Segunda colocada no mercado de smartphones no Brasil, com 27,5% de market share, a Motorola decidiu entrar no segmento ultrapremium, área em que não atuava, para tentar diminuir a distância para a rival sul-coreana Samsung, líder no País, com 40% de participação.

A empresa trouxe o modelo Signature, topo de linha da marca, lançado globalmente em janeiro deste ano, e que custa R$ 9 mil. As vendas começaram na segunda-feira, 9 de março. O aparelho passa a entrar na mesma prateleira do Galaxy S26 Ultra, da Samsung, em pré-venda no Brasil por cerca de R$ 11 mil.

Mas a unidade brasileira da companhia americana de telefonia móvel, hoje controlada pela gigante chinesa Lenovo, enxerga muito além da concorrência com a rival asiática. A briga também é contra o mercado ilegal, por meio de contrabando, que hoje representa uma fatia de 20% do volume de todos os telefones celulares em circulação no Brasil.

“O Brasil é um país que tem muitos problemas e o contrabando é o maior deles neste momento. Ao mesmo tempo em que há lei de proteção à indústria nacional, com investimentos, o país permite que produtos como o celular entrem por meio de contrabando, sem pagar nenhum imposto”, diz Rodrigo Vidigal, CEO da Motorola Brasil, em entrevista ao NeoFeed.

Segundo o executivo, esta falta de controle de fiscalização atrapalha o avanço de iniciativas como a implementação de unidades de fabricação. A Motorola tem duas fábricas no país, em Manaus (AM) e Jaguariúna (SP).

Mesmo com estes desafios, segundo Vidigal, a empresa investiu R$ 3 bilhões somente em pesquisa e desenvolvimento na última década no país. A Motorola tem hoje quatro centros de inovação no mundo. Um deles é no Brasil, com a atuação de 1,2 mil engenheiros (os outros são nos Estados Unidos, Índia e China).

Na avaliação de Vidigal, é necessário enfrentar, de forma clara, este problema, que vem crescendo de forma expressiva. “Antigamente, você tinha que ir a um lugar distante, uma portinha, e comprar do contrabandista. Hoje é possível comprar de dentro de casa, de um marketplace. Isso também precisa ser atacado.”

motorola signatureO Motorola Signature, lançamento para disputar o mercado premium no Brasil

Outro ponto que flerta com o problema da entrada ilegal de aparelhos, principalmente do Paraguai e Bolívia, é a questão tributária. Pelo menos 40% do valor do celular no Brasil corresponde ao custo dos impostos.

Esta alta carga tributária impede, inclusive, que a unidade brasileira da Motorola possa exportar seus aparelhos para os Estados Unidos e, principalmente, os países da América Latina.

Topo da pirâmide

Com o lançamento do modelo Signature, a Motorola pretende absorver uma fatia entre 10% e 12% do mercado dos aparelhos do alto da prateleira, mais caros e com mais recursos. Neste segmento ultrapremium, ela perde também para a Apple, com o iPhone.

Durante o Mobile World Congress (MWC), em Barcelona, na Espanha, o vice-presidente sênior da Samsung América Latina, Antonio Quintas, disse ao NeoFeed que a companhia havia se surpreendido que mais de 80% dos pedidos no Brasil haviam sido do aparelho mais caro da linha S26.

Para Vidigal, da Motorola, há, de fato, um público importante no país que enxerga o valor agregado como principal benefício na compra, apesar do alto valor do aparelho.

“O Brasil tem uma pirâmide e os produtos mais caros estão voltados ao topo desta pirâmide. Este grupo busca o que há de mais avançado em performance. Por isso que trouxemos o mais completo que a Motorola oferece.”

Se a sul-coreana apresentou como principal chamariz a tela de privacidade, que, a depender do ângulo, impede que alguém consiga ver o conteúdo do aparelho, no caso da Motorola a aposta está na qualidade da câmera. “Cada um usa as suas armas. E quem define, no final, é o consumidor.”

No cenário global, o Brasil é o terceiro maior mercado da Motorola, atrás da Índia e dos Estados Unidos. A empresa não abre o percentual por país.

No balanço do terceiro trimestre de 2025, a Lenovo, dona da Motorola, reportou receita de US$ 22,5 bilhões. Deste volume, US$ 15,8 bilhões vieram da unidade de dispositivos inteligentes, onde está a Motorola.

Na bolsa de Hong Kong, as ações da Lenovo acumulam desvalorização de 23,8% em 12 meses. A companhia tem valor de mercado de US$ 15 bilhões.

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