Pauta, à esquerda na foto, foi psicóloga, escritora e ativista — Foto: Divulgação/Our Bodies, Ourselves
Nos dias e semanas após dar à luz sua primeira filha, uma bebê saudável chamada Hannah, Paula Doress-Worters se viu dolorosamente e inexplicavelmente deprimida.
“Eu me sentia péssima”, lembrou ela anos depois. “Ela era uma criança desejada. Ela era adorável. Mas às vezes eu simplesmente não conseguia sair da cama.”
Os vizinhos ficaram preocupados. Seu marido ligou para o obstetra. Quando os médicos chegaram à sua casa nos subúrbios de Boston, Doress-Worters fugiu do quarto. Ela foi perseguida, sedada e hospitalizada por um mês.
Doress-Worters deu à luz no final de 1966, numa época em que a depressão pós-parto — que afeta cerca de 1 em cada 8 mulheres após o parto — quase não tinha nome, relata o The Washington Post.
“Os médicos não disseram nada muito mais inteligente do que o que se lia em revistas femininas, como a Redbook”, disse Doress-Worters em uma entrevista para “The Movement”, a história oral do movimento de libertação das mulheres escrita por Clara Bingham. “Eles disseram: ‘É só a tristeza pós-parto, você vai superar’”.
Com o tempo e a medicação, ela superou, retornando aos esforços de ativismo que haviam sido centrais em sua vida por anos. Ainda no hospital, ela colocou um cartaz exigindo melhores salários para as enfermeiras. Meses depois, ela foi de porta em porta com a pequena Hannah presa às costas, pedindo aos vizinhos de Arlington, Massachusetts, que assinassem uma petição contra a Guerra do Vietnã.
No entanto, por anos, a escritora continuou atormentada pela depressão pós-parto, frustrada com o que ela chamava de "um buraco negro" de informações. O assunto era tratado com condescendência ou simplesmente ignorado pelos médicos que consultava e pelos livros que lia.
Em 1970, ela ajudou a preencher essa lacuna de informações como coautora de "Our Bodies, Ourselves" (Nossos Corpos, Nós Mesmas), um livro inovador sobre saúde escrito para mulheres, por mulheres — especificamente, um grupo de mais de uma dúzia de mulheres jovens e casadas chamado Coletivo de Livros de Saúde Feminina de Boston.
Publicado pela primeira vez em 1970 como “Women and Their Bodies” (Mulheres e Seus Corpos), o livro recebeu seu título definitivo quando foi reimpresso no ano seguinte. (Cortesia de Our Bodies Ourselves e Suffolk University)
Originalmente distribuído em uma edição de jornal de 193 páginas com grampos, o livro foi atacado por conservadores (o líder evangélico Jerry Falwell o chamou de “lixo obsceno”), mas tornou-se uma obra de referência best-seller, aclamada pelo JAMA, um influente periódico médico, como “uma mina de ouro de informações e recursos”.
“Our Bodies, Ourselves” ofereceu orientação humana e sem julgamentos sobre assuntos que por muito tempo foram considerados tabu, desde a anatomia e sexualidade feminina até o controle de natalidade e o aborto, que na época era ilegal na maioria dos estados.
O capítulo sobre o pós-parto foi escrito por Doress-Worters e uma colega, Esther Rome. Assim como outros capítulos, este incluía informações médicas objetivas, juntamente com histórias de mulheres comuns, que relataram suas dificuldades no pós-parto, com noites sem dormir e, em alguns casos, pensamentos suicidas.
O livro tinha um viés político. Doress-Worters e Rome citaram o filósofo Herbert Marcuse, um dos favoritos da Nova Esquerda, e convocaram as mulheres a “lutarem contra os aspectos da nossa sociedade que tornam a criação dos filhos uma experiência estressante em vez de gratificante”. Suas recomendações incluíam a criação de grupos de aconselhamento e serviços telefônicos para gestantes e puérperas, licença parental, “como a oferecida na Suécia”, e creches oferecidas pelos locais de trabalho.
