De acordo com o professor especialista em Oriente Médio da Unipampa (Universidade Federal do Pampa) Renatho Costa, o Irã prefere a destruição do país a ter que aceitar influências ocidentais novamente. O país está em guerra com os Estados Unidos e Israel desde que foi atacado em 28 de fevereiro de 2026. No mesmo dia, o então líder supremo, Ali Khmenei, morreu em um bombardeio.
Segundo Costa, o governo do Irã é muito bem estabelecido e por isso dificilmente cairá com a guerra. “Os aiatolás não chegaram ao poder só em 1979. Historicamente, eles sempre estiveram presentes. […] Então você tem praticamente um século para construir uma estrutura religiosa”.
Por isso, segundo ele, o caso é diferente de outras intervenções norte-americanas. “Não é como em outros casos –por exemplo, a Venezuela– onde você negocia, tira um presidente e coloca outro, e os EUA acabam tendo grande influência. No Irã, para fazer isso, seria necessário desmontar toda a estrutura do Estado. E grande parte dessa estrutura é apoiada pela população”, afirmou.
O especialista também diz que a guerra pode não ter condições de durar até a queda de Teerã: “Se os EUA e Israel não conseguirem promover uma destruição total agora –o que me parece que não vão conseguir–, haverá um tempo. E esse período subsequente pode ser um processo de fortalecimento, pelo menos da parte militar.”
Atualmente um regime presidencialista, o Irã foi uma monarquia até 1979, quando o xá Reza Pahlavi foi tirado do poder pela Revolução Islâmica. Durante o governo de Pahlavi, o país persa manteve uma proximidade com o ocidente marcada pela influência e o controle do petróleo pelos britânicos e norte-americanos. Apesar de sofrer com inflação, desemprego e oposições internas, ainda há apoio popular ao regime, pautado na aversão à interferência estrangeira durante a monarquia.
O petróleo iraniano foi descoberto em 1908 e é até hoje seu principal produto. Desde o início, concessões petrolíferas beneficiaram empresas estrangeiras que pagavam royalties muito baixos para o Irã. Essa situação transformou um país estratificado economicamente, no qual o dinheiro do petróleo ficava concentrado na elite ligada a Pahlavi.
Durante a década de 1950, houve uma tentativa do primeiro-ministro Mohammad Mossadegh de nacionalizar a indústria petrolífera iraniana. A medida visava a transformar os lucros do petróleo para financiar o desenvolvimento interno do Irã, em vez de beneficiar apenas potências estrangeiras.
Sentindo-se ameaçados, o Reino Unido e os EUA implementaram a Operação Ajax por meio da CIA (Agência Central de Inteligência, em inglês) e do MI6 (Serviço de Inteligência Secreto, em inglês). A operação depôs Mossadegh e consolidou o poder de Pahlavi.
Foi só em 1979, com a Revolução Islâmica, que o Irã se tornou uma república anti-Ocidental com forte influência religiosa. Um código penal baseado nos valores xiitas foi instituído em 1991 e renovado em 2013.
“O Irã passa a ser visto como um ‘problema’. Para o Ocidente, isso ocorre principalmente após a revolução. Até então, havia um controle praticamente absoluto. O petróleo sempre foi expropriado e os royalties pagos eram baixíssimos”, afirmou Costa.
Apesar de contar com presidente e Parlamento, o líder supremo é a figura central do governo. O cargo deve ser ocupado por um aiatolá (integrante do alto escalão islâmico xiita) que tem poder sobre as Forças Armadas do país.
Com uma cultura fortemente nacionalista e anti-Ocidental, o país sofreu com sanções econômicas principalmente dos EUA. As sanções se intensificaram com um incidente com reféns na Embaixada dos EUA no Irã e só foram aliviadas durante o curto período na qual o acordo nuclear JPCOA (Plano de Ação Integral Conjunto, em inglês) foi respeitado.
O acordo, assinado em 2015 pelo país persa, a União Europeia e o P5+1 (grupo formado por China, França, Alemanha, Rússia, Reino Unido e Estados Unidos), visava a garantir que as pesquisas nucleares iranianas seriam somente para propósitos pacíficos.
Os EUA se retiraram do acordo nuclear no 1º mandato Donald Trump (Partido Republicano) e as sanções foram novamente impostas.
As tensões entre as duas nações voltaram a escalar, culminando no início da guerra em 28 de fevereiro. Trump afirmou em seu perfil na Truth Social que os Estados Unidos estão “destruindo totalmente o regime terrorista do Irã, militarmente, economicamente e de outras formas”.
No entanto, Costa considera que a destruição iraniana não será rápida o bastante para que a economia internacional aguente: “Houve projeções perguntando se o barril de petróleo poderia chegar a US$ 200. Se isso acontecer, muitos países quebrariam. Talvez US$ 200 não seja provável, mas US$ 150 ou US$ 170 já seria um valor absurdo. E muitos países não teriam condições de suportar isso. O Irã sabe disso”, completou.
Esta reportagem foi produzida pela trainee em jornalismo do Poder360 Maria Eduarda Lourenço sob a supervisão do editor João Vitor Castro.


