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Estratégia e sustentabilidade: o exemplo do setor siderúrgico

2026/03/17 22:41
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O que fazer quando seu produto vira commodity? Muitos setores estão sentindo a pressão de produtos chineses chegando ao Brasil. Um caso emblemático é o aço. O material é fundamental para qualquer economia moderna, presente em setores tão diversos quanto construção civil, infraestrutura, indústria automotiva e eletrodomésticos. Justamente por essa ubiquidade, porém, ele também se torna facilmente comoditizado.

Nos últimos anos, a comoditização se intensificou. Em 2025, as importações de aço no Brasil cresceram cerca de 32%, ampliando a pressão sobre a produção doméstica. Uma parcela significativa vem da China, cuja capacidade instalada supera amplamente a demanda interna e encontra nos mercados internacionais uma válvula de escape. E o futuro não parece favorável. O novo plano econômico chinês projeta a menor meta de crescimento em décadas. Ao mesmo tempo, tensões geopolíticas no Oriente Médio, destino de mais de 10% das exportações chinesas de aço, podem redirecionar ainda mais volume para outros mercados inclusive Brasil.

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Para muitas siderúrgicas, competir apenas por preço contra esse volume globalizado é uma estratégia com baixa probabilidade de sucesso.

Qual é a alternativa? Nas aulas de estratégia aprendemos, com os modelos de Michael Porter, que existem basicamente duas formas de competir: liderança em custos ou diferenciação. Se competir apenas por custo se torna difícil, a pergunta passa a ser: como diferenciar o aço?

A resposta pode parecer surpreendente: aço verde. Cada vez mais setores industriais, especialmente o automotivo, começam a exigir materiais com menor intensidade de carbono em suas cadeias de suprimento. Montadoras globais precisam reduzir não apenas as emissões de seus veículos, mas também as emissões associadas aos materiais utilizados na produção.

Esse movimento pode transformar profundamente o setor. O mercado global de aço de baixo carbono está projetado para crescer de cerca de US$ 7 bilhões em 2025 para potencialmente US$ 190 bilhões até 2032, um crescimento anual superior a 60%.

Mas como produzir um aço de baixo carbono? A primeira alavanca é a economia circular. O aço tem uma característica rara entre materiais industriais: é 100% reciclável e pode ser reutilizado indefinidamente sem perder qualidade. Empresas como a Gerdau já exploram essa vantagem competitiva. Mais de 70% da produção da empresa utiliza sucata metálica como matéria-prima, permitindo emissões cerca de 50% menores por tonelada de aço em comparação com rotas tradicionais baseadas em alto-forno.

Esse modelo também está atraindo investimentos relevantes. Em 2025, o BNDES aprovou R$ 566 milhões para um novo centro de reciclagem da Gerdau em Pindamonhangaba.

Outras empresas seguem a mesma direção. Em fevereiro de 2026, a ArcelorMittal firmou uma parceria com o Grupo SADA para ampliar o fornecimento de sucata metálica. Nesse contexto, a economia circular deixa de ser apenas um conceito ambiental e passa a ser uma ferramenta de competitividade.

A segunda frente envolve novas rotas tecnológicas capazes de reduzir ou eliminar o uso de carvão na produção de aço. Uma dessas rotas é o forno elétrico a arco, que utiliza eletricidade em vez de carvão e apresenta uma pegada de carbono significativamente menor. O próximo passo tecnológico é combinar essa rota com hidrogênio verde, substituindo o carbono no processo de redução do minério.

No Brasil, a Companhia Siderúrgica Nacional captou R$ 102,8 milhões da Finep para desenvolver um projeto de produção de aço com hidrogênio de baixo carbono.

Aqui surge uma vantagem estratégica do país. A matriz elétrica brasileira é majoritariamente renovável e o Brasil possui enorme potencial para produção de hidrogênio verde. São dois ativos que podem favorecer a produção de aço de baixo carbono.

O exemplo do setor siderúrgico ilustra um ponto importante sobre estratégia e sustentabilidade. Durante muito tempo, sustentabilidade foi tratada nas empresas principalmente como uma questão de relatórios, reputação ou compliance. No caso da siderurgia, porém, ela está se tornando algo muito mais fundamental: uma estratégia industrial para escapar da comoditização.

Ao investir em economia circular e em tecnologias de baixo carbono, as empresas não estão apenas reduzindo emissões. Estão criando condições para oferecer um produto diferenciado em cadeias industriais cada vez mais exigentes. Em um mundo onde o aço básico tende a competir apenas por preço, a pegada de carbono do material pode se tornar a próxima grande vantagem competitiva.

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