O desemprego baixo registrado nos últimos anos no Brasil aqueceu a economia, aumentou a massa salarial e trouxe ganhos de bem-estar em geral para os trabalhadores. Mas um indicador importante para o crescimento do país ficou quase que estagnado: a produtividade.
A desocupação fechou 2025 em 5,1%, no menor patamar da série histórica do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), iniciada em 2012 –quando passou a ter a metodologia atual. Ficou em 5,4% em janeiro de 2026. Em setembro de 2020, estava em 14,9%. Houve uma queda de 9,8 pontos percentuais da mínima em relação a esse pico.
A produtividade, no entanto, não acompanhou o dinamismo. Teve só ganhos marginais. Em setembro de 2018, um trabalhador brasileiro produzia 5,6% mais do que em 2012. Em setembro de 2025, essa produtividade era só 8,3% maior. O maior patamar nesse período foi na pandemia, como mostra o quadro a seguir:
O indicador de produtividade é importante porque ajuda a explicar a capacidade de um país crescer e elevar o padrão de vida das famílias. Quanto maior a produtividade, mais competitiva fica uma nação no mercado mundial para oferecer e vender seus produtos.
A produtividade no Brasil é muito baixa também na comparação internacional, mesmo quando se observa o desempenho de economias próximas, como Argentina e Chile.
Na China, a produtividade mais do que dobrou desde 2010. Na Índia, teve alta de 51,9%. Nos Estados Unidos e na Alemanha, que já têm os maiores aproveitamentos do trabalho no mundo, houve crescimento de 14,5% e 16,2%, respectivamente, até 2023. O Brasil registrou avanço de só 8,7% no período.
No quadro abaixo, há uma comparação do indicador em 12 países:
Ao olharmos para as economias mais desenvolvidas do mundo, a discrepância de produção na comparação com o Brasil é ainda maior. No G7, o Japão tem a produtividade mais baixa. Mesmo assim é mais que o dobro da brasileira.
No quadro abaixo, os valores estão convertidos em dólares por paridade do poder de compra para permitir a comparação internacional, com números de 2024:
Os dados de produtividade usados nesta reportagem vêm de duas fontes: da OIT (Organização Internacional do Trabalho) e da Penn World Table, compilados pelo site Our World in Data. Os valores têm leves variações entre eles, mas mostram o mesmo filme.
O baixo desemprego, na teoria, poderia forçar empresas e indústrias a se reinventarem, investirem em tecnologia e formação de funcionários para aumentarem a produção de outras maneiras, sem ser só com contratação de mão de obra. Por enquanto, esse fenômeno não foi observado no Brasil, que teve ganhos muito modestos na comparação com o resto do mundo.
Um dos motivos indicados por especialistas para a produtividade brasileira ter ficado quase que empacada é a criação de vagas majoritariamente de baixa qualidade no país.
Esses empregos permanecem por diversos motivos, como falta de investimentos por causa dos juros altos, tecnologia atrasada e até mesmo falta de mão de obra qualificada para determinados postos.
Um dos dados que indica com clareza esse problema é o salário de admissão das vagas. Números do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) mostram que os empregados formais admitidos em janeiro de 2026 começaram a trabalhar com um salário médio de R$ 2.389,50. Em janeiro de 2020, essa cifra era de R$ 2.424,47, já corrigida pela inflação. Houve uma queda de 1,8% no período, quando o esperado era uma alta maior do que isso, considerando que o salário mínimo teve avanço real no período.
Outro indicador que mostra a dificuldade do país em criar vagas de alto valor agregado é o rendimento médio mensal dos trabalhadores. Essa renda subiu em todos os grupos depois da pandemia, mas o avanço entre os empregados formais foi muito menor do que entre os informais e autônomos.
Dados do IBGE mostram que a renda média real (já descontada a inflação) dos empregados com Carteira de Trabalho assinada subiu 6,39% desde o início de 2019, ante 31,0% dos informais e 25,7% dos autônomos, como mostra o quadro abaixo:
A alta da ocupação no período pós-pandemia se deu, principalmente, pelo avanço de vagas nos setores de serviços e comércio. O problema é que essas áreas concentram baixos salários e também são de produtividade limitada.
A indústria, que tem postos mais qualificados, teve o menor crescimento. Na agropecuária, houve queda:
Para o pesquisador João Mário Santos de França, da FGV Ibre, a queda do desemprego se deu, principalmente, pela alta de estímulos fiscais na economia. Ele diz que o aumento da renda das famílias –que se deu muito pela alta do salário mínimo e pela inflação controlada– impulsionou o consumo e sustentou a demanda.
O problema, segundo o especialista, é que esses postos de trabalho sustentados por estímulos fiscais “têm um limite” e podem ser uma “bomba-relógio”.
“O emprego está crescendo, mas está crescendo em ocupações de baixo valor agregado e de baixa produtividade. Isso é um problema para a economia. […] A gente tem que olhar não só a fotografia, mas sim o filme inteiro. Isso pode não ser sustentável no médio e longo prazo”, declara França.
O atraso do Brasil em investir em vagas de alto valor agregado é ainda pior quando se consideram os efeitos demográficos que estão por vir.
O país está ficando mais velho, mostram os dados oficiais mais recentes. A expectativa é que num futuro próximo a população em idade apta ao trabalho comece a cair. Esse movimento precisaria ser compensado com alta de produtividade nos postos atuais para que o país (que tem uma das economias mais fechadas do planeta) não pare de crescer.
Não há uma solução única para aumentar a produtividade de um país. Tudo depende da estrutura vigente, do setor e até da cultura de cada local. Mas há alguns fatores que influenciam de forma mais direta nesse indicador:
“Ganhos de produtividade não necessariamente envolvem tecnologia ou máquinas mais modernas. Às vezes o ganho de produtividade pode estar na melhoria de um processo, numa maior eficiência gerencial e num aperfeiçoamento de gestão. O grande desafio é buscar em setores hoje na economia brasileira que mais empregam como eles podem incorporar nesses trabalhadores novos ganhos de produtividade”, diz o pesquisador João Mário Santos de França.
Esse debate sobre como aumentar a produtividade é importante, inclusive, para questões previdenciárias e de bem-estar dos trabalhadores. Em países com alta produtividade, algumas pessoas investem para ter outros meios de ganhar dinheiro e, assim, conseguirem trabalhar menos.
Isso explica por que em muitas nações mais desenvolvidas a média semanal de horas trabalhadas é menor do que nos países em desenvolvimento.
O Congresso do Brasil discute agora em 2026 a redução da jornada de trabalho para que a semana tenha, pelo menos, 2 dias obrigatórios de descanso. No debate mais avançado, a carga horária cairia das atuais 44 horas semanais para 40 horas semanais, no fim da chamada escala 6 X 1.
Alguns estudos dizem que uma mudança dessa magnitude causaria danos imediatos na economia do país, com aumento no custo de contratação, que seria, depois, repassados ao consumidor final. Alguns economistas mais à esquerda divergem dessa leitura.
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