“Somos todos seres humanos, todos da mesma espécie”, concluíram. “Nossos órgãos reprodutivos determinam funções complementares na reprodução. Eles não precisam e não devem determinar nossos papéis na sociedade.”
Ao destacar a experiência pós-parto em um momento em que a saúde da mulher era dominada por discussões sobre parto e direitos reprodutivos — e quando algumas das próprias integrantes do coletivo temiam que uma exploração do tema pudesse afastar alguns leitores —, Doress-Worters “realmente fez algo novo”, disse a historiadora Rachel Louise Moran, que a entrevistou para o livro de 2024 “Blue: A History of Postpartum Depression in America” (Azul: Uma História da Depressão Pós-Parto na América).
A Sra. Doress-Worters tinha 87 anos quando faleceu em 21 de fevereiro em Redwood City, Califórnia, onde morava com sua filha, Hannah Doress, e sua nora, Emily Bender.
Ela tinha câncer pancreático e demência, disse sua filha, mas tinha continuado a participar de protestos e manifestações, mais recentemente em um dos protestos “No Kings”, em outubro de 2025, onde exibiu uma placa com os dizeres: “Meu corpo, meu ser, tire as mãos de mim”.
Em uma vida que uniu ativismo e academia, lecionou história das mulheres e estudos judaicos; obteve um doutorado em psicologia social; foi coautora de outro livro inovador sobre saúde, “Ourselves, Growing Older: Women Aging With Knowledge and Power” (1987); e ajudou a reavivar o interesse pela obra de Ernestine Rose, uma feminista e abolicionista judia do século XIX, com quem sentia uma profunda afinidade.
Ao longo de todo o processo, Doress-Worters manteve-se intimamente envolvida com o coletivo que cofundou, agora conhecido como Our Bodies Ourselves (Nossos Corpos, Nossas Vidas), ou OBOS, com sede na Universidade Suffolk, em Boston.
Quando o grupo começou, “não havia informações para mulheres sobre seus corpos, sua sexualidade, reprodução e saúde mental”, disse a diretora executiva Amy Agigian, que cresceu lendo um exemplar de “Our Bodies, Ourselves” que sua mãe guardava no banheiro.
“Não havia nada escrito e disponível. Você não conseguia encontrar informações nem mesmo sobre sua anatomia básica, muito menos sobre como os orgasmos aconteciam ou o que era depressão pós-parto.”
O coletivo nasceu de uma conferência sobre a libertação feminina realizada em 1969, curiosamente, no Emmanuel College, uma instituição católica em Boston. Lá, Nancy Miriam Hawley, amiga de Doress-Worters, conduziu uma oficina incentivando as participantes a falar abertamente sobre parto, sexualidade, aborto e seus corpos.
Para muitas das mulheres, a sessão reforçou a dificuldade de obter informações confiáveis de seus médicos, numa época em que o meio médico era predominantemente masculino.
Muitas das participantes continuaram se reunindo ao longo do ano seguinte, trocando experiências e realizando pesquisas que culminaram em “Mulheres e Seus Corpos”, nome dado à primeira versão de “Nossos Corpos, Nós Mesmas”.
Publicado pelo jornal de esquerda New England Free Press, o livro vendeu mais de 220.000 exemplares antes de ser lançado comercialmente pela Simon & Schuster em 1973. No total, vendeu mais de 4 milhões de cópias, foi traduzido para 34 idiomas e revisado nove vezes, a mais recente em 2011. Naquele ano, a revista Time nomeou "Our Bodies, Ourselves" um dos 100 melhores e mais influentes livros de não-ficção em língua inglesa publicados desde a fundação da revista.
"Simplesmente tínhamos a sensação", disse a Sra. Doress-Worters a Moran, relembrando um livro que ela continuou a ajudar a editar e revisar ao longo dos anos, "de que poderíamos, de alguma forma, melhorar a sociedade".


