam escala inédita. A mensagem era clara: o Brasil precisava de mais canais de financiamento, mais competição e mais especialização para sustentar o crescimento.
Nos últimos anos, uma nova geração de provedores de crédito passou a liberar recursos fora do sistema bancário tradicional. Em 2024, fintechs digitais concederam R$ 35,5 bilhões em crédito no Brasil, um crescimento de 68% em relação ao ano anterior. Esse avanço não se restringe ao consumo: alcança micro, pequenas e médias empresas que historicamente tiveram acesso limitado ao crédito bancário convencional.
Trata-se de um movimento de descompressão do crédito, e não apenas de inovação marginal.
Essa é uma tendência que vai além do mercado brasileiro. Dados internacionais mostram o crescimento consistente do crédito intermediado por instituições não bancárias, refletindo um processo global de desmonopolização do sistema financeiro. O que muda não é apenas quem concede crédito, mas como ele é estruturado, precificado e monitorado.
Os efeitos dessa transformação são profundos para a economia. Ao ampliar o acesso ao financiamento, novas estruturas de crédito reduzem gargalos históricos que travavam o investimento produtivo e a inovação. O capital passa a circular de forma mais eficiente e alcança setores, modelos de negócio e tomadores antes invisíveis ao sistema tradicional, em um processo que altera o perfil de risco da economia e redefine a lógica de alocação de recursos.
Nesse ambiente, a tecnologia deixa de ser um diferencial e passa a ser infraestrutura. Modelos avançados de análise de risco, integração de dados em tempo real e mecanismos automatizados de compliance tornam-se tão centrais quanto a capacidade de captação. O crédito passa a ser um produto de engenharia financeira e tecnológica, não apenas de balanço.
Essa transformação já é perceptível fora dos balanços das instituições financeiras, no cotidiano das famílias e das empresas. Uma pesquisa da Associação Brasileira de Banking as a Service (ABBaaS), em parceria com o Instituto Locomotiva, mostrou que 8 em cada 10 brasileiros já utilizam serviços financeiros oferecidos por empresas que não são bancos tradicionais. O crédito, o pagamento e a conta digital passaram a estar integrados a aplicativos de varejo, plataformas de trabalho, fintechs e empresas de tecnologia, muitas vezes sem que o usuário perceba que há uma nova infraestrutura por trás.
Isso muda a economia porque altera o ponto de partida do consumo e do investimento. O acesso ao crédito deixa de depender exclusivamente do relacionamento bancário clássico e passa a acompanhar a jornada real das pessoas: o pequeno empreendedor consegue antecipar recebíveis dentro do próprio sistema de gestão, o motorista de aplicativo financia o veículo na plataforma em que trabalha, o consumidor parcela a compra no e-commerce sem precisar recorrer ao limite do cartão tradicional. O financiamento se torna contextual, distribuído e mais próximo da geração de renda.
Quando milhões de decisões de crédito passam a acontecer nesse modelo, o efeito agregado é relevante: aumenta a formalização, amplia-se a capacidade de consumo responsável e surgem novas frentes de investimento produtivo. A descentralização não é apenas uma mudança de canal, é uma alteração na forma como o dinheiro circula e como oportunidades econômicas são criadas.
A partir desse cenário, o crescimento dos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios ganha relevância. O patrimônio desses fundos já ultrapassa R$ 800 bilhões, consolidando-se como um dos principais canais de financiamento fora do sistema bancário. Segundo a ANBIMA, em 2024, a captação líquida dos FIDCs superou R$ 113 bilhões, um salto de 184% em relação ao ano anterior e superior ao observado em diversas classes tradicionais do mercado de capitais.
Esse avanço não é casual. Os FIDCs tornaram-se a principal ponte regulada entre quem origina crédito e quem deseja financiá-lo. Empresas conseguem transformar recebíveis em capital de giro ou recursos para expansão. Investidores acessam uma classe de ativos que combina retorno, diversificação e exposição direta à economia real, tudo isso sustentado por estruturas de governança, custódia, auditoria e monitoramento contínuo.
Ao mesmo tempo, esse novo ecossistema reposiciona o papel do mercado de capitais. Em vez de atuar apenas como alternativa ao crédito bancário, ele passa a funcionar como infraestrutura complementar do sistema financeiro. A economia ganha mais fontes de financiamento, mais competição e maior resiliência, especialmente em ciclos de aperto monetário.
O crédito não se descentralizou por acaso. A economia mudou, a tecnologia amadureceu e a demanda por soluções mais eficientes se tornou incontornável. O que está em curso não é uma ruptura desordenada, mas uma reorganização estrutural do sistema de financiamento. Como toda transformação profunda, seus efeitos vão além do setor financeiro e moldam o ritmo, a direção e a qualidade do crescimento econômico.


