No Brasil, o papel do venture builder não é originar empresas, e sim acelerá-las estrategicamente — Foto: Gerd Altmann/Pixabay
Durante muito tempo, o ecossistema brasileiro de inovação foi analisado sob a lógica da comparação. O quanto estamos distantes do Vale do Silício? O quanto nos aproximamos da Europa? Em venture building, a resposta passa por outro caminho. O Brasil não replica o modelo internacional, e essa diferença não é sinal de atraso, mas resultado de adaptação estrutural. Nos Estados Unidos e em parte da Europa, essas companhias frequentemente atuam como cofundadoras desde o início. Participam da concepção da ideia, formam o time inicial, financiam os primeiros estágios e, como consequência, assumem participações societárias elevadas, que podem variar entre 30% e 50%.
Por aqui, o modelo evoluiu de maneira distinta e o papel é menos o de originar e mais o de acelerar estrategicamente. A participação societária, em geral, varia entre 5% e 15%, dependendo do estágio e da maturidade do negócio. Essa calibragem não é por acaso, mas reflete um mercado ainda em amadurecimento e fundadores mais atentos à diluição, especialmente em um ambiente no qual rodadas futuras exigem cap tables equilibrados. Há também uma diferença relevante no grau de especialização. Em mercados maduros, é comum encontrar venture builders altamente verticais, dedicadas a nichos como biotecnologia, fintech regulada, inteligência artificial ou deep tech. A densidade de capital e talentos permite essa segmentação profunda. No Brasil, historicamente, o modelo foi mais generalista. Com menor volume de startups por setor e capital mais restrito, diversificar foi uma forma de reduzir risco.
Esse cenário, no entanto, começa a se transformar, à medida que o ecossistema amadurece, surgem estruturas mais verticais, especialmente em setores com alta complexidade regulatória. O segmento de Govtech é um exemplo emblemático. No contexto brasileiro, inovação para o setor público não é apenas uma tese tecnológica, é uma tese institucional. O sucesso de uma Govtech no país depende menos exclusivamente do produto e mais da capacidade de navegar a fragmentação federativa, a regulação, os ciclos políticos e os processos de contratação pública. Competências jurídicas, comerciais e institucionais precisam estar incorporadas desde o início da construção do negócio. Em ambientes mais estáveis, esse tipo de estrutura pode ser desenvolvido ao longo do tempo, em nosso país, ela é condição de entrada.
Essa realidade também explica o nível de envolvimento operacional das venture builders brasileiras. Diferentemente de alguns modelos globais que combinam participação elevada com menor atuação no dia a dia, no Brasil a tendência é de participações mais equilibradas e acompanhamento próximo da operação. Estruturação jurídica, governança, estratégia comercial, captação e acesso institucional fazem parte do escopo de atuação. Trata-se menos de investimento passivo e mais de construção conjunta. O ambiente de negócios brasileiro ainda apresenta desafios estruturais. A disponibilidade de capital em estágios mais avançados é menor do que em ecossistemas como Estados Unidos, Israel ou Reino Unido. A complexidade regulatória é maior e a previsibilidade institucional é mais limitada. No entanto, essas mesmas condições forçaram empreendedores e venture builders a desenvolver uma capacidade elevada de adaptação e eficiência operacional.
Startups brasileiras aprendem cedo a operar em cenários adversos. Constroem soluções voltadas a problemas reais e de grande escala, especialmente em setores como fintech e Govtech. Muitas já nascem preparadas para ambientes complexos, o que pode se tornar uma vantagem competitiva relevante quando expandem para outros mercados, inclusive desenvolvidos. O perfil do empreendedor brasileiro também influencia. Por aqui há resiliência, pragmatismo e capacidade de execução em contextos incertos, mas historicamente houve menor acesso a capital, redes globais e experiências prévias de escala. Isso exige venture builders mais estruturantes, capazes de apoiar a profissionalização da gestão, a organização da governança e o acesso a mercado.
O resultado é uma gestão que não replica o padrão global, mas responde às características locais. Participações societárias mais calibradas, atuação operacional próxima, maior atenção à governança e capacidade de navegar ambientes regulatórios complexos não são desvios. São adaptações estratégicas. Ao não copiar o modelo internacional, o Brasil construiu uma lógica própria de venture building. Em setores como Govtech, essa diferenciação não é apenas relevante, é determinante. Em inovação, contextos distintos exigem formatos também distintos. E, nesse caso, a diferença se transformou em vantagem.
*Diogo Catão é CEO da Dome Ventures, uma Venture Builder GovTech que tem o propósito de transformar o futuro das instituições públicas no Brasil

