Por Renata Campedelli*
O surgimento das criptomoedas é uma das maiores novidades em tecnologia e finanças do nosso tempo. Mas, para além da empolgação e das notícias sobre seus preços, existe uma tecnologia fascinante e uma matemática engenhosa que fazem tudo isso funcionar.
Para entender uma criptomoeda, primeiro precisamos entender o dinheiro que já usamos. A maioria das moedas que conhecemos, como o dólar ou o real, são chamadas de moedas fiduciárias — a palavra vem de “confiança”. O valor delas não está preso a um bem físico, como o ouro, mas sim na confiança que temos no governo que as emite e na saúde da economia do país.
Antigamente, existiam as moedas lastreadas, cujo valor era garantido por uma quantidade real de um bem, como o ouro guardado em um cofre.
As criptomoedas criam uma categoria. A maioria delas, como o Bitcoin (BTC) e o Ethereum (ETH), funciona de uma maneira diferente. Elas não têm um lastro físico e não são controladas por um banco ou governo. O valor e a confiança nelas vêm de três pilares tecnológicos:
Dentro do universo cripto, existem também as stablecoins, moedas digitais criadas para não sofrerem com a grande variação de preços. Elas são projetadas para manter um valor estável, geralmente atrelado a uma moeda forte como o dólar.
Existem alguns tipos de stablecoins, como as garantidas por moeda fiduciária, a exemplo da Tether (USDT), e as garantidas por commodities, lastreadas em bens físicos, como a PAX Gold (PAXG).
Há também stablecoins garantidas por criptoativos, ou seja, lastreadas em uma cesta de criptomoedas. E existem as stablecoins algorítmicas, que tentam controlar a oferta para manter o preço estável.
A blockchain é a tecnologia que permite as criptomoedas, funcionando como um registro digital compartilhado e imutável, em que cada bloco representa uma lista de transações encadeadas por códigos únicos.
A segurança e transparência do sistema são garantidas por mecanismos de consenso. No modelo Prova de Trabalho (PoW), mineradores competem para validar blocos e recebem recompensas em criptomoedas. Já na Prova de Participação (PoS), validadores apostam suas moedas para aumentar suas chances de validar blocos — método adotado por redes como Ethereum, Solana e Cardano por ser mais eficiente energeticamente.
PoW e PoS mantêm a rede segura e funcionando ao validar transações, dificultar ataques e receber novas moedas e taxas como recompensa.
As criptomoedas deixaram de ser apenas dinheiro digital com a chegada dos contratos inteligentes, popularizados pelo Ethereum. Esses programas automatizam acordos na blockchain sem intermediários.
A inovação permitiu o surgimento das aplicações descentralizadas (dApps) e das finanças descentralizadas (DeFi), que buscam recriar serviços financeiros tradicionais de forma acessível, além dos NFTs, que garantem autenticidade para itens digitais únicos.
A grande variação de preços sempre foi um problema para usar criptomoedas como o bitcoin no dia a dia. As stablecoins resolvem isso. Por terem seu valor atrelado a moedas fortes, elas unem a estabilidade do dinheiro tradicional com a agilidade da tecnologia blockchain. Combinadas com carteiras digitais, elas criam uma forma de pagamento global, rápida e barata.
Tether (USDT), lançada em 2014, é a maior stablecoin do mercado. Prometia ser lastreada por dólares em bancos, mas nunca comprovou totalmente suas reservas, que incluíam investimentos de risco. Ainda assim, USDT permanece popular e amplamente usada, especialmente em países com moedas frágeis.
Efetuar pagamentos globais, fazer transferências para qualquer lugar do mundo sem burocracia e muito mais barato do que por meio dos bancos tradicionais, disponível 24/7 e só precisa de um celular, não precisa de conta no banco. Esse é o uso cotidiano das stablecoins.
Apesar do potencial, ainda existem barreiras. Usar carteiras em que você é o único dono da senha pode ser complicado para iniciantes. A segurança também é uma preocupação, com riscos de golpes e roubos. Além disso, os governos ainda estão decidindo como regulamentar as stablecoins, o que cria um cenário de incerteza.
É verdade que, no início, o pseudoanonimato das criptomoedas atraiu o interesse de criminosos. No entanto, a ideia de que as criptos são um paraíso para atividades ilegais está cada vez mais ultrapassada.
A maioria das transações fica registrada para sempre na blockchain e pode ser rastreada. Hoje, empresas de análise de dados ajudam a polícia a seguir o dinheiro e identificar atividades suspeitas. A discussão sobre o uso indevido da tecnologia é complexa e mereceria um artigo inteiro só para ela.
A tecnologia das criptomoedas está nos forçando a repensar o dinheiro e a internet. A possibilidade de fazer pagamentos globais, baratos e instantâneos já é uma realidade que desafia o sistema financeiro tradicional. Não é à toa que bancos centrais do mundo todo, inclusive o do Brasil com o Drex, estão criando suas próprias moedas digitais.
Independentemente do que acontecer com o preço do Bitcoin, a invenção da blockchain e dos contratos inteligentes já liberou uma onda de inovação que continuará a transformar a tecnologia, as finanças e a própria internet no que muitos estão chamando de Web3.
*Renata Campedelli é diretora de Payments and Service Delivery e associada da Conselheiros TrendsInnovation.
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