Pesquisadora e autora Jennifer Wallace — Foto: Rennan Julio/Época NEGÓCIOS
Em meio a uma das maiores ondas de inovação tecnológica da história, muitas pessoas estão olhando para o… passado. O retorno de discos de vinil, telefones fixos e câmeras descartáveis parece nostalgia. Mas, para a pesquisadora e autora Jennifer Wallace, o fenômeno revela algo mais profundo: saudade de um tempo em que as pessoas se sentiam mais importantes umas para as outras.
“O que realmente sentimos falta é do sentimento de importar, saber que você é valorizado e que está agregando valor à vida das pessoas ao seu redor”, afirmou Wallace durante sua palestra no SXSW.
A palavra aparece cada vez mais em pesquisas sobre bem-estar, mas ainda é pouco compreendida. Para Wallace, mattering – algo como “importar para alguém” – descreve um estado fundamental da experiência humana: saber que você é valorizado e que sua presença faz diferença.
“A maioria das pessoas conhece a palavra, mas o que muitas não sabem é que isso é, na verdade, uma necessidade humana fundamental”, disse. “Precisamos sentir que somos valorizados e saber que acrescentamos valor ao mundo ao nosso redor.”
Segundo ela, essa necessidade está profundamente enraizada na evolução humana. Para os primeiros grupos humanos, ser valorizado pelo coletivo significava sobrevivência. Ser excluído podia significar algo muito mais grave.
“Para nossos ancestrais mais antigos, ser valorizado pelo grupo significava proteção e sobrevivência. Ser desvalorizado significava morte certa. Essa programação antiga ainda está dentro de nós hoje e continua orientando nosso comportamento.”
Quando as pessoas sentem que importam, diz Wallace, elas tendem a aparecer no mundo de forma mais positiva. Contribuem mais, se engajam mais e constroem relações mais profundas. O oposto também acontece.
Esse sofrimento pode assumir diferentes formas. Algumas pessoas se tornam ansiosas ou deprimidas. Outras passam a se anestesiar nos próprios celulares ou recorrem a substâncias para lidar com a dor. Em casos mais extremos, o sentimento aparece de maneira brutalmente direta.
“Um estudo com homens acometidos por depressão analisou as palavras que eles mais usavam para descrever seu sofrimento: inútil e sem valor. Essas duas palavras capturam o peso enorme de sentir que você não importa.”
Para Wallace, essa discussão ganha uma dimensão ainda mais urgente diante das transformações tecnológicas em curso. Líderes da indústria de tecnologia já preveem que, dentro de uma década, grande parte das tarefas hoje realizadas por humanos poderá ser executada por máquinas.
“Em breve, esse sentimento de inutilidade pode crescer em uma escala que nunca vimos antes”, disse. Nesse cenário, o grande desafio do futuro pode não ser apenas acompanhar a velocidade da inovação tecnológica.
A autora passou anos pesquisando o tema e entrevistando pessoas em diferentes contextos, de executivos e empreendedores a trabalhadores de fábrica, professores e bombeiros. A partir dessas histórias, ela identificou quatro elementos que sustentam o sentimento de importar.
Segundo Wallace, as pessoas precisam sentir que são importantes, que são reconhecidas, que alguém aposta nelas e que são necessárias para os outros. Juntos, esses quatro elementos materializam uma forma simples de lembrar o que sustenta a sensação de que alguém faz diferença.
“O primeiro elemento é sentir-se significativo, importante”, explicou. “O segundo é sentir-se apreciado, perceber que quem você é e o que você faz realmente faz diferença.”
O terceiro é sentir que alguém está interessado em você, que existe alguém ao seu lado preocupado com o seu bem-estar e os seus objetivos. O quarto é sentir que as pessoas dependem de você, que você é necessário e que faria falta se não estivesse ali.
O que mais surpreendeu Wallace durante a pesquisa foi perceber que esse sentimento raramente nasce de grandes conquistas.
“Quando eu pergunto às pessoas para contar um momento em que sentiram que importavam, elas nunca falam dos grandes marcos da vida”, contou. “Elas falam de pequenos momentos do dia a dia.”
Pode ser o vizinho que leva sopa quando alguém está doente. Ou um colega que liga para saber como foi uma semana difícil no trabalho.
Ao mesmo tempo, a cultura contemporânea muitas vezes dificulta esse tipo de conexão. Wallace citou pesquisas que apontam para um fenômeno chamado “perfeccionismo socialmente prescrito”, a crença crescente de que a sociedade espera que todos sejam impecáveis. “É a ideia de que precisamos ser perfeitos, parecer de determinada maneira e performar em um determinado nível apenas para sermos dignos.”
Essa pressão, segundo ela, está associada a três crenças muito difundidas na sociedade contemporânea: a ideia de que somos aquilo que possuímos, aquilo que fazemos ou aquilo que os outros pensam de nós.
“Se eu sou o que eu tenho, então preciso ter mais. Se eu sou o que eu faço, preciso conquistar mais. E se eu sou o que os outros pensam de mim, então preciso ser perfeito.”
O problema é que essa busca constante por perfeição dificulta a construção de relações autênticas. “É impossível se conectar de verdade com alguém que está escondido atrás de uma fachada de perfeição.”
Essa mesma lógica aparece com força no ambiente de trabalho. Wallace citou pesquisas indicando que cerca de 70% dos trabalhadores relatam algum nível de desengajamento.
“As pessoas não se desconectam porque são preguiçosas”, afirmou. “Elas se desconectam porque não acreditam que o que estão fazendo faz diferença.” Quando alguém sente que seu esforço não importa, reduzir o engajamento se torna uma forma de autoproteção.
“Dói menos retirar o seu esforço do que continuar colocando energia em um lugar que faz você se sentir invisível.”
Por outro lado, organizações que conseguem reforçar o sentimento de importância tendem a colher resultados claros. Funcionários mais engajados trabalham melhor, permanecem mais tempo na empresa e trazem mais energia para suas funções.
“Quando os funcionários sabem que importam, eles trabalham mais, permanecem mais leais e trazem mais energia para seus papéis.”
Para Wallace, essa conexão com o impacto do próprio trabalho é essencial. Não basta fazer algo importante. As pessoas precisam saber que aquilo realmente fez diferença. “Não basta fazer um trabalho importante. Precisamos saber que nosso trabalho fez diferença.”


