Chegada da menopausa significa lidar com uma ampla gama de sintomas que afetam a qualidade de vida — Foto: Getty Images
Não é exagero dizer que, por volta dos 50 anos, a vida da mulher passa por uma drástica transformação e sem retorno. A chegada da menopausa, para a maioria de nós, significa lidar com uma ampla gama de sintomas que afetam a qualidade de vida, como ondas de calor, distúrbios do sono e alterações de humor — sem contar o chamado brain fog, associado a lapsos de memória e dificuldade de concentração. São terríveis, mas, infelizmente, suas consequências vão muito além disso. A queda dos níveis hormonais, principalmente o estrogênio, repercute em todo o resto, do coração aos ossos, da perda muscular à elasticidade da pele.
Veja o caso do coração: até aqui, o estrogênio exerceu um papel protetor das mulheres, mas quando ele diminui, nos igualamos aos homens nos riscos de sofrer, por exemplo, infarto e insuficiência cardíaca. "Em alguns casos, o risco pode até ser pior, pois os mecanismos que eram de defesa viram de ataque", diz o cardiologista Leonardo Jorge de Paula, 45 anos, que atende no Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. “O risco cardiovascular aumenta só de entrar na menopausa", diz a endocrinologista Dolores Pardini, 74 anos, chefe do Ambulatório de Menopausa da Disciplina de Endocrinologia da Universidade Federal de São Paulo. Os dois especialistas estão entre os entrevistados do Podcast Mulheres de 50, que, em sua 17.ª temporada, está explorando temas relacionados à saúde e bem-estar da mulher depois dos 50.
Não é por acaso que a menopausa abre a série de 10 entrevistas do programa em 2026. Até 2030, 1 bilhão de mulheres vão atravessar a menopausa, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Ainda assim, o tema é cercado por desinformação e tabus que deixam grande parte das mulheres relutantes em procurar ajuda. E muitas só consultam seu médico quando as ondas de calor— episódios de calor intenso, rubor e sudorese — se tornam insuportáveis. “Só se tratar quando tiver fogacho é uma lástima", diz a Dra. Dolores, da Unifesp, referindo-se àquelas que, por não terem esse sintoma, evitam o tratamento.
Endocrinologista Dolores Pardini, chefe do Ambulatório de Menopausa da Disciplina de Endocrinologia da Universidade Federal de São Paulo — Foto: Arquivo pessoal
A Terapia de Reposição Hormonal (TRH) é um dos pontos mais cercados por controvérsias. Persistem crenças de que ela causa câncer, leva ao ganho de peso ou aumenta o risco de demência. Dolores Pardini concorda que evoluímos bastante nas informações sobre as TRHs nos últimos anos, mas que muitos médicos ainda evitam prescrever hormônios por desinformação. Embora o tema ainda exija avaliação individualizada, evidências mais recentes indicam que, para muitas mulheres, os benefícios podem superar os riscos, especialmente quando iniciada no período adequado.
Esse conceito vem sendo descrito como “janela de oportunidade”, que prega o início precoce da terapia. É o que mostra estudo apresentado este ano no encontro da Academia Americana de Cirurgiões Ortopédicos (AAOS): mulheres que iniciam a reposição hormonal precocemente, com até um ano da menopausa, têm risco menor de osteoporose. Quanto antes começar, melhor.
Para quem acredita que esse é um assunto distante, vale um alerta: a redução do estradiol também está associada a mudanças na distribuição de gordura corporal. Há uma tendência de maior acúmulo na região abdominal, um fator relacionado ao aumento do risco cardiometabólico, incluindo doenças cardiovasculares e diabetes.
Em resumo, os fogachos são apenas uma das manifestações da menopausa — e não necessariamente a mais relevante do ponto de vista da saúde.
*Maria Tereza Gomes é jornalista, mestre em administração de empresas pela FEA-USP, CEO da Jabuticaba Conteúdo e mediadora do podcast “Mulheres de 50"


