Os 3 Hs são um estado de liberdade: tiram pesos que drenam energia — Foto: Pexels
A grande promessa do nosso tempo é a eficiência da inteligência artificial (IA): canais digitais, automação dos chats, bots, mensagens automáticas e protocolos. Mas há um paradoxo. Quanto mais protocolos existem, mais pessoas descrevem uma experiência incômoda. É difícil estar no sistema e, ainda assim, sentir-se invisível, sem aquilo que costumava sustentar a confiança - presença humana, previsibilidade e responsabilidade.
Em ecossistemas complexos — saúde, finanças, educação, serviços públicos —. comunicação é valor, não acessório. Quando ela falha, o corpo social adoece: cresce a ansiedade, aumenta a fricção improdutiva, pioram as decisões e o ambiente se torna ameaçador, minando a criatividade e a inovação. O mau humor se generaliza, o trabalho vira defensivo, muros se erguem e justificativas em demasia proliferam, um sinal de que a entropia já se instalou.
Também em tempos de automação, as ocupações se redesenham: parte do “trabalho técnico” é acelerado por máquinas. O que ganha valor é o que a máquina não entrega sozinha: vínculo, responsabilidade, bom senso, presença. Chamamos isso de soft skills, mas são human skills – habilidades criativas estruturais que sustentam times, decisões e inovação. Na era da IA e dos protocolos, a presença humana vira ativo escasso: dá status, estratifica poder e, como tudo o que é raro, vira luxo.
Em transições e mudanças, é comum que tudo pareça correto no papel - nomes, e-mails, substitutos, canais. Na prática, instala-se o vácuo operacional, pois falta o ritual de passagem, o ponto focal disponível, o “olho no olho” que cria lastro afetivo e segurança decisória. Quando uma instituição – escolas, famílias e organizações – entrega “contatos” sem lastro humano, aumenta a entropia emocional, não só do cliente, mas a coletiva, gerando desgaste, desperdício e prejuízo na saúde física, financeira e planetária. Ou seja, temos “contato”, mas não temos “cuidado”. E isso não é romântico. É civilizatório, e precisamos recuperá-lo.
O neuropsiquiatria reichiano italiano Federico Navarro propôs uma síntese clínica que pode funcionar como uma governança da vida relacional e do cuidado em tempos de incerteza: os 3 Hs – humor, humanidade e humildade.
Navarro ensina que quem convive com os 3 Hs sustenta uma vitalidade potente. Em vez de tentar controlar tudo, viver na defensiva ou se isolar por medo, a pessoa se permite vulnerabilidade, conexão e empatia com as próprias contradições. Daí emerge a liberdade emocional, a potência criativa e o bem-estar verdadeiro — sem a exigência de ser perfeito ou forte o tempo todo.
O que torna os 3 Hs tão atuais é que não competem com a tecnologia. Ao contrário, impedem que o vínculo vire tribunal, que a linguagem vire justificativa e os encontros, games robotizados. Eles oferecem uma gramática emocional que desafia a rigidez, o poder narcísico e a sobrevivência defensiva, sintomas presentes em muitas formas de adoecimento na saúde mental e institucional.
No seu ensino clínico, que tive o privilégio de acompanhar, Federico unifica esse conceito no pescoço — região vital do organismo humano, a única que se estreita para permitir passagem e aberturas. O pescoço conecta a cabeça e o pensamento com o coração e o pulmão, oferecendo ritmo e afeição; também conecta a cabeça com os membros do corpo, que agem e dão direção aos desejos.
Não é um “centro neurobiológico” literal, mas um lugar funcional em que a vida psíquica se organiza: controle, autocensura, tensão, orgulho ferido, medo de perder posição, necessidade de aprovação, dificuldade de dizer “não” ou de dizer “eu errei”. É também no pescoço que emerge o narcisismo — e, pasmem, uma base da saúde: “quebrar o pescoço”, literalmente e literariamente, inviabiliza a vida ou nos paralisa. Mas precisamos diferenciar entre dois tipos de narcisismo.
Existe um narcisismo fundamental, necessário, que sustenta identidade e a sobrevivência — e precisa existir. Imagine-se afundando: o impulso de colocar o pescoço para fora da água e achar uma tábua/boia de salvação é um narcisismo pró-vida.
E existe o narcisismo patológico, quando a proteção vira muralha: egocentrismo, reatividade defensiva, incapacidade de escuta, impossibilidade de reparação. Aqui, a imagem é outra: o indivíduo coloca o pescoço para fora, respira, encontra a tábua — e não permite que ninguém se apoie nela, nem chegue perto.
A clínica ensina: quando o “eu” se sente ameaçado, o corpo se contrai — e o pescoço, muitas vezes, denuncia essa guerra silenciosa entre controle e entrega. E aí ficamos náufragos.
É exatamente aqui que os 3 Hs tornam-se ferramentas de trabalho sustentáveis, criativas e de comunicação propositiva. A humildade ajusta o pensar real: “posso estar errado”, “vou revisar”. Sustenta o aprendizado que nos faz evoluir, com cultura de feedback e reparação, e não de justificativas. E nos permite pedir ajuda, admitir vulnerabilidades e evoluir sem orgulho inflado. Resultado: mais paz interior e flexibilidade gestual.
Já a humanidade nos faz simétricos, nos iguala. Somos todos semelhantes e provenientes de uma mesma “eva mitocondrial”. Quando assumimos nossa humanidade, reconhecemos medos, dores, alegrias, imperfeições — e responsabilidade no encontro. “Agora entendi o contexto, desculpe-me e obrigado por me organizar”, “Vou cuidar para isso não se repita”. Reduz o custo emocional, ao nos fazer admitir dúvidas e discordar com respeito cívico. Transforma contato em relação e segurança em empatia. Resultado: relações mais autênticas e menos solidão.
O humor dissolve a antipatia e afrouxa a rigidez sem humilhar: “Ih, acho que atropelei. Vamos voltar com calma. Posso te ligar?”. Desarma defesas, reduz ameaças e abre espaço para nuances, sem ironia nem cinismo. Favorece a flexibilidade cognitiva, condição prática para sermos criativos nas travessias desta época de incertezas. Resultado: mais resiliência e superação pela inovação.
Os 3 Hs são um estado de liberdade: tiram pesos que drenam energia. Uma maturidade em que somos vulneráveis sem sermos fracos, conectados sem dependência e sérios sem rigidez. E assim atravessamos as passagens com resiliência, segurança e esperança. E, quando os 3Hs atuam no pensar, no sentir e no querer, mesmo imperfeitos, o corpo se desarma, a ética se sustenta e a decisão ganha qualidade. Isso gera saúde e potência na comunicação, transformando o falar humano em linguagem viva e curativa, a chave para atravessar as incertezas.
E como acessar essa comunicação em períodos de transição? Primeiro, é fundamental integridade corpórea e mental antes de quaisquer encontros, demandas, reuniões ou realinhamentos: respirar para ter fôlego e focar antes de sair em disparada rumo à linha de chegada. Ao focar, acessamos consciência e estratégia por meio de perguntas – o prework que organiza intenção, limites e acordos.
Aqui, sete perguntas que considero essenciais:
1.O que eu quero do outro e para quê?
2.O que ele quer de mim?
3.Eu compreendo o que está acontecendo?
4.Faz sentido para mim esta questão?
5.Quais perguntas, dúvidas ou propostas preciso trazer antes de concluir?
6.Que palavras/frases preciso ouvir — e quais preciso dizer — para chegarmos ao destino final?
7.Como registramos o que foi falado e “acordado”?
Estas são lições de governança da mente que recomendo no meu atendimento. E por que isso importa para a criatividade e a inovação humanas? Porque, quando a comunicação vira só protocolo — e, pior, quando passamos a falar e agir “como robôs” —, perdemos algo invisível e decisivo: a capacidade de evoluir. Protocolos ajudam, mas não substituem presença. Sem presença, cresce o ruído; com ruído, evitamos risco; e, sem risco, tudo se repete. E a vida perece.
A medicina personalizada mostra isso todos os dias. Quando o protocolo não basta, o que cura é tempo, atenção e investigação, para que o doente receba o que realmente faz diferença, recupere a vitalidade e possa seguir o próprio destino.
O novo tempo já está em curso. E, se a linguagem humana for sequestrada por scripts, modelos prontos e respostas defensivas, perderemos justamente o que mais precisamos para evoluir: a capacidade de encontrar para (com)versar. E seguiremos justificando, dizendo que a culpa é do outro.
Assuma o que está estagnado e investigue qual H está desajustado na sua vida para chegar à linha final. Mas o que acontece quando nos organizamos e regulamos os 3 Hs, e o outro segue robotizado, preso a protocolos e respostas frias, padronizadas? Aguardem a próxima coluna. E o quarto H.
Rubens Harb Bollos é médico, PhD em Ciências da Saúde, counsellor em gestão de crise e saúde, e presidente-fundador da ABMPP (Associação Brasileira de Medicina Personalizada e de Precisão)